Desde o dia do oferecimento da cevada – 2º dia de Pêssach – até o
da oferta das primícias, decorreram sete semanas. Daí o
nome desta festa, Shavuót, palavra que em hebraico significa “semanas”,
e que se celebra nos dias 6 e 7 do mês de Sivan, ou seja,
o 50º dia de Sefirat HaÔmer (vide edição
de março de Visão Judaica).
O caráter mais antigo de Shavuót é o de festa
campestre. No mês de Sivan terminava a colheita de cereais
e assim, dos próprios produtos que graças à proteção
divina puderam ser extraídos do solo eram separadas as primícias
como oferendas. Nenhum cereal da nova colheita se utilizava antes
de 6 de Siván, data em que esse sacrifício se tornava
efetivo. Por isso Shavuót se chama também Chag HaBicurím,
festa das primícias.
Nos tempos do Templo, Shavuót assim como Pêssach e
Sucot se caracterizavam pelas peregrinações. Densos
grupos de agricultores afluíam de todas as províncias,
e o país adquiria um aspecto animado e pitoresco. Os peregrinos
marchavam para Jerusalém, acompanhados durante todo o trajeto
pelos alegres sons das flautas. Em cestos decorados com fitas e
flores, cada qual conduzia sua oferenda: primícias do trigo,
cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel, produtos que
davam renome ao solo da Terra de Israel. Chegados à Cidade
Santa eram acolhidos com cânticos de boas vindas e penetravam
no Templo, onde faziam a entrega de seus cestos ao sacerdote. A
cerimônia se completava com hinos, toques de harpas e outros
instrumentos musicais.
“
O propósito da Criação é fazer com
que Israel aceite e cumpra os preceitos da Torá” (Rashi;
comentário sobre Bereshit 1:1).
Os cabalistas, mestres do misticismo judaico, ensinam que antes
da Criação do universo, a Luz de D-us Infinito, Or
Ein Sof, preenchia toda a realidade. Quando D-us decidiu criar
o mundo, Ele retraiu a Sua Luz Infinita de um determinado ponto,
criando um “vácuo”, e cedendo espaço
para a Sua Criação. Dentro desse espaço, Ele
criou o mundo, que são receptáculos designados para
receber a Luz Divina. Mas o universo não conseguiu resistir à intensidade
da emissão de Luz Divina, e então se estilhaçou.
Todo o recém-criado universo entrou num estado de caos,
onde a luz e a escuridão poderiam então coexistir.
A Cabalá explica que o nosso mundo é fruto dos receptáculos
estilhaçados, e que o propósito de toda a existência é elevar
o mundo para que ele possa finalmente conter a Luz Divina. Os cabalistas
chamam esse conceito de tikkun olam – “o conserto do
mundo”.
O fundamento da religião judaica é, portanto, a conscientização
de que o mundo foi criado com propósito. O Eterno D-us criou
o mundo para que este resplandeça em sua Luz Infinita, mas
só ao ser humano foi dada a missão de possibilitar
isso. O Midrash - livro de profundo misticismo disfarçado
em histórias alegóricas - explica que o Todo-Poderoso
criou um universo físico porque desejava ter uma Morada
aqui em nossa realidade terrena. Isto significa que D-us deseja
ser encontrado no mundo físico que Ele criou e, desta forma,
permeá-lo com a Revelação de Sua Bondade Infinita.
Mas, para que isto possa ocorrer, o homem, através de suas
boas ações, precisa fazer do mundo um receptáculo
apropriado para a Luz Divina. Esta é a explicação,
dentre o conhecimento humano, para explicar a razão e o
propósito de toda a Criação.
O recebimento da Torá
A festividade de Shavuót, que é comemorada durante
dois dias, começa no sexto dia do mês de Siván
do calendário hebraico. Ocorre 50 dias após o primeiro
dia de Pêssach, que marca o êxodo do povo judeu do
Egito. Shavuót comemora a primeira e única vez em
que o Criador e Mestre do Universo Se revelou abertamente diante
de um povo. A libertação dos judeus do Egito e todos
os seus surpreendentes milagres e salvações foram
meros prelúdios que levaram a esse evento de significado
infinitamente maior.
