Meu Exodus

58 anos se passaram da noite em que o navio "Exodus", com imigrantes ilegais, zarpou do pequeno porto na França e transformou-se em símbolo da luta contra os ingleses. 4.500 imigrantes ilegais se apertaram no navio, sem imaginar a luta dramática e o destino que os esperavam. O comandante da operação, o capitão do navio e o bebê que nasceu na última parada contaram a Noah Kliguer, que também estava no navio, sobre sua viagem em particular.

Noah Kliguer

Há exatamente 8 anos, no dia 10 de julho de 1997, eu estava com "Ike" no cais de Set, Lui, na cidade de Set, na França. Ike observou o ancoradouro do pequeno porto, coçou a cabeça e disse: "Eu ainda não consigo entender como conseguimos, então, tirar o navio daqui para o mar aberto".
Então - quer dizer, há 53 anos atrás, no dia 10 de julho de 1947, o navio "Presidente Warfield", entrou para a história da luta, e é mais conhecido como "Exodus". Ike era o seu comandante.
A viagem do Exodus tumultuou o mundo inteiro e indiretamente colaborou na decisão do projeto da Partilha de Eretz Israel. Mas os 4500 imigrantes que subiram no navio Exodus, em julho de 1947, não sabiam que o destino e a História entregaram-lhes a dramática função na luta pela criação de um Estado judeu independente. E eles não decepcionaram. Os que sobreviveram o Holocausto, os dos campos de concentração e guetos, comportaram-se como a razão e o coração lhes ordenaram a agir, e assim terminaram com a trama dos ingleses em proibir a imigração ilegal. O primeiro-ministro inglês de então, Clement Attlee e seu ministro do Exterior, Ernest Bevin, acreditavam que se devolvessem os judeus para o porto de origem, seria o fim dos esforços em trazer judeus para Israel. Mas não levaram em conta a determinação, a força de vontade e a prontidão para o sacrifício dos imigrantes.
Esta é a história do Exodus, do ponto de vista de três pessoas: o bebê que nasceu na última parada, do comandante que coordenou a viagem e do comandante da operação.

