Por: Jim
Fitzgerald
A Academia Municipal de Policia de Rockland, em Nova Iorque jamais
havia visto algo semelhante.
Um rapaz entra usando um chapéu de abas largas, uma barba
e um casaco que desce até os seus joelhos. Diz o xerife
James Kralik: "Ele parece alguma coisa como que saída
de 'O Violinista no Telhado'".
Era Shlomo Koenig, agora comissário Shlomo Koenig, talvez
o único oficial de polícia hassid1 na nação.
"
Até mesmo em Israel não há nada parecido”,
diz Koenig com sua barba ruiva e os cachos laterais de cabelos
sobressaindo sob seu chapéu de amplas bordas.
Koenig, 35 anos, que administra um negócio que produz
sacolas plásticas para compras bolsas, foi durante muito
tempo um elo de ligação não oficial entre
o departamento do xerife e a crescente, mas isolada comunidade
judaica ortodoxa de Rockland. Ele ajudou a traduzir para o iídiche
ou explicou as normas e obrigações de cidadania
de um grupo para o outro.
Por exemplo, um motorista que abandona o seu carro à margem
da Rodovia 59 e começa a caminhar à pé pode
parecer suspeito a um policial. Mas pode ser também um
judeu ortodoxo chegando tarde em casa, numa sexta-feira, quando é proibido
dirigir após o pôr-do-sol.
Ou ainda um oficial poderia sentir-se ofendido se uma mulher
hassid recusar-se a aceitar o talão de multa por excesso
de velocidade passado à mão dela. É que
tal contato entre os sexos é proibido, e assim os oficiais
agora colocam o talão sobre o capô do carro para
que a motorista então possa apanhá-lo.
Treze por cento da população de 275.000 pessoas
que vivem no município são judeus ortodoxos, incluindo
hassidim e outras correntes ultra-ortodoxas, e esse percentual
está crescendo por causa das altas taxas de natalidade
e está se concentrando nas imediações do
Brooklyn, distante uma hora de carro do local.
Os judeus ortodoxos de Rockland até certo ponto vivem
fora do mundo moderno. Eles não enviam suas crianças
para as escolas públicas, evitam televisão, usam
roupas escuras e simples, como aquelas usadas pelos seus antepassados
no século 18 na Polônia, e eles construíram
suas próprias vilas, longe das cidades maiores.
Há desconfiança entre a polícia e os hasidim
"
Nós viemos de países onde o governo não
era nosso amigo, não trabalhava com a comunidade, mas
contra ela", diz Koenig nascido americano. "A forma
que encontramos para nos sustentarmos era viver o nosso próprio
pequeno mundo".
Como o xerife Kralik coloca: "Na maioria dos países
em que viveram, os policiais queimavam suas casas. Eles não
têm nenhuma razão para confiar em nós".
Foi por sugestão do xerife que Koenig ingressou na Academia
de Polícia. Ele teve 600 horas de treinamento, graduou-se
no ano passado com boas notas e agora veste o uniforme de cor
bronze e usa a estrela prateada da força policial de Rockland,
que tem aproximadamente 65 oficiais em tempo integral e muitos
outros de meio período, como Koenig.
"
Ele teve muita coragem", disse o xerife Kralik. "E
realmente mostrou algum interesse, estava em sua vocação,
o que é admirável".
Na academia, certos arranjos tiveram que ser feitos. Aulas aos
sábados estavam fora de cogitação para Koenig
por causa do Shabat judaico. Alguns dos recrutas companheiros
dele compartilhavam com ele suas anotações em sala
de aula.
Então havia a barba. Barbas são proibidas pelo
departamento. Não havendo nenhuma proibição
para judeus hassidim, o sr. Koenig obteve uma permissão.
Ele também ganhou um prêmio de tiro ao alvo. Carregar
uma arma não apresenta nenhum problema ético para
Koenig. Quanto a usá-la, diz ele: "Você não
tem permissão para matar, mas autodefesa não é assassinato."
Como comissário, Koenig ajudou a elaborar guias para os
oficiais de sua mesma categoria para lidar com a comunidade judaica
ortodoxa. Obter uma descrição de um assaltante,
por exemplo, pode ser difícil se a vítima não
estiver familiarizada com roupas seculares.
Uma testemunha poderia dizer que o assaltante usava calças
azuis, mas se perguntada se elas eram calças de jeans
azuis, "há chances de você receber um sim,
mesmo que haja 99 por cento de chance que a pessoa realmente
não saiba o que são calças jeans",
diz Koenig.
"
Eles dizem que sim porque as pessoas em geral não querem
ser pegas como não entendendo as coisas".
"
Assim, tentamos sugerir um folheto com descrições-tipo
explicando o que são calças jeans, slaks, calças
compridas comuns, moda e estilos de cabelo”.
Surge então o problema do idioma. Muitos dos judeus hassidim
de Rockland não falam bem o inglês e poucos oficiais
de polícia falam o iídiche.
Koenig está reunindo uma coleção de frases úteis:
" Vas is dan numen (Qual o seu nome)?"
“Is ales in ordernung (Está tudo bem com você)?"
“ Vi azoi hot er oizgesen (Como ele se parece)?"
Koenig diz que de certo modo, seu trabalho é parte da religião
dele — uma "mitzvá", ou boa ação.
"
Primeiro, eu sou judeu; segundo, um oficial de polícia", ele diz. "Ainda
tento viver no meu próprio e pequeno mundo. Tento fazer meus estudos,
minhas orações, a educação religiosa das minhas
crianças. Mas também tento ser um xerife. Tenho que ser capaz
de trabalhar com a sociedade. E eu tento fazer isso.
1. Hassid (singular), hassidim (plural), seguidor(es)
da corrente religiosa ortodoxa judaica do hassidismo, movimento
fundado no
século XVIII pelo Baal Shem Tov (Mestre do Bom Nome), e
que tem entre outras características a filosofia, pelo pensamento
sobre o mistério da vida; a mística, representada
pela dimensão de maior profundidade existencial na vida
religiosa; e a oração como exercício espiritual
e como forma de meditação contemplativa.
* Jim Fitzgerald é jornalista e escreve para a agência
Associated Press.