A Torá relata que a Revelação de D-us diante
do povo judeu foi um evento dramático e estremecedor, anunciado
por uma nuvem de fumaça, relâmpagos, trovões
e toques de shofar (trompa feita com chifre de carneiro) (Êxodo,
19:16). Como D-us é um Ser puramente espiritual, o povo
judeu não pôde vê-Lo, mas apenas ouvir Sua voz
enquanto anunciava os Dez Mandamentos. Mas a Revelação
foi tão avassaladora que logo a seguir o povo disse a seu
líder Moisés: “Fala-nos tu e te ouviremos;
porém não fale D-us conosco que morreremos” (Êxodo,
20:19). E assim D-us chamou Moisés para que subisse o Monte
Sinai, onde Ele lhe ensinaria toda a Lei Oral. Falava D-us a Moisés
face a face, como “um homem que fala a um amigo” (Êxodo,
33:11), e por isso ele pôde entender todas as explicações
sobre a Torá, bem como todos os seus segredos místicos.
D-us também transmitiu a Moisés a Torá Escrita
- um livro que Ele próprio havia escrito. Não foi
um produto da inspiração ou profecia Divina em Moisés;
D-us ditou-lhe cada uma das letras e Moisés apenas serviu
de escriba. E esse Livro da Torá foi, posteriormente, dividido
em cinco unidades: Bereshit (Gênese), Shemot (Êxodo),
Vayikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim
(Deuteronômio).
Durante os 40 anos que se seguiram, em sua jornada à Terra
Prometida, Moisés ensinou a Torá de D-us ao povo
judeu. Porém, Moisés não teve permissão
de adentrar a terra que D-us prometera ao povo judeu; ele morreria
antes de realizá-lo. E assim, antes de sua morte, Moisés
escreveu treze pergaminhos da Torá. A Torá que temos
hoje - quer em sua forma Escrita quer na Oral - originou-se do
Monte Sinai e foi transmitida de geração a geração.
Constitui toda a religião judaica. Mas, mais do que isso,
dizem nossos sábios, constitui a base de todo o mundo.
Pois, como nos ensina o Talmud, quando D-us ofereceu a Torá ao
povo judeu, a existência de todo o universo estava em jogo.
Não tivessem os judeus aceito a Torá, o mundo inteiro
teria deixado de existir (Tratado Shabat, 88a).
Mas, qual é o propósito da Torá, para que
toda a existência estivesse baseada nela? E por que constituía
o principal produto de uma única Revelação
Divina?
A Parábola do Ancião
Antes de começarmos a entender o significado supremo da
Torá, temos que definir, primeiro, aquilo que este Livro
Sagrado não é. A Torá não é um
livro de histórias sobre a tradição e a cultura
judaica. Como afirma o Zohar, o livro que é a base do misticismo
judaico, “tende piedade daquele que pensa que a Torá apenas
nos relata histórias e assuntos banais. Se assim fosse,
nós também poderíamos, ainda hoje, compor
uma Torá que abordasse questões ordinárias,
e a faríamos até melhor!”. É certo que
o Todo-Poderoso não entregaria a Moisés uma obra
de Sua Autoria - letra por letra - para que servisse apenas para
contar a antiga história judaica.
Contrariamente ao que se pensa, o propósito fundamental
da Torá não é incutir a disciplina e a moralidade
no mundo. A obrigação de ser justo não é exclusividade
do povo judeu. O fato de a Torá ter servido, posteriormente,
de base para o humanismo, a moralidade, a justiça e a bondade
para grande parte da humanidade foi a conseqüência e,
não, a causa da sua outorga. De fato, os princípios
básicos de justiça e de conduta humana adequada foram
transmitidos por D-us ao homem antes do recebimento da Torá.
No alvorecer da Criação, D-us deu a Adão,
o primeiro ser humano, seis regras às quais aderir. Mais
tarde, após o Dilúvio, Ele atribuiu mais uma a Noé.
Estas sete regras são conhecidas como as Leis de Noé e
se aplicam, até hoje, aos homens.
O rabino Adin Steinsaltz escreve que a importância dos Dez
Mandamentos não é tanto o seu conteúdo, mas
a sua Origem. Tanto os Mandamentos quanto todos os preceitos da
Torá foram promulgados por D-us e é isto o que lhes
confere força e significado. Os códigos de outros
povos e mesmo as leis de Noé nunca foram abertamente declaradas
por D-us diante de todo um povo. Outros códigos de Leis,
originados ou transmitidos unicamente por seres humanos – mesmo
se forem semelhantes aos mandamentos da Torá - estão
sujeitos a mudanças. Mas as leis explicitamente promulgadas
pelo Criador e Senhor do Universo são absolutas. Como a
Fonte que as origina é Infinita, Imutável e Perfeita,
também o são Suas leis. Nenhum ser humano pode mudá-las
nem tampouco delas se livrar.