A mãe que se negou a desertar
Tonia Betinguer, jovem senhora de origem polonesa, chegou ao navio em companhia de seu marido, direto do campo de refugiados da Alemanha. Estava no sétimo mês de gestação quando subiu ao navio. O bebê nasceu quando a odisséia dos imigrantes do Exodus chegava ao final, em Hamburgo, — aonde os imigrantes aportaram depois de se negarem à rendição aos ingleses e de descer na França.
Durante dois dias, esforçaram-se, algumas tropas de Sua Majestade, em desocupar os navios, e arrastar os imigrantes para o cais do porto. Entre eles estava também o casal Betinguer. Ao filho que nasceu, seu primogênito, chamaram de Yaakov.
Também eles, como o resto dos imigrantes que estavam no navio aprisionado, na região de Hamburgo, haviam fugido dos campos, com a ajuda da Haganá, e chegaram a Israel, onde nasceu seu segundo filho, Moshe, que morreu ao perseguir terroristas no Vale do Jordão, em janeiro de 1969.
“ Eu sempre soube que nasci no meio da luta dos imigrantes do Exodus”, diz Yaakov Betinguer, que por algum tempo foi o vice-diretor do jornal Yedioth Acharonot e hoje dirige a filial do jornal nos Estados Unidos. “Meus pais, que já faleceram, e especialmente minha mãe, sempre me contavam sobre essa época, da determinação dos imigrantes, da luta, da valentia, do espírito que dominou aqueles dias, da satisfação e alegria sem fronteiras, quando foi declarada a Independência de Israel. Sentiam-se muito orgulhosos de terem participado dessa luta”.
Quando criança, Yaakov perguntou, certa vez, para sua mãe por que permanecera no navio-prisão sem descer para o porto, como conseguiu sobreviver durante três semanas — com o bebê no seu ventre —, num horrível aperto, com falta de comida e especialmente com a falta de água para beber, e principalmente, com o calor sufocante. Quando os navios-prisões ancoraram no pequeno porto perto de Marselha, a maior e mais pesada onda de calor reinava ali e, no navio, a temperatura chegava a 50°C.
" Pensei no dia em que o meu filho, que nasceria de mim, perguntasse qual havia sido a minha participação na luta contra os ingleses e o direito de imigrar para Israel", respondeu-lhe a mãe. "O que eu poderia responder-lhe? Que desci no meio da luta, que me acovardei e deixei todos os amigos na batalha, enquanto eu estava sendo mimada num hospital na França?" Nunca mais Yaakov perguntou.
Há quinze anos atrás, Yaakov Betinguer participou de um programa na TV sobre o navio Exodus, que uma rede francesa preparou. No meio do programa, ele se defrontou com uma cidadã francesa que estava entre os 70 imigrantes que aceitaram a oferta do governo francês e desceram para o porto. "O que você tem a ver com a nossa história, o que você tem a ver com a nossa luta, o que é essa ousadia em aparecer nesse programa depois de ter fugido da batalha quando os navios chegaram à França?" Jogou-lhe na cara. "Ela me tirou do sério", lembra ele, hoje. "Não entendo como não se envergonhava ao encontrar as pessoas que lutaram e participaram dessa batalha longa e difícil".
No final do programa, comunicou-se com Yaakov, um senhor que se identificou como médico. "Estou de férias na França e ao assistir ao programa, quando vi seu nome na tela, lembrei-me que fui eu quem o trouxe ao mundo, em Hamburgo". Contou ele.
O comandante que não se apavorou
O navio de imigrantes Exodus foi o único que zarpou alguma vez do porto da cidade de Set. Ike conseguiu manobrar um navio que mede mais de 100 metros entre barcos pesqueiros e o tirou do porto, sem a ajuda do piloto local e do reboque. O piloto local recebera a metade do pagamento prometido e simplesmente desaparecera com o dinheiro. Ike não podia esperar até encontrar outro piloto. O governo francês, que cedeu à pressão dos ingleses, avisou: "Se não zarparem do porto até a meia-noite, o navio será detido".
Ike, com somente 24 anos, já era um lobo do mar experiente: Desde os 16 anos ele viajava em vários navios, e, quando completou 22 anos, recebeu, no final das provas, na Inglaterra, o grau de 1° Oficial. Ele foi nomeado capitão do navio, quando o capitão polonês anterior ficou com os "pés gelados" quando entendeu o perigo e a grande responsabilidade. Até hoje se comenta, nas rodas de marinheiros ao redor do mundo, a maravilhosa história do jovem judeu, que, conduziu para alto-mar, de um porto que nunca estivera antes, um enorme e grosseiro navio, sem nenhuma ajuda.
Mesmo após a Independência de Israel, permaneceu Ike — Itzchak Aaronovitch (hoje, Aran) — fiel ao mar, e durante muitos anos comandou o navio de passageiros “Tel-Aviv". Ainda hoje, na casa que construiu com a forma de navio, em Zichron Yaakov, o homem de 79 anos, sente saudades daquela época, quando "tinham um caminho, tinham um objetivo, tinham idealismo".
Quando eu lhe pergunto, com a distância de 58 anos, se faria novamente o que fez, ele responde, sem hesitar "faria muito mais, sempre tive a impressão de que não fizemos o suficiente, quer dizer, nós os comandantes e os ativistas não fizemos o suficiente. Vocês, os imigrantes, fizeram tudo e até mais".
Ike se recorda como se juntou à tripulação do navio (havia 37 voluntários judeus americanos, - um voluntário cristão, o padre John Garol z"l, — e mais seis homens do Palmach), um jovem francês, que subiu ao navio depois de ter sido ativista na organização "A Brichá" (a fuga) e diretor de um dos campos de transferência próximo a Marselha. Era eu. Foi o comandante da operação, lossi Harel (antigamente Hamburger), quem permitiu que eu me juntasse à tripulação.

