Ausências esvaziaram encontro em Brasília
O Brasil e os demais países sul-americanos decidiram
endossar as cobranças feitas pelo mundo árabe
em relação ao cumprimento de resoluções
da ONU pelos Estados Unidos e Israel. Na declaração
que foi divulgada dia 11/5 pelos chefes de Estado e de governo,
na Cúpula América do Sul-Países Árabes,
os participantes mencionaram a necessidade dos israelenses
devolverem as áreas ocupadas e afirmam estar preocupados
com as sanções econômicas impostas pelos
EUA à Síria. Mas a principal novidade do documento,
que atinge os interesses do Reino Unido, é a inclusão
de um parágrafo em que todos se solidarizam com a Argentina,
que assistiu à União Européia incluir
as llhas Malvinas no mapa do bloco, como território
britânico. Entretanto, o presidente da Argentina, Néstor
Kirchner, adiantou sua volta a Buenos Aires, em um movimento
que pode ser lido como mais um capítulo na presente
tensão entre seu país e o Brasil.
A Cúpula Árabe e América do Sul foi esvaziada
pela ausência de alguns dos principais representantes
do mundo árabe, com os quais o Brasil no governo Lula
tem dedicado grande esforço de aproximação.
Não vieram os líderes do Egito, Jordânia,
Síria, Líbia, Emirados Árabes e Sudão.
O Líbano, também se somou à lista dos
desistentes. Dos 22 países da Liga Árabe, só 12
enviaram seus chefes de Estado. Os ausentes representam 37%
do PIB do mundo árabe. Sem eles, as maiores estrelas
foram o palestino Mahmoud Abbas e o presidente do Iraque, Jalal
Talabani.
Um ponto polêmico do projeto de declaração
diz respeito a atos terroristas. O documento tem efetivamente
um parágrafo condenando todas as formas de terrorismo.
Mas há um outro artigo falando sobre a resistência à ocupação
estrangeira, com base no direito humanitário internacional.
Perguntado, durante o evento, se esse dispositivo atende ao
pleito da Autoridade Palestina e do Líbano, que sempre
defenderam que se permitam atos em defesa nacional ou de sua
soberania, o ministro das Relações Exteriores,
Celso Amorim respondeu: “Cada um interpreta como quiser”.
No documento não é citada uma vez sequer a palavra
democracia. Segundo o governo brasileiro, “trata-se de
um termo que pode ser relativizado, tendo em vista as marcantes
diferenças entre os regimes de governo”..
O jornal norte-americano The New York Times criticou a política
externa de Lula , afirmando que a cúpula mostrou haver “prioridades
profundamente diferentes” entre os países árabes
e os sul-americanos. Enquanto os árabes deram ênfase às
críticas a Israel e aos Estados Unidos, diz o jornal,
os latino-americanos procuraram destacar mais os temas econômicos.
O jornal ressalta que a cúpula é mais uma iniciativa
do Brasil para aumentar seu papel na política internacional.
No entanto, o diário fala em "passos constrangedores" na
estratégia, como o "colapso da candidatura brasileira
para liderar a Organização Mundial do Comércio
e uma desavença com a vizinha Argentina”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um tom
político e diplomático no discurso de encerramento
da Cúpula América do Sul e Países Árabes.
Ele desejou ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud
Abbas, "toda a sorte do mundo" para que possa conquistar
a paz definitiva no Oriente Médio e defendeu a soberania
do Iraque, mas disse ainda que “nunca negou a necessidade
do Estado de Israel”.
Documento
A Declaração de Brasília, divulgada pelos
participantes da Cúpula América do Sul-Países Árabes,
exige o banimento de armas nucleares e de destruição
em massa no Oriente Médio; condena qualquer forma de
terrorismo; expressa a preocupação com sanções
unilaterais impostas pelo governo dos Estados Unidos à Síria;
convoca a Grã-Bretanha e a Argentina a negociarem a
soberania das Ilhas Malvinas e reconhece o direito dos estados
e povos de resistirem à ocupação estrangeira,
entre outros pontos.