Mas a outorga da Torá teve um significado ainda maior: foi
um ato de Cima para baixo, cruzou a distância infinita entre
D-us e o mundo que Ele criou. Pois está escrito: “Eis
que o Senhor, nosso D-us, nos fez ver a Sua glória e a Sua
grandeza, e ouvimos a Sua voz no meio do fogo; eis que hoje vimos
que D-us fala com o homem e este continua vivo”. (Deuteronômio,
5: 24).
O Midrash (comentário homilético da Bíblia)
nos conta que quando D-us criou o mundo, Ele decretou que...”os
Céus pertencem ao Senhor, mas a terra, deu-a Ele aos filhos
dos homens” (Salmos, 115: 16). Mas ao dar a Torá a
Israel, Ele permitiu que a espiritualidade Divina descesse aos
domínios inferiores e que estes ascendessem ao Reino dos
Céus. Pois está escrito: “O Senhor desceu para
o cume do Monte Sinai; convocou Moisés para o topo do monte,
e Moisés subiu” (Êxodo, 19:20).
Como D-us é Infinito e inteiramente espiritual, este verso
da Torá não deve ser entendido literalmente. Significa
que D-us permitiu que Sua Divindade descesse e inundasse o que é terreno,
ao passo que permitiu que seres humanos ascendessem espiritualmente.
Mas, como pôde isto ser realizado por intermédio de
um livro de estatutos e relatos, mesmo sendo de Autoria Divina?
A resposta é que a Torá é a própria
sabedoria e ciência do Eterno D-us. Ela é chamada
de “A Parábola do Ancião”. O Ancião é,
obviamente, O Santificado, Abençoado seja Aquele que precedeu
a criação. A Torá é a Sua Parábola
por ser uma alegoria de conceitos espirituais mais elevados. O
Rebe de Lubavitch ensinou que cada uma das leis e histórias
da Torá – mesmo as mais mundanas – são
parábolas acerca das mais profundas realidades espirituais.
E, como os simples mortais não podiam compreender nem se
relacionar com um D-us Infinito, a Torá foi dada para servir
como o meio físico para fazer chegar até nós
a sabedoria e a vontade do Criador. O Zohar (texto principal da
Cabalá) afirma a respeito: “A Torá é recoberta
de vestimentas que se relacionam com este mundo, senão,
de outra forma, o mundo não teria como a receber e absorver”. É,
portanto, o elo entre os mundos espirituais e nossa existência
terrena.
Dois notáveis exemplos de mandamentos físicos com
grande valor espiritual são os da circuncisão e do
uso dos tefilin (filactérios). Um dos livros muito profundos
da Cabalá afirma: “O homem está vinculado à Mãe
de Israel (D-us) através de dois símbolos, os tefilin
e o Pacto de Abraão, isto é, a circuncisão” (Tikunei
Zohar, 7a). Através de um mandamento físico marcado
na carne de cada judeu do sexo masculino e, através dos
tefilin, que são objetos físicos, nós nos
conectamos com a Fonte Única de Espiritualidade e Santidade.
As mulheres judias também têm mandamentos físicos
de infinita importância espiritual. Dentre eles está o
acendimento das velas de Shabat e das Festividades Judaicas, e
também a imersão no mikve (banho ritual).
Há uma obra chassídica (linha ortodoxa) que explica: “D-us
deseja que usemos os tefilin. Portanto, ao fazê-lo, somos
envolvidos por Seu desejo. E isto se aplica, igualmente, a todos
os outros mandamentos”. (Likutei Moharan, 34:4).
