Visão Judaica - Edição N° 24
:. Shavuót 25 e 26 de maio .:

 

Desde o dia do oferecimento da cevada – 2º dia de Pêssach – até o da oferta das primícias, decorreram sete semanas. Daí o nome desta festa, Shavuót, palavra que em hebraico significa “semanas”, e que se celebra nos dias 6 e 7 do mês de Sivan, ou seja, o 50º dia de Sefirat HaÔmer (vide edição de março de Visão Judaica).
O caráter mais antigo de Shavuót é o de festa campestre. No mês de Sivan terminava a colheita de cereais e assim, dos próprios produtos que graças à proteção divina puderam ser extraídos do solo eram separadas as primícias como oferendas. Nenhum cereal da nova colheita se utilizava antes de 6 de Siván, data em que esse sacrifício se tornava efetivo. Por isso Shavuót se chama também Chag HaBicurím, festa das primícias.
Nos tempos do Templo, Shavuót assim como Pêssach e Sucot se caracterizavam pelas peregrinações. Densos grupos de agricultores afluíam de todas as províncias, e o país adquiria um aspecto animado e pitoresco. Os peregrinos marchavam para Jerusalém, acompanhados durante todo o trajeto pelos alegres sons das flautas. Em cestos decorados com fitas e flores, cada qual conduzia sua oferenda: primícias do trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel, produtos que davam renome ao solo da Terra de Israel. Chegados à Cidade Santa eram acolhidos com cânticos de boas vindas e penetravam no Templo, onde faziam a entrega de seus cestos ao sacerdote. A cerimônia se completava com hinos, toques de harpas e outros instrumentos musicais.
“ O propósito da Criação é fazer com que Israel aceite e cumpra os preceitos da Torá” (Rashi; comentário sobre Bereshit 1:1).
Os cabalistas, mestres do misticismo judaico, ensinam que antes da Criação do universo, a Luz de D-us Infinito, Or Ein Sof, preenchia toda a realidade. Quando D-us decidiu criar o mundo, Ele retraiu a Sua Luz Infinita de um determinado ponto, criando um “vácuo”, e cedendo espaço para a Sua Criação. Dentro desse espaço, Ele criou o mundo, que são receptáculos designados para receber a Luz Divina. Mas o universo não conseguiu resistir à intensidade da emissão de Luz Divina, e então se estilhaçou. Todo o recém-criado universo entrou num estado de caos, onde a luz e a escuridão poderiam então coexistir.
A Cabalá explica que o nosso mundo é fruto dos receptáculos estilhaçados, e que o propósito de toda a existência é elevar o mundo para que ele possa finalmente conter a Luz Divina. Os cabalistas chamam esse conceito de tikkun olam – “o conserto do mundo”.
O fundamento da religião judaica é, portanto, a conscientização de que o mundo foi criado com propósito. O Eterno D-us criou o mundo para que este resplandeça em sua Luz Infinita, mas só ao ser humano foi dada a missão de possibilitar isso. O Midrash - livro de profundo misticismo disfarçado em histórias alegóricas - explica que o Todo-Poderoso criou um universo físico porque desejava ter uma Morada aqui em nossa realidade terrena. Isto significa que D-us deseja ser encontrado no mundo físico que Ele criou e, desta forma, permeá-lo com a Revelação de Sua Bondade Infinita. Mas, para que isto possa ocorrer, o homem, através de suas boas ações, precisa fazer do mundo um receptáculo apropriado para a Luz Divina. Esta é a explicação, dentre o conhecimento humano, para explicar a razão e o propósito de toda a Criação.
O recebimento da Torá
A festividade de Shavuót, que é comemorada durante dois dias, começa no sexto dia do mês de Siván do calendário hebraico. Ocorre 50 dias após o primeiro dia de Pêssach, que marca o êxodo do povo judeu do Egito. Shavuót comemora a primeira e única vez em que o Criador e Mestre do Universo Se revelou abertamente diante de um povo. A libertação dos judeus do Egito e todos os seus surpreendentes milagres e salvações foram meros prelúdios que levaram a esse evento de significado infinitamente maior.

