Como é bom irmãos morando juntos
Por: Yossef Dubrawsky

Nestes dias de Sefirat Haômer, lembramos da praga que dizimou 24.000 alunos do famoso Rabi Akiva. O Talmud questiona qual foi a culpa dos discípulos para merecer este destino e explica que lo nahagu cavod zé bazé, “não se conduziram com respeito uns aos outros”.
Estes dias servem para refletirmos sobre a importância do amor ao próximo. Veahavta lereiacha camocha zé klal gadol baTorá — “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo — este é um grande princípio da Torá.” (Levítico 19:18).
Os mestres Chassídicos enfatizavam muito este preceito, ilustrando a extensão de sua aplicação na prática.
Rabi Israel Baal Shem Tov, fundador do Chassidismo, louvava os judeus simples salientando a sua virtude acima dos eruditos. O povo judeu é chamado dos “Tefilin” de D-us. Na ordem da colocação dos Tefilin, diariamente, o da mão precede o da cabeça. Assim também, os judeus mais simples, praticantes de boas ações, equivalem a Tefilin da mão e em certos aspectos são superiores aos eruditos, que se comparam a Tefilin da cabeça.
O discípulo do Baal Shem Tov, Rabi Dov Ber, o Maguid do Mezeritch, aprofundou ainda mais este conceito. Uma vez o mestre chamou um aluno e lhe disse: “Ouça o que ensinam agora na academia celestial — amor ao próximo tem que ser estendido igualmente a todos, aos pecadores e aos piedosos”. Rabi Dov Ber explicou que o ponto essencial de cada judeu, o pintele yid, preserva sempre a sua pureza e inocência e neste nível não há diferença entre os maus e os justos.
O seu discípulo, Rabi Schneur Zalmen de Liadi, na sua obra magna, Tanya, elucida que o amor ao próximo tem que ser como amor próprio. Mesmo ciente dos próprios defeitos uma pessoa consegue continuar se amando. Devemos amar o próximo independente de seus erros.
Sublime demais para seres humanos normais?
O Chassidismo ensina que amor ao próximo é conseqüência lógica de amor a D-us. Se amarmos a D-us de todo coração, amaremos àqueles que Ele ama. Todos são filhos de D-us e, Ele ama a todos com um amor incondicional. Ao lembrarmos que todas as nossas almas derivam da mesma fonte, são todas verdadeiras partículas de D-us, conseguiremos enxergar que amar ao outro é na verdade amar a si mesmo!
Recitamos na prece da Amidá três vezes ao dia Barcheinu avinu culanu keechad -—Abençoa-nos nosso Pai, a todos conjuntamente. Quando estamos unidos atraímos maiores bênçãos do nosso Pai celestial. Conflitos e mágoas entopem o canal bloqueando, D-us o livre, o fluxo de bênção.
Uma vez um casal que não podia ter filhos procurou o conselho do Lubavitcher Rebe. “Procure verificar”, disse o Rebe ao marido, “se você não magoou uma outra moça antes de casar com a sua esposa”. O homem ficou surpreso. Como é que o Rebe sabia que ele tinha rompido um compromisso com uma outra moça e deixado ressentimentos? Ele mesmo já tinha esquecido; provavelmente não tinha pedido perdão. O que devia fazer agora?
O Rebe o orientou mandar alguém procurar e falar com a moça que morava em outra cidade, e ressaltar que se ela perdoasse de bom grado, encontraria o seu beshert, parceiro para casar, muito em breve.
O marido não perdeu tempo, mandou pedir sinceras desculpas à moça, e esta, por sua vez, incentivada pela promessa do Rebe perdoou de todo coração. Em curto espaço de tempo duas comemorações aconteceram, em duas cidades diferentes. O casal foi abençoado com um filhinho, e a moça noivou e casou!
Hinei ma tov uma naim shevet achim gam iachad. (Salmos 133:1) “Como é bom e agradável, irmãos morando juntos”. Quando amamos ao outro completamente, fazemos que o amor de D-us se revele dentro da nossa vida sem restrições.

* Yossef Dubrawsky é Rabino do Beit Chabad de Curitiba.