A razão de ser dos Mandamentos
Podemos, agora, melhor entender a conexão entre a criação
do mundo e a Torá. O propósito todo da Torá – de
seus 613 mandamentos - é servir como uma ponte física
entre o homem e o Infinito. É o meio de Tikun Olam - de
se consertar os receptáculos quebrados para que o mundo
físico possa ser permeado com a Infinita Luz Divina. O Midrash
nos explica que, em sua Onisciência, D-us outorgou a Torá ao
povo judeu por saber que somente este povo aceitaria seus severos
mandamentos. Tornaram-se, assim, os judeus, o Povo Escolhido, a “Luz
entre as nações”, pois que sua missão é cumprir
o propósito Divino no ato da Criação: construir
para Ele uma Morada neste mundo terreno, para poder receber Sua
Infinita Bondade. É por este motivo que toda a existência
dependia da aceitação, pelos judeus, da Torá.
Pois se nenhuma nação se sujeitasse a executar os
desígnios Divinos com a Criação, o mundo,
então, não teria outra razão de ser. Assim
sendo, em Shavuót, o dia da outorga da Torá, celebramos
toda a razão de ser da existência.
Freqüentemente se tem perguntado por que o judaísmo
deposita uma ênfase quase obsessiva nos rituais. Por que
há tantas ações físicas ordenadas pela
Torá? Por que não se limita a religião judaica à fé, à oração
e à meditação?
A razão para tal é que o judaísmo, originado
através da Revelação Divina, iniciou-se quando
D-us revestiu Sua Infinita Sabedoria e Vontade num Livro, decretando
que Ele poderia, também, ser encontrado na terra. Pois está escrito: “Pois
este mandamento que, hoje, te ordeno... não é muito
difícil nem está longe de ti. Não está nos
céus para que digas: ‘Quem poderá ascender
aos céus, por nós, que o traga até nós,
e que nos faça ouvi-lo; para que o cumpramos?’ Pois
esta palavra está muito perto de ti, na tua boca e no teu
coração, para a cumprires” (Deuteronômio,
30:11-14). Com a outorga da Torá, o propósito da
Criação poderia começar a ser cumprido: o
propósito de revelar um D-us Infinito e Transcendental dentro
deste nosso mundo físico.
E é por isso que encontramos D-us em todos os lugares e
em todos os momentos. Encontramo-Lo no couro de que são
feitos os tefilin que enrolamos em nossos braços e colocamos
sobre nossas testas. Encontramo-Lo nos donativos que fazemos a
causas nobres. Encontramo-Lo nos sons penetrantes do shofar, em
uma taça do vinho de Kidush (bênção),
em um pedaço de matzá (pão ázimo),
na luz santificada das velas de Shabat (sábado). Encontramo-Lo
na noite do Seder de Pêssach, quando nossos filhos fazem
as quatro perguntas e passam a relatar que seus antepassados -
uma nação de escravos no Egito - foram milagrosamente
libertados do mais poderoso ditador do mundo de então. E,
acima de tudo, nós O encontramos em Sua Parábola,
que é transmitida com tinta preta sobre pergaminho branco.
E é por isso que D-us nos ordena que O Sirvamos com alegria
(Deuteronômio, 28:47). Pois que através de cada um
dos mandamentos físicos da Torá, conectamo-nos com
a Fonte Única de Vida e Bondade. Nossos sábios afirmam,
portanto, que O Santificado Abençoado seja, quis premiar
o povo judeu, dando-lhes, por este motivo, a Torá e seus
mandamentos (Talmud, Makot 3: 16).
No primeiro dia da Criação, disse D-us: “Haja
luz; e houve luz” (Gênese, 1:3). Mas o mundo não
estava preparado para absorver a intensidade de tão Infinita
Luz. Por isso, O Santo Bendito Seja ocultou tal Luz em Sua Torá.
Quando a estudamos e praticamos, conseguimos revelar essa Luz.
O rabi Yosef Yitzhak Schneerson, o sexto Lubavitcher Rebe, não
se cansava de repetir que é desnecessária a tentativa
de afastar a escuridão. Basta trazermos a Luz e isto fará desaparecer
as trevas. Portanto, D-us exilou Seu povo para que através
de seu Divino serviço pudessem iluminar o mundo inteiro.