A Torá relata que a Revelação de D-us diante do povo judeu foi um evento dramático e estremecedor, anunciado por uma nuvem de fumaça, relâmpagos, trovões e toques de shofar (trompa feita com chifre de carneiro) (Êxodo, 19:16). Como D-us é um Ser puramente espiritual, o povo judeu não pôde vê-Lo, mas apenas ouvir Sua voz enquanto anunciava os Dez Mandamentos. Mas a Revelação foi tão avassaladora que logo a seguir o povo disse a seu líder Moisés: “Fala-nos tu e te ouviremos; porém não fale D-us conosco que morreremos” (Êxodo, 20:19). E assim D-us chamou Moisés para que subisse o Monte Sinai, onde Ele lhe ensinaria toda a Lei Oral. Falava D-us a Moisés face a face, como “um homem que fala a um amigo” (Êxodo, 33:11), e por isso ele pôde entender todas as explicações sobre a Torá, bem como todos os seus segredos místicos.
D-us também transmitiu a Moisés a Torá Escrita - um livro que Ele próprio havia escrito. Não foi um produto da inspiração ou profecia Divina em Moisés; D-us ditou-lhe cada uma das letras e Moisés apenas serviu de escriba. E esse Livro da Torá foi, posteriormente, dividido em cinco unidades: Bereshit (Gênese), Shemot (Êxodo), Vayikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio).
Durante os 40 anos que se seguiram, em sua jornada à Terra Prometida, Moisés ensinou a Torá de D-us ao povo judeu. Porém, Moisés não teve permissão de adentrar a terra que D-us prometera ao povo judeu; ele morreria antes de realizá-lo. E assim, antes de sua morte, Moisés escreveu treze pergaminhos da Torá. A Torá que temos hoje - quer em sua forma Escrita quer na Oral - originou-se do Monte Sinai e foi transmitida de geração a geração. Constitui toda a religião judaica. Mas, mais do que isso, dizem nossos sábios, constitui a base de todo o mundo.
Pois, como nos ensina o Talmud, quando D-us ofereceu a Torá ao povo judeu, a existência de todo o universo estava em jogo. Não tivessem os judeus aceito a Torá, o mundo inteiro teria deixado de existir (Tratado Shabat, 88a).
Mas, qual é o propósito da Torá, para que toda a existência estivesse baseada nela? E por que constituía o principal produto de uma única Revelação Divina?
A Parábola do Ancião
Antes de começarmos a entender o significado supremo da Torá, temos que definir, primeiro, aquilo que este Livro Sagrado não é. A Torá não é um livro de histórias sobre a tradição e a cultura judaica. Como afirma o Zohar, o livro que é a base do misticismo judaico, “tende piedade daquele que pensa que a Torá apenas nos relata histórias e assuntos banais. Se assim fosse, nós também poderíamos, ainda hoje, compor uma Torá que abordasse questões ordinárias, e a faríamos até melhor!”. É certo que o Todo-Poderoso não entregaria a Moisés uma obra de Sua Autoria - letra por letra - para que servisse apenas para contar a antiga história judaica.
Contrariamente ao que se pensa, o propósito fundamental da Torá não é incutir a disciplina e a moralidade no mundo. A obrigação de ser justo não é exclusividade do povo judeu. O fato de a Torá ter servido, posteriormente, de base para o humanismo, a moralidade, a justiça e a bondade para grande parte da humanidade foi a conseqüência e, não, a causa da sua outorga. De fato, os princípios básicos de justiça e de conduta humana adequada foram transmitidos por D-us ao homem antes do recebimento da Torá. No alvorecer da Criação, D-us deu a Adão, o primeiro ser humano, seis regras às quais aderir. Mais tarde, após o Dilúvio, Ele atribuiu mais uma a Noé. Estas sete regras são conhecidas como as Leis de Noé e se aplicam, até hoje, aos homens.