A Declaração de Brasília conclamou a ONU
a realizar uma conferência internacional para estudar
o fenômeno do terrorismo e definir o que é crime
de terrorismo. A Cúpula apoiou ainda a criação
de um Centro Internacional de Combate ao Terrorismo, proposta
pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah
Aziz. O texto enfatiza a importância de se combater o
terrorismo "em todas as suas formas e manifestações",
mediante a cooperação internacional no âmbito
das Nações Unidas e das organizações
regionais. Segundo a declaração, essa luta deve
ocorrer "em absoluta conformidade com os princípios
do direito internacional e dos direitos humanos".
A declaração reafirma os direitos do povo palestino
de "criação de um Estado Palestino independente,
com base nas fronteiras de 1967, coexistindo pacificamente,
ao lado do Estado de Israel". O documento defende ainda "a
retirada de Israel de todos os territórios árabes
ocupados para as fronteiras de 4 de junho de 1967, e o desmantelamento
dos assentamentos, inclusive daqueles em Jerusalém Oriental".
Curiosamente, não há sequer uma palavra com relação
aos atentados terroristas efetuados contra Israel, com o aval
e o financiamento de alguns países do Oriente Médio.
Também não há nenhuma palavra sobre os
assassinatos em massa de cristãos por muçulmanos
em Darfur, no Sudão, ou o desrespeito reiterado contra
os direitos humanos, especialmente em relação às
mulheres na maioria dos países árabes.
Nas reuniões subseqüentes, as críticas subiram
de tom contra o principal aliado de Israel, os Estados Unidos.
O autor, o venezuelano Hugo Chávez, que aproveitou sua
fala para destilar retórica antiamericana e o texto
divulgado é um longo arrazoado de críticas a
políticas normalmente identificadas com os EUA, como
as que regem o sistema financeiro internacional.
Da mesma forma que há uma condenação geral
ao terrorismo e também háum parágrafo
que defende o direito de “resistência de povos à ocupação
estrangeira”. Uma referência clara aos palestinos
e logicamente relacionada com Israel, muito embora não
se trate de ocupação, mas de território
em disputa entre israelenses e palestinos. O trecho também
pode ser lido como uma alusão ao domínio norte-americano
sobre o Iraque ocupado, onde diariamente atentados terroristas
matam dezenas de pessoas.
Do ponto de vista econômico, foi assinado um acordo que
eventualmente ampliará o comércio entre o Mercosul
e os países do Golfo Pérsico.
Nas últimas semanas, o governo vinha se esforçando
para dizer que a cúpula seria mais econômica do
que política. Essa versão foi enfatizada em contatos
com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice,
e com a embaixadora de Israel no Brasil, Tzipora Rimon. Por
cautela, o ministro Amorim, simultaneamente, avisava que o
documento final não conteria provocações,
mas não poderia censurar declarações de
chefes de Estado, fossem de onde fossem.
A cúpula se transformou exatamente no que o governo
brasileiro disse que tentou evitar nas últimas semanas:
um palco dos árabes para fazer campanha na América
do Sul contra o que chamam de ocupação israelense
em territórios palestinos, com referências indiretas
também à invasão do Iraque pelos Estados
Unidos. No evento, que inicialmente tinha um objetivo econômico,
acabou predominando, e muito, o caráter político.
Assim, a cúpula não produziu nenhum acordo comercial
de impacto.
Uma das maiores organizações judaicas de direitos
humanos, o Centro Simon Wiesenthal, ONG dedicada a combater
o anti-semitismo, vê margem para interpretações
favoráveis ao terrorismo nos discursos apresentados
pelos participantes da Cúpula América do Sul-Países Árabes.
Representantes da ONG estiveram em Brasília como observadores.
Já a jornalista Dora Kramer, foi mais adiante em sua
coluna diária publicada por inúmeros jornais
do país: "De fato, o que chama atenção
na cúpula de Brasília não é o fato
de ser política, mas de ser belicosa e referida nos
interesses dos outros”.
Entrevista
O jornal Folha de S.Paulo entrevistou o primeiro-ministro da
Síria, e a publicou na edição do dia 10/5,
na página A-6. Dessa entrevista destacamos uma das perguntas
para que os leitores vejam como a questão é encarada.
“
Folha [para Mohammad Naji Otri, primeiro-ministro sírio]
-- Como o sr. avalia as relações bilaterais e
o esforço de aproximação do presidente
Lula?
Otri - O Brasil e a Síria têm muitas coisas em
comum. Pudemos ver isso na visita do presidente Lula no fim
de 2003. Temos uma história comum de luta, contra ocupação,
contra um poder único que procura dominar o mundo”.