Por intermédio do povo judeu, a Torá irá consertar
os receptáculos quebrados, retificando, deste modo, o estado
inicial do caos e eliminando todas as formas de escuridão – o
sofrimento, o conflito, a ignorância, a doença e por
fim a morte. O desvendar da Luz Infinita irá então
anunciar a nova era - aquela na qual todos os povos apenas conhecerão
a vida, a paz, a plenitude e a alegria. O mundo irá finalmente
ser a Morada para o Divino, “porque a terra se encherá do
conhecimento do Senhor, como as águas cobrem os mares” (Isaías
11:9). E quando o povo judeu completar a sua missão, trazendo
com ela a redenção universal, serão todos
levados de volta à Terra que D-us lhes prometeu. E assim,
todo o propósito da Criação terá finalmente
se realizado, e...”Nunca mais se porá o teu sol, nem
a tua lua minguará, porque o Senhor será tua Luz
perpétua, e os dias do teu luto findarão. Todos os
do teu povo serão justos, e a terra para sempre herdarão” (Isaías,
60:20-21).
Por que teria D-us dado à Torá a nós,
simples mortais?
O Talmud nos conta (no tratado Shabat 88b-89a)
que os próprios
Anjos Ministeriais contestaram D-us quando convocaram Moisés
com a intenção manifesta de lhe entregar a Torá para
transmiti-la a simples mortais que, segundo os anjos, certamente
não a utilizariam de forma adequada.
D-us ordena a Moisés que ele responda aos anjos. Moisés
afirma que a Torá se ocupa de assuntos tão mundanos
quanto trabalho, comércio, alimento, descanso, roubo, assassinato,
cobiça, procriação e coisas do gênero. "Já que
vocês anjos, não estão sujeitos a tais necessidades,
desejos e cobiças, de que lhes serviria a Torá ?" Os
anjos, então, concordaram em que a Torá destinava-se,
realmente, apenas aos seres humanos.
Quais seriam estas ações corretas que a Torá ordena? "Sereis
santificados, pois Eu, o Eterno vosso D-us, sou santificado" (Levítico
19:2). Santificado, não meramente no sentido do tabu misterioso,
mas nas leis da pureza ritual, dos alimentos proibidos, no cumprimento
do Shabat e dos dias santos, leis referentes aos sacerdotes e coisas
afins.
De fato, este mandado de sermos santificados é imediatamente
seguido, praticamente uma só vez, pela ordem de reverenciar
nossos pais e observar o Shabat. O restante desse capítulo,
composto de 37 versículos, inclui alguns preceitos referentes à idolatria
e questões rituais, e muitos outros que tratam de relações
humanas apropriadas. Ordenam-nos não roubar, enganar ou
trapacear; não perseguir, nem roubar nossos vizinhos; dar
aos trabalhadores a sua paga ao fim de um dia de trabalho; não
corromper a justiça; não caluniar, nem difamar; respeitar
os mais velhos; não oprimir os forasteiros, não trapacear
nos pesos e medidas.
O líder chassídico do início do século
XIX, Rabi Menachem Mendel Halpern-Morgenstern, de Kotzk, deteve-se
na análise deste assunto. Ele argumenta que se o que D-us
pretendia era apenas a perfeita observância dos preceitos
da Torá, Ele deveria tê-la dado aos anjos. No entanto,
D-us não deseja apenas um mero, automático e perfeito
cumprimento dos mandamentos. O que D-us realmente aprecia é o
pensamento, a intenção, o esforço que nós,
seres humanos, investimos em optar por seguir os seus preceitos,
e mais, em vencer os desejos psíquicos, as inibições
e impedimentos físicos em nosso empenho por fazer o que é certo
- e não o que é errado.
O que é a Torá ?
A Torá não é "a Lei", como os pensadores
cristãos há muito o traduziram e muitos ainda o fazem.
Nem tão pouco é um livro-texto sobre astrofísica,
geologia ou história, apesar de conter elementos de tudo
isto e de muito mais.
A palavra Torá significa ensinar, instruir, dirigir. Então
a Torá é um ensinamento, uma instrução,
uma direção, um guia - um guia em direção às
atitudes corretas e ao afastamento de atitudes erradas. Exatamente
no meio do capítulo, encontra-se o famoso ensinamento, "E
amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.(É verdade
que há, ainda, vários cristãos e até muitos
judeus que acreditam que Jesus é o autor deste mandamento).
Usando-se uma idêntica linguagem, recebemos a ordem acerca
do forasteiro em nosso meio, de "amá-lo como a nós
mesmos".
“Tradições e Costumes” – Erma
C. Schlesinger
Morashá.com - Edição 29 - Junho de 2000 -
Edição 32 - abril de 2001