O rabino Adin Steinsaltz escreve que a importância dos Dez Mandamentos não é tanto o seu conteúdo, mas a sua Origem. Tanto os Mandamentos quanto todos os preceitos da Torá foram promulgados por D-us e é isto o que lhes confere força e significado. Os códigos de outros povos e mesmo as leis de Noé nunca foram abertamente declaradas por D-us diante de todo um povo. Outros códigos de Leis, originados ou transmitidos unicamente por seres humanos – mesmo se forem semelhantes aos mandamentos da Torá - estão sujeitos a mudanças. Mas as leis explicitamente promulgadas pelo Criador e Senhor do Universo são absolutas. Como a Fonte que as origina é Infinita, Imutável e Perfeita, também o são Suas leis. Nenhum ser humano pode mudá-las nem tampouco delas se livrar.
Mas a outorga da Torá teve um significado ainda maior: foi um ato de Cima para baixo, cruzou a distância infinita entre D-us e o mundo que Ele criou. Pois está escrito: “Eis que o Senhor, nosso D-us, nos fez ver a Sua glória e a Sua grandeza, e ouvimos a Sua voz no meio do fogo; eis que hoje vimos que D-us fala com o homem e este continua vivo”. (Deuteronômio, 5: 24).
O Midrash (comentário homilético da Bíblia) nos conta que quando D-us criou o mundo, Ele decretou que...”os Céus pertencem ao Senhor, mas a terra, deu-a Ele aos filhos dos homens” (Salmos, 115: 16). Mas ao dar a Torá a Israel, Ele permitiu que a espiritualidade Divina descesse aos domínios inferiores e que estes ascendessem ao Reino dos Céus. Pois está escrito: “O Senhor desceu para o cume do Monte Sinai; convocou Moisés para o topo do monte, e Moisés subiu” (Êxodo, 19:20).
Como D-us é Infinito e inteiramente espiritual, este verso da Torá não deve ser entendido literalmente. Significa que D-us permitiu que Sua Divindade descesse e inundasse o que é terreno, ao passo que permitiu que seres humanos ascendessem espiritualmente.
Mas, como pôde isto ser realizado por intermédio de um livro de estatutos e relatos, mesmo sendo de Autoria Divina?
A resposta é que a Torá é a própria sabedoria e ciência do Eterno D-us. Ela é chamada de “A Parábola do Ancião”. O Ancião é, obviamente, O Santificado, Abençoado seja Aquele que precedeu a criação. A Torá é a Sua Parábola por ser uma alegoria de conceitos espirituais mais elevados. O Rebe de Lubavitch ensinou que cada uma das leis e histórias da Torá – mesmo as mais mundanas – são parábolas acerca das mais profundas realidades espirituais. E, como os simples mortais não podiam compreender nem se relacionar com um D-us Infinito, a Torá foi dada para servir como o meio físico para fazer chegar até nós a sabedoria e a vontade do Criador. O Zohar (texto principal da Cabalá) afirma a respeito: “A Torá é recoberta de vestimentas que se relacionam com este mundo, senão, de outra forma, o mundo não teria como a receber e absorver”. É, portanto, o elo entre os mundos espirituais e nossa existência terrena.
Dois notáveis exemplos de mandamentos físicos com grande valor espiritual são os da circuncisão e do uso dos tefilin (filactérios). Um dos livros muito profundos da Cabalá afirma: “O homem está vinculado à Mãe de Israel (D-us) através de dois símbolos, os tefilin e o Pacto de Abraão, isto é, a circuncisão” (Tikunei Zohar, 7a). Através de um mandamento físico marcado na carne de cada judeu do sexo masculino e, através dos tefilin, que são objetos físicos, nós nos conectamos com a Fonte Única de Espiritualidade e Santidade. As mulheres judias também têm mandamentos físicos de infinita importância espiritual. Dentre eles está o acendimento das velas de Shabat e das Festividades Judaicas, e também a imersão no mikve (banho ritual).
