Embora, segundo os critérios correntes, Tel Aviv deva
ser considerada uma cidade jovem, não lhe faltam áreas
e edifícios que vêm sendo objeto de esforços
e iniciativas de preservação e restauro. Isto
se refere não só àquele perímetro
e àquelas construções dos anos 30 do
século passado que foram recentemente declaradas pela
Unesco patrimônio da humanidade, senão a casas
e bairros de períodos anteriores, cujo interesse – mais
do que em qualidade arquitetônica – está na
sua natureza de documentos históricos e culturais.
E a exemplo do que se passa em outras metrópoles no
mundo, esses logradouros (geralmente situados em pontos centrais
e estratégicos para a expansão e desenvolvimento
da cidade) são motivo de polêmicas e controvérsias
entre a administração municipal, os políticos
e os setores de interesse de um lado, e os “conservacionistas” de
outro.
No passado, quando era menor a conciência da necessidade
de procurar compromissos inteligentes entre as duas correntes,
registraram-se casos lamentáveis de demolição
de monumentos de valor, como a conhecida destruição
do “Ginásio Herzlia”: este era um marco
dominante da Tel Aviv dos inícios, situado em ponto
focal e culminante da Rua Herzl (então a principal
via da nova cidade), e distinguível pela arquitetura
característica de um ecletismo orientalista vagamente
ingênuo e idealizado, mas nem porisso menos representativo
de sua época.
Destino melhor teve o bairro de Nevé Tzedek, um dos
primeiros centros de habitação judaica fora
do perímetro da antiga Jaffa. Aqui se conseguiu deter
em tempo as tentativas de empreendedores desejosos de se
apoderar do solo para fins de lucro e negócio, e conservar
o bairro sem sua escala e seu tecido urbano original, guardando
também grande parte dos edifícios – alguns
dos quais convenientemente readaptados abrigam hoje importantes
entes culturais da cidade, inseridos no resuscitado ambiente
pitoresco de estreitas ruelas que se tornaram sede ideal
para boutiques e restaurantes.
Atualmente, depois de anos de discussões nos meios
de planejamento, entrou em ação aquele que
pode ser definido como o mais amplo e mais ambicioso projeto
nesta categoria: o desenvolvimento do Centro Principal de
Negócios e Administração – nos
terrenos da antiga colônia Templária de Sarona.
Os templários eram uma seita de alemães protestantes,
que ainda em meados do século 19 se estabeleceram
em algumas colônias por eles fundadas na então
Palestina, com o intuito de redimir a “Terra Santa” e
nela praticar sua crença religiosa ao lado de uma
atividade agrícola de moldes definitivamente adiantados
para os conceitos da época.
Uma destas colônias era Sarona, situada a Nordeste
de Jaffa (Tel Aviv ainda não existia), numa elevação
topográfica de onde se tinha visão do mar a
ocidente, e do riacho Ayalon (em cujo leito corre hoje a
grande via de tráfego rápido da metrópole
de Tel Aviv).
Semelhantes colônias também se estabeleceram
em Haifa, Jerusalém, e em alguns pontos da Galiléia,
e é curioso notar como nos inícios do assentamento
sionista tivesse se manifestado certo grau de cooperação
entre as colônias alemãs e a nascente colonização
judaica – certamente pela tendência de ambas
para uma tecnologia quanto mais racional e atualizada.
Porém, com a ascensão do nazismo na Alemanha,
os colonos templários manifestaram claramente suas
simpatias e sua inclinação para o regime – o
que levou a Inglaterra mandatária a expulsá-los
do país quando, na Segunda Guerra Mundial, os exércitos
alemães em sua ofensiva norte-africana ameaçavam
invadir a Palestina, e os colonos eram um perigoso potencial
de quinta coluna.
Sarona foi então transformada numa base militar britânica,
que se manteve até o fim do Mandato e até à Independência
de Israel, quando se instalaram nela todos os departamentos
do governo. Esta função ela continua mantendo
até hoje, constituindo-se num enclave imobiliário
altamente valorizado em pleno centro da metrópole.
Muitas das construções templárias, bem
como o original tecido de ruas, edifícios e vegetação,
continuam existentes, mesmo se deturpados por dezenas de
anos de um uso muito intensivo e pouco respeitoso. Mas as
exigências da crescente cidade que se desenvolveu ao
redor não mais permitem adiar a atenção
que a área requer. Há que atender a prementes
problemas de tráfego; há que organizar convenientemente
espaços livres; há que destinar parte do solo
a necessidades de construção alternativa para
escritórios e repartições públicas.
E ao lado disto, sob pressão justificada das entidades
de defesa do patrimônio, há que conservar e
reabilitar o máximo possível da colônia
templária – seja restaurando os velhos edifícios
e limpando-os das intervenções ofensivas de
que foram objeto, seja através de uma reconstituição
criativa do ambiente da antiga colônia e da inclusão
da vegetação existente num contexto mais amplo
de jardins públicos e espaços urbanos.
À
semelhança de muitos projetos deste tipo, também
aqui se revelaram diferenças de visão quanto
ao modo de por em prática tão vasto programa
de restauração. E não faltam gestos
megalomaníacos de políticos e engenheiros,
fantasias de arquitetos ambiciosos, ou medidas improvisadas
e apressadas que ameaçam criar inconvenientes fatos
consumados; certas soluções adotadas não
primam pela simplicidade técnica ou pela fidelidade
histórica (como é o caso por exemplo do deslocamento “en
bloc” de algumas casas templárias, para dar
espaço para o alargamento de uma rua de grande movimento:
solução complexa e custosa que poderia ter
sido contornada por um desvio melhor estudado do tráfego
ou pela construção de um túnel que aproveitasse
desníveis naturais existentes e deixasse o núcleo
templário íntegro na sua posição
na superfície.
Mas apesar destas observações e de outras que
podem ter lugar em círculos profissionais mais especializados,
o que merece ser salientado para o leitor de Visão
Judaica é o fenômeno vivo e vibrante do crescimento
da metrópole judaica e o conciente desejo de cultivar
sua memória histórica dentro de um desenvolvimento
equilibrado e controlado: fatores que sem dúvida constituem
um enfoque diferente e atualizado, e uma saudável
digressão dos problemas políticos e de segurança
com que a imprensa tanto se compraz em lidar.
E fica aqui uma exortação para o leitor – seja
por curiosidade profissional, seja por interesse sionista
e judaico – de vir verificar pessoalmente este e tantos
outros aspectos deste grande pequeno país, cujo dia-a-dia
de constante transformação e nervosa realização,
de há muito ultrapassou os estereótipos bastante
conhecidos da propaganda oficial.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv,
Israel.