O comandante que anunciou a rendição
Quando nos encontramos, nessa semana, para recordar os acontecimentos daqueles dias, Harel falou com emoção e com fervor, como se estivéssemos vivendo os dias da partida do navio do porto de Set, da luta sangrenta no mar aberto, contra os comandos ingleses que tentavam conquistar o navio, e a chegada à Haifa, na madrugada de 18 de julho de 1947, depois de termos sido obrigados a nos render.
Harel é hoje, um próspero comerciante, que começou seus negócios, importando carne, junto com um dos tripulantes do “Exodus”. Foi Harel quem ordenou que se parasse a luta, que já durava 4 horas, pois os ingleses desesperados por não conseguirem superar a "campanha da luta" dos imigrantes, começavam a usar armas quentes, matando três pessoas e ferido outras 200. Ao mesmo tempo, dois outros navios ingleses, batiam nos lados do "Exodus". - "Não tive outra opção a não ser dar a ordem" - disse Harel.
Somente há duas semanas foram divulgadas, na Grã-Bretanha, as palavras de um dos comandantes do navio de guerra, que participou da luta contra o navio dos imigrantes. Argumentou que os imigrantes foram agressivos com os soldados, pois apenas queriam subir no navio para ajudá-los. Quer dizer: Os imigrantes estavam "armados" com latas de conservas e batatas, eram eles que provocavam os comandos marítimos armados, e o navio de imigrantes era o que tentava afundar os seis navios de guerra com a detetora de minas inglesa que o atacavam.
No final da luta, em Haifa, Ike e a maioria da tripulação esconderam-se em lugares preparados antecipadamente. Quando um dos tripulantes americanos, Barney Marx, se apresentou como comandante do navio, disse-lhe um dos comandantes de um dos navios de guerra: "Capitão, saiba que seu navio estava a ponto de desintegrar-se, e teriam muitas baixas, centenas ou até milhares de pessoas".
Há pouco tempo atrás Harel visitou o arquivo marítimo em Londres e descobriu lá, que muito tempo antes de zarparem de Set, os soldados do comando estavam sendo treinados em Malta, para a "operação de conquista do navio sionista". "Tudo estava pronto para por fim a 2ª Aliá" (2ª imigração para Israel) — diz Harel. "Se não fossem os atos de bravura dos imigrantes, os ingleses teriam conseguido seus objetivos. Os imigrantes do navio merecem todos os elogios, todo o respeito, e todo o reconhecimento, pois ganharam e, por sua bravura, seu espírito de luta e a maravilhosa união, a sua participação gloriosa na História do nascimento do Estado Judeu".

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O lendário Exodus

Do embarque até o Plano da Partilha

O navio de refugiados "saída da Europa em 5707", o "Exodus", que saiu na noite de 10 para 11 de julho de 1947 do porto de Set, na França, era o maior navio que já havia zarpado no projeto da 2ª Aliá — imigração ilegal, como foi chamada pelos ingleses. Mais de 4.500 imigrantes subiram ao navio, que havia sido um navio de recreio que navegava nos grandes lagos dos Estados Unidos.
O navio, cuja maior parte era feito de madeira, possuía quatro coberturas, o que possibilitou aos seus organizadores preparar um número de lugares suficientes para que os passageiros pudessem dormir. Os comandantes da 2ª Aliá prepararam, para o navio, um programa de ação, que deveria levá-los ao litoral de Israel. Com essa programação, o navio deveria anular as tentativas dos navios de guerra ingleses, de dominá-lo, pois estavam no seu rastro desde que saíram ao mar aberto.
Os ingleses, porém, surpreenderam o navio, ao atacarem-no longe das águas territoriais. Ao final da luta de 4 horas, entre os defensores do navio e os soldados do comando britânico, os defensores foram obrigados a se render e o navio foi rebocado ao porto de Haifa. Ali os imigrantes foram transferidos para três navios-prisões.
Ao entardecer de 19 de julho, os navios zarparam e em vez de levá-los para Chipre, aos campos de prisioneiros, para onde eram levados os imigrantes ilegais, foram levados, os três navios, para a França e ali foram pressionados pelos ingleses a descer para o porto. Somente 70 imigrantes se renderam e desceram do navio. Os demais, foram transportados a um campo de prisioneiros em Hamburgo, e, depois, foram contrabandeados em outros navios de imigrantes. Até a Declaração de Independência de Israel, todos os imigrantes do “Exodus” já estavam em Israel.
A lenda, chamada "Êxodus", aconteceu no verão de 1947, menos de dois meses do final da votação na ONU, sobre a partilha de Israel — em outras palavras — a Declaração da Criação do Estado Judeu. Muitos países que, anteriormente, eram contra a criação do Estado Judeu, agora votaram a favor, sob a influência da luta dos imigrantes do “Exodus”.
Aliás, o navio “Exodus”, ancorado em uma parte lateral do porto de Haifa, incendiou-se no inicio dos anos 60.

* Noah Kliguer é repórter, sobrevivente do Holocausto e protagonista da viagem do navio “Exodus” até Haifa. Esta reportagem dele foi publicada no jornal Yedioth Acharonot dia 10 de julho de 2002. Traduzido do hebraico por Ester Jakubovitch especialmente para a edição de Iom Haatzmaut do jornal Visão Judaica.