Como definir liberdade? Um ponto de visto laico e religioso
Por: Morris Abadi

Quando penso a respeito de Iom Haatzmaut, sempre me recordo de uma observação que meu saudoso pai fez uma vez quando éramos jovens. Deve fazer o que, uns 30 anos. Estávamos na sinagoga, era Iom Haatzmaut. Estávamos cantando o Hallel (não todas as vertentes judaicas que o fazem) e, logo depois, falávamos sobre a diferença de Israel existir ou não. Lembro-me que ele olhou para aquela molecada com um misto de incredulidade e vontade de soltar uma “daquelas”. Mas ele disse: “Israel existindo, há sempre quem vai gritar oficialmente quando alguém fizer algo contra os judeus”. Lembrem-se: isto foi há um bom tempo.
De certa forma, vejo, independente de qualquer situação, uma certa atualidade nas palavras dele. No sentido em que, em que pesem boicotes e similares, Israel é uma realidade mais real do que nunca. Israel é um país estabelecido, maravilhoso. Dá sua contribuição para a humanidade dentro da tradição que os judeus e o judaísmo sempre o fizeram, com ou sem seu estado. É uma potência em várias áreas (medicina, agricultura, literatura, humanidades, tecnologia de ponta, e assim por diante). Infelizmente, por força das circunstâncias, é uma potência militar e, ao que parece atômica também.
Mas, muito importante, é um país genuinamente democrático, com instituições que funcionam. Diga-se, de passagem, que a Suprema Corte israelense é considerada a mais incorruptível do mundo. E outro dado que considero bastante importante, é o fato de Israel ter proporcionado uma espécie de foco e de organização para os judeus que moram fora de lá. Apesar dos diversos matizes e ideologias, movimentos juvenis e diversidade de organizações, pensamos todos na integralidade do país, em nossa querida Jerusalém, e assim vamos. Como conseqüência disto tudo, Israel é um país de livre pensar (em que um deputado árabe-israelense eleito para o Knesset sobe na tribuna e prega a destruição do país – lembro daquela música: Rak be Israel). E este livre pensar se reafirma na diáspora.
Este livre pensar tem como conseqüência o livre agir, a livre escolha, e uma multitude de livres mais. E é neste ponto que paro e pergunto. Por que os judeus observantes muitas vezes não são vistos como pessoas livres? Afinal, existe a possibilidade (friso bem: a possibilidade) de que este conceito esteja correto. Afinal, um judeu observante não pode comer isso, não pode comer aquilo, não pode ter relações sexuais quando bem entende, não pode andar de carro naquele dia, nem usar o telefone naquele outro, tem regras de vestir, de dormir, de se portar...a lista é enorme. Tem que reservar tempo para estudar, para rezar, para kasherizar, para visitar os enfermos, tem que separar valores para fazer tzedaká.
Corte. Visitar os enfermos. Sei. Fazer tzedaká. Hummm...
Neste corte, eu fico imaginando. Quem é realmente livre? Quem não é? Sem alongar demais, vivemos, isto não é novidade, em uma sociedade em que o principal elemento é o consumidor. E uma das principais atividades das áreas de publicidade e marketing é exatamente fazer com que o indivíduo tenha vontade de adquirir bens... que ele não necessita. Que paradoxo. A sociedade de consumo, pretensamente livre, transforma a todos em consumidores e os escraviza criando vontades e expectativas inúteis. Continuando então a análise deste paradoxo, como que um indivíduo pode se sentir livre em uma sociedade pretensamente livre, mas que o escraviza via consumo? A resposta é muito, mas muito mais simples do que imaginamos. A questão não é, finalmente, que a resposta seja simples. O problema é a que a aplicabilidade desta reação, que pode nos tornar novamente e genuinamente livres é a capacidade de impor limites a esta loucura consumista internetista. Trata-se de desenvolver a capacidade de dizer “Chega”, de dizer “Não”, de dizer “É irrelevante e desnecessário”.
Tomando-se um exemplo simples, pensemos em kashrut. Quem será que é realmente livre? Aquele que vai a qualquer restaurante da moda para comer miolo de camelo salteado com purê de chocolate, ou aquele que se vê diante deste modismo, tem autocontrole, tem limites, e diz “Não, obrigado?”
Trata-se de um aspecto sobre o qual é importante refletir, na medida em que a propaganda criadora de ilusões tende a acabar com nossa liberdade de escolha, na medida em que cria necessidades não necessárias; e saber que temos um código de comportamento e conduta à disposição que, dentro de um estado livre e democrático, nos permite ser ainda mais livres.
Am Israel Chai, Od Avinu Chai.

* Morris Abadi trabalha com finanças e gestão de risco em São