Há uma obra chassídica (linha ortodoxa) que explica: “D-us deseja que usemos os tefilin. Portanto, ao fazê-lo, somos envolvidos por Seu desejo. E isto se aplica, igualmente, a todos os outros mandamentos”. (Likutei Moharan, 34:4).
A razão de ser dos Mandamentos
Podemos, agora, melhor entender a conexão entre a criação do mundo e a Torá. O propósito todo da Torá – de seus 613 mandamentos - é servir como uma ponte física entre o homem e o Infinito. É o meio de Tikun Olam - de se consertar os receptáculos quebrados para que o mundo físico possa ser permeado com a Infinita Luz Divina. O Midrash nos explica que, em sua Onisciência, D-us outorgou a Torá ao povo judeu por saber que somente este povo aceitaria seus severos mandamentos. Tornaram-se, assim, os judeus, o Povo Escolhido, a “Luz entre as nações”, pois que sua missão é cumprir o propósito Divino no ato da Criação: construir para Ele uma Morada neste mundo terreno, para poder receber Sua Infinita Bondade. É por este motivo que toda a existência dependia da aceitação, pelos judeus, da Torá. Pois se nenhuma nação se sujeitasse a executar os desígnios Divinos com a Criação, o mundo, então, não teria outra razão de ser. Assim sendo, em Shavuót, o dia da outorga da Torá, celebramos toda a razão de ser da existência.
Freqüentemente se tem perguntado por que o judaísmo deposita uma ênfase quase obsessiva nos rituais. Por que há tantas ações físicas ordenadas pela Torá? Por que não se limita a religião judaica à fé, à oração e à meditação?
A razão para tal é que o judaísmo, originado através da Revelação Divina, iniciou-se quando D-us revestiu Sua Infinita Sabedoria e Vontade num Livro, decretando que Ele poderia, também, ser encontrado na terra. Pois está escrito: “Pois este mandamento que, hoje, te ordeno... não é muito difícil nem está longe de ti. Não está nos céus para que digas: ‘Quem poderá ascender aos céus, por nós, que o traga até nós, e que nos faça ouvi-lo; para que o cumpramos?’ Pois esta palavra está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Deuteronômio, 30:11-14). Com a outorga da Torá, o propósito da Criação poderia começar a ser cumprido: o propósito de revelar um D-us Infinito e Transcendental dentro deste nosso mundo físico.
E é por isso que encontramos D-us em todos os lugares e em todos os momentos. Encontramo-Lo no couro de que são feitos os tefilin que enrolamos em nossos braços e colocamos sobre nossas testas. Encontramo-Lo nos donativos que fazemos a causas nobres. Encontramo-Lo nos sons penetrantes do shofar, em uma taça do vinho de Kidush (bênção), em um pedaço de matzá (pão ázimo), na luz santificada das velas de Shabat (sábado). Encontramo-Lo na noite do Seder de Pêssach, quando nossos filhos fazem as quatro perguntas e passam a relatar que seus antepassados - uma nação de escravos no Egito - foram milagrosamente libertados do mais poderoso ditador do mundo de então. E, acima de tudo, nós O encontramos em Sua Parábola, que é transmitida com tinta preta sobre pergaminho branco.
E é por isso que D-us nos ordena que O Sirvamos com alegria (Deuteronômio, 28:47). Pois que através de cada um dos mandamentos físicos da Torá, conectamo-nos com a Fonte Única de Vida e Bondade. Nossos sábios afirmam, portanto, que O Santificado Abençoado seja, quis premiar o povo judeu, dando-lhes, por este motivo, a Torá e seus mandamentos (Talmud, Makot 3: 16).
No primeiro dia da Criação, disse D-us: “Haja luz; e houve luz” (Gênese, 1:3). Mas o mundo não estava preparado para absorver a intensidade de tão Infinita Luz. Por isso, O Santo Bendito Seja ocultou tal Luz em Sua Torá. Quando a estudamos e praticamos, conseguimos revelar essa Luz. O rabi Yosef Yitzhak Schneerson, o sexto Lubavitcher Rebe, não se cansava de repetir que é desnecessária a tentativa de afastar a escuridão. Basta trazermos a Luz e isto fará desaparecer as trevas. Portanto, D-us exilou Seu povo para que através de seu Divino serviço pudessem iluminar o mundo inteiro.
