Sarona — downtown Tel Aviv
Por: Vittorio Corinaldi


Embora, segundo os critérios correntes, Tel Aviv deva ser considerada uma cidade jovem, não lhe faltam áreas e edifícios que vêm sendo objeto de esforços e iniciativas de preservação e restauro. Isto se refere não só àquele perímetro e àquelas construções dos anos 30 do século passado que foram recentemente declaradas pela Unesco patrimônio da humanidade, senão a casas e bairros de períodos anteriores, cujo interesse – mais do que em qualidade arquitetônica – está na sua natureza de documentos históricos e culturais. E a exemplo do que se passa em outras metrópoles no mundo, esses logradouros (geralmente situados em pontos centrais e estratégicos para a expansão e desenvolvimento da cidade) são motivo de polêmicas e controvérsias entre a administração municipal, os políticos e os setores de interesse de um lado, e os “conservacionistas” de outro.
No passado, quando era menor a conciência da necessidade de procurar compromissos inteligentes entre as duas correntes, registraram-se casos lamentáveis de demolição de monumentos de valor, como a conhecida destruição do “Ginásio Herzlia”: este era um marco dominante da Tel Aviv dos inícios, situado em ponto focal e culminante da Rua Herzl (então a principal via da nova cidade), e distinguível pela arquitetura característica de um ecletismo orientalista vagamente ingênuo e idealizado, mas nem porisso menos representativo de sua época.
Destino melhor teve o bairro de Nevé Tzedek, um dos primeiros centros de habitação judaica fora do perímetro da antiga Jaffa. Aqui se conseguiu deter em tempo as tentativas de empreendedores desejosos de se apoderar do solo para fins de lucro e negócio, e conservar o bairro sem sua escala e seu tecido urbano original, guardando também grande parte dos edifícios – alguns dos quais convenientemente readaptados abrigam hoje importantes entes culturais da cidade, inseridos no resuscitado ambiente pitoresco de estreitas ruelas que se tornaram sede ideal para boutiques e restaurantes.
Atualmente, depois de anos de discussões nos meios de planejamento, entrou em ação aquele que pode ser definido como o mais amplo e mais ambicioso projeto nesta categoria: o desenvolvimento do Centro Principal de Negócios e Administração – nos terrenos da antiga colônia Templária de Sarona.
Os templários eram uma seita de alemães protestantes, que ainda em meados do século 19 se estabeleceram em algumas colônias por eles fundadas na então Palestina, com o intuito de redimir a “Terra Santa” e nela praticar sua crença religiosa ao lado de uma atividade agrícola de moldes definitivamente adiantados para os conceitos da época.
Uma destas colônias era Sarona, situada a Nordeste de Jaffa (Tel Aviv ainda não existia), numa elevação topográfica de onde se tinha visão do mar a ocidente, e do riacho Ayalon (em cujo leito corre hoje a grande via de tráfego rápido da metrópole de Tel Aviv).
Semelhantes colônias também se estabeleceram em Haifa, Jerusalém, e em alguns pontos da Galiléia, e é curioso notar como nos inícios do assentamento sionista tivesse se manifestado certo grau de cooperação entre as colônias alemãs e a nascente colonização judaica – certamente pela tendência de ambas para uma tecnologia quanto mais racional e atualizada.
Porém, com a ascensão do nazismo na Alemanha, os colonos templários manifestaram claramente suas simpatias e sua inclinação para o regime – o que levou a Inglaterra mandatária a expulsá-los do país quando, na Segunda Guerra Mundial, os exércitos alemães em sua ofensiva norte-africana ameaçavam invadir a Palestina, e os colonos eram um perigoso potencial de quinta coluna.
Sarona foi então transformada numa base militar britânica, que se manteve até o fim do Mandato e até à Independência de Israel, quando se instalaram nela todos os departamentos do governo. Esta função ela continua mantendo até hoje, constituindo-se num enclave imobiliário altamente valorizado em pleno centro da metrópole.
Muitas das construções templárias, bem como o original tecido de ruas, edifícios e vegetação, continuam existentes, mesmo se deturpados por dezenas de anos de um uso muito intensivo e pouco respeitoso. Mas as exigências da crescente cidade que se desenvolveu ao redor não mais permitem adiar a atenção que a área requer. Há que atender a prementes problemas de tráfego; há que organizar convenientemente espaços livres; há que destinar parte do solo a necessidades de construção alternativa para escritórios e repartições públicas. E ao lado disto, sob pressão justificada das entidades de defesa do patrimônio, há que conservar e reabilitar o máximo possível da colônia templária – seja restaurando os velhos edifícios e limpando-os das intervenções ofensivas de que foram objeto, seja através de uma reconstituição criativa do ambiente da antiga colônia e da inclusão da vegetação existente num contexto mais amplo de jardins públicos e espaços urbanos.
À semelhança de muitos projetos deste tipo, também aqui se revelaram diferenças de visão quanto ao modo de por em prática tão vasto programa de restauração. E não faltam gestos megalomaníacos de políticos e engenheiros, fantasias de arquitetos ambiciosos, ou medidas improvisadas e apressadas que ameaçam criar inconvenientes fatos consumados; certas soluções adotadas não primam pela simplicidade técnica ou pela fidelidade histórica (como é o caso por exemplo do deslocamento “en bloc” de algumas casas templárias, para dar espaço para o alargamento de uma rua de grande movimento: solução complexa e custosa que poderia ter sido contornada por um desvio melhor estudado do tráfego ou pela construção de um túnel que aproveitasse desníveis naturais existentes e deixasse o núcleo templário íntegro na sua posição na superfície.
Mas apesar destas observações e de outras que podem ter lugar em círculos profissionais mais especializados, o que merece ser salientado para o leitor de Visão Judaica é o fenômeno vivo e vibrante do crescimento da metrópole judaica e o conciente desejo de cultivar sua memória histórica dentro de um desenvolvimento equilibrado e controlado: fatores que sem dúvida constituem um enfoque diferente e atualizado, e uma saudável digressão dos problemas políticos e de segurança com que a imprensa tanto se compraz em lidar.
E fica aqui uma exortação para o leitor – seja por curiosidade profissional, seja por interesse sionista e judaico – de vir verificar pessoalmente este e tantos outros aspectos deste grande pequeno país, cujo dia-a-dia de constante transformação e nervosa realização, de há muito ultrapassou os estereótipos bastante conhecidos da propaganda oficial.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.