Meguilat Iom Hashoá
Por: Daniel Benjamin Barenbein*


Nossas fontes dizem que na Torá está contida toda a história do mundo. Dizem também que devemos viver dentro dela. Cada semana tiramos da Parashá (porção semanal) correspondente, ensinamentos para enfrentar os problemas do cotidiano. Dos sete dias que estão por vir, ou entender o que aconteceu nos que acabaram de passar.
Então, quando vivemos momentos singulares como as trágicas lembranças de Iom Hashoa (O Dia de Lembranças às Vítimas do Holocausto e do Heroísmo) e Iom Hazicaron (Dia em lembrança aos Soldados Tombados nas Guerras por Israel), que são seguidas por um tempo mágico, de alegria e agradecimento como Iom Haazmaut (Dia da Independência do moderno Estado de Israel), mais do que nunca, este pensamento é válido.
Iom Hashoa cai em uma semana no final do mês judaico de Nissan. A data escolhida foi o dia do início do Levante do Gueto de Varsóvia. Menos de dez dias depois, em 4/5 de Iyar (este ano adiantado para não coincidir com o Shabat) temos Iom Hazicaron/Iom Haazmaut, que são lembrados na seqüência um do outro, propositalmente.
Ao retrocedermos no tempo, retornando 60 e 57 anos atrás, que Parashiot eram lidas nestas ocasiões? Duas porções eram lidas em conjunto. As mesmas. Nas duas ocasiões. Os nomes? Achare Mot (Depois da Morte) e Kedoshim (Santos). Somando-se o nome das duas parashiot, encontramos: “Depois da Morte, Santos”.
Arrepiados? Pois deveriam. Este ano a mensagem é ainda mais patente. Antes de Iom Hashoa, leu-se Achare Mot. E na semana de Iom Hazicaron/Haazmaut, foi lida Kedoshim.
Sim, todos aqueles bravos heróis que resistiram duramente nos bunkers do gueto: Mordechai Anilewicz, Z’L”, a ZZW e seus guerreiros. Todos são santos. Morreram como tal. Também o são aqueles que lutaram de outras formas, mantendo sua dignidade, exercendo sua religião escondidos e mesmo aqueles que não tiveram forças para brigar, sucumbindo à fome, e às câmaras de gás. Santos, mártires, Kidushim Hashem (consagrados em nome de D’us). O sangue deles foi o último a ser derramado em vão do povo judeu. No Gueto, e nos diversos levantes que se seguiram, em Sobibor, Treblinka, e demais antros do mal, surgiu a luz, a chama do leão de Judá, o espírito Macabeu. Dele se formou o pilar básico da nossa maior conquista dos últimos milênios, o nosso maior patrimônio depois da Torá, nosso porto seguro, e nosso defensor: o moderno Estado de Israel.
Como sempre em nossa história, o povo judeu renasce das cinzas. Em um dia estamos lamentando a destruição, a perda de parte de nosso povo. Porém no outro, estamos celebrando nossa liberdade, a vida, a continuidade do legado de nossos patriarcas. Santos eram os que morreram. Mas kadosh, sagrado, é o povo e o Estado de Israel.
Depois da Morte, veio a santidade. Veio a salvação. Veio o braço de Há Kadosh Baruch Hu, o Santo, Bendito Seja Ele, que como nos tempos do Egito, nos tirou da escravidão, com mão forte e braço estendido e nos levou a liberdade, a nossa Terra, a Eretz Israel.
Hoje muitos tentam negar a história. Lançam filmes contando quão sensível era Hitler, I’S” e como sofreu em suas últimas horas. Desencavam guarda-costas e enfermeiras particulares do monstro para endossar este ponto de vista. Fazem um revisionismo sutil. Porém, o que querem de verdade, jamais conseguirão: nos destruir.
Temos duas Meguilót, símbolos de outras salvações: a Esther, de Purim, e a Haazmaut, da criação do Estado de Israel. Temos o seder e a Hagadá que nos lembra a história de Pêssach, a saída do Egito para a liberdade. Em momentos de negação do Holocausto, acontecendo em maior e menor grau, e relembrando nossos santos e mártires, para que a história nunca mais se repita, talvez esteja na hora de fazermos um seder, uma Hagadá ou uma Meguilá de Iom Hashoa. Esta história merece ser contada e recontada. Nossos seis milhões de Kedoshim merecem.

*Daniel Benjamin Barenbein, 28 anos, é jornalista, trabalha no site de combate a distorção na imprensa, "De Olho na Mídia" (www.deolhonamidia.org.br) e como coordenador do movimento juvenil Betar de SP. Ainda exerce voluntariamente cargos de Hasbará na Organização Sionista de SP, Espaço K e Aish Brasil, e como orador nas sinagogas Beit Menachem e Kehilat Achim Tiferet. Possui um livro publicado na internet sobre neonazismo digital: www.varsovia.jor.br