Nossas fontes dizem que na Torá está contida
toda a história do mundo. Dizem também que devemos
viver dentro dela. Cada semana tiramos da Parashá (porção
semanal) correspondente, ensinamentos para enfrentar os problemas
do cotidiano. Dos sete dias que estão por vir, ou entender
o que aconteceu nos que acabaram de passar.
Então, quando vivemos momentos singulares como as trágicas
lembranças de Iom Hashoa (O Dia de Lembranças às
Vítimas do Holocausto e do Heroísmo) e Iom Hazicaron
(Dia em lembrança aos Soldados Tombados nas Guerras
por Israel), que são seguidas por um tempo mágico,
de alegria e agradecimento como Iom Haazmaut (Dia da Independência
do moderno Estado de Israel), mais do que nunca, este pensamento é válido.
Iom Hashoa cai em uma semana no final do mês judaico
de Nissan. A data escolhida foi o dia do início do Levante
do Gueto de Varsóvia. Menos de dez dias depois, em 4/5
de Iyar (este ano adiantado para não coincidir com o
Shabat) temos Iom Hazicaron/Iom Haazmaut, que são lembrados
na seqüência um do outro, propositalmente.
Ao retrocedermos no tempo, retornando 60 e 57 anos atrás,
que Parashiot eram lidas nestas ocasiões? Duas porções
eram lidas em conjunto. As mesmas. Nas duas ocasiões.
Os nomes? Achare Mot (Depois da Morte) e Kedoshim (Santos).
Somando-se o nome das duas parashiot, encontramos: “Depois
da Morte, Santos”.
Arrepiados? Pois deveriam. Este ano a mensagem é ainda
mais patente. Antes de Iom Hashoa, leu-se Achare Mot. E na
semana de Iom Hazicaron/Haazmaut, foi lida Kedoshim.
Sim, todos aqueles bravos heróis que resistiram duramente
nos bunkers do gueto: Mordechai Anilewicz, Z’L”,
a ZZW e seus guerreiros. Todos são santos. Morreram
como tal. Também o são aqueles que lutaram de
outras formas, mantendo sua dignidade, exercendo sua religião
escondidos e mesmo aqueles que não tiveram forças
para brigar, sucumbindo à fome, e às câmaras
de gás. Santos, mártires, Kidushim Hashem (consagrados
em nome de D’us). O sangue deles foi o último
a ser derramado em vão do povo judeu. No Gueto, e nos
diversos levantes que se seguiram, em Sobibor, Treblinka, e
demais antros do mal, surgiu a luz, a chama do leão
de Judá, o espírito Macabeu. Dele se formou o
pilar básico da nossa maior conquista dos últimos
milênios, o nosso maior patrimônio depois da Torá,
nosso porto seguro, e nosso defensor: o moderno Estado de Israel.
Como sempre em nossa história, o povo judeu renasce
das cinzas. Em um dia estamos lamentando a destruição,
a perda de parte de nosso povo. Porém no outro, estamos
celebrando nossa liberdade, a vida, a continuidade do legado
de nossos patriarcas. Santos eram os que morreram. Mas kadosh,
sagrado, é o povo e o Estado de Israel.
Depois da Morte, veio a santidade. Veio a salvação.
Veio o braço de Há Kadosh Baruch Hu, o Santo,
Bendito Seja Ele, que como nos tempos do Egito, nos tirou da
escravidão, com mão forte e braço estendido
e nos levou a liberdade, a nossa Terra, a Eretz Israel.
Hoje muitos tentam negar a história. Lançam filmes
contando quão sensível era Hitler, I’S” e
como sofreu em suas últimas horas. Desencavam guarda-costas
e enfermeiras particulares do monstro para endossar este ponto
de vista. Fazem um revisionismo sutil. Porém, o que
querem de verdade, jamais conseguirão: nos destruir.
Temos duas Meguilót, símbolos de outras salvações:
a Esther, de Purim, e a Haazmaut, da criação
do Estado de Israel. Temos o seder e a Hagadá que nos
lembra a história de Pêssach, a saída do
Egito para a liberdade. Em momentos de negação
do Holocausto, acontecendo em maior e menor grau, e relembrando
nossos santos e mártires, para que a história
nunca mais se repita, talvez esteja na hora de fazermos um
seder, uma Hagadá ou uma Meguilá de Iom Hashoa.
Esta história merece ser contada e recontada. Nossos
seis milhões de Kedoshim merecem.
*Daniel Benjamin Barenbein, 28 anos, é jornalista,
trabalha no site de combate a distorção na imprensa, "De
Olho na Mídia" (www.deolhonamidia.org.br) e como
coordenador do movimento juvenil Betar de SP. Ainda exerce
voluntariamente cargos de Hasbará na Organização
Sionista de SP, Espaço K e Aish Brasil, e como orador
nas sinagogas Beit Menachem e Kehilat Achim Tiferet. Possui
um livro publicado na internet sobre neonazismo digital: www.varsovia.jor.br