Por intermédio do povo judeu, a Torá irá consertar os receptáculos quebrados, retificando, deste modo, o estado inicial do caos e eliminando todas as formas de escuridão – o sofrimento, o conflito, a ignorância, a doença e por fim a morte. O desvendar da Luz Infinita irá então anunciar a nova era - aquela na qual todos os povos apenas conhecerão a vida, a paz, a plenitude e a alegria. O mundo irá finalmente ser a Morada para o Divino, “porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem os mares” (Isaías 11:9). E quando o povo judeu completar a sua missão, trazendo com ela a redenção universal, serão todos levados de volta à Terra que D-us lhes prometeu. E assim, todo o propósito da Criação terá finalmente se realizado, e...”Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua minguará, porque o Senhor será tua Luz perpétua, e os dias do teu luto findarão. Todos os do teu povo serão justos, e a terra para sempre herdarão” (Isaías, 60:20-21).

Por que teria D-us dado à Torá a nós, simples mortais?

O Talmud nos conta (no tratado Shabat 88b-89a) que os próprios Anjos Ministeriais contestaram D-us quando convocaram Moisés com a intenção manifesta de lhe entregar a Torá para transmiti-la a simples mortais que, segundo os anjos, certamente não a utilizariam de forma adequada.
D-us ordena a Moisés que ele responda aos anjos. Moisés afirma que a Torá se ocupa de assuntos tão mundanos quanto trabalho, comércio, alimento, descanso, roubo, assassinato, cobiça, procriação e coisas do gênero. "Já que vocês anjos, não estão sujeitos a tais necessidades, desejos e cobiças, de que lhes serviria a Torá ?" Os anjos, então, concordaram em que a Torá destinava-se, realmente, apenas aos seres humanos.
Quais seriam estas ações corretas que a Torá ordena? "Sereis santificados, pois Eu, o Eterno vosso D-us, sou santificado" (Levítico 19:2). Santificado, não meramente no sentido do tabu misterioso, mas nas leis da pureza ritual, dos alimentos proibidos, no cumprimento do Shabat e dos dias santos, leis referentes aos sacerdotes e coisas afins.
De fato, este mandado de sermos santificados é imediatamente seguido, praticamente uma só vez, pela ordem de reverenciar nossos pais e observar o Shabat. O restante desse capítulo, composto de 37 versículos, inclui alguns preceitos referentes à idolatria e questões rituais, e muitos outros que tratam de relações humanas apropriadas. Ordenam-nos não roubar, enganar ou trapacear; não perseguir, nem roubar nossos vizinhos; dar aos trabalhadores a sua paga ao fim de um dia de trabalho; não corromper a justiça; não caluniar, nem difamar; respeitar os mais velhos; não oprimir os forasteiros, não trapacear nos pesos e medidas.
O líder chassídico do início do século XIX, Rabi Menachem Mendel Halpern-Morgenstern, de Kotzk, deteve-se na análise deste assunto. Ele argumenta que se o que D-us pretendia era apenas a perfeita observância dos preceitos da Torá, Ele deveria tê-la dado aos anjos. No entanto, D-us não deseja apenas um mero, automático e perfeito cumprimento dos mandamentos. O que D-us realmente aprecia é o pensamento, a intenção, o esforço que nós, seres humanos, investimos em optar por seguir os seus preceitos, e mais, em vencer os desejos psíquicos, as inibições e impedimentos físicos em nosso empenho por fazer o que é certo - e não o que é errado.
O que é a Torá ?
A Torá não é "a Lei", como os pensadores cristãos há muito o traduziram e muitos ainda o fazem. Nem tão pouco é um livro-texto sobre astrofísica, geologia ou história, apesar de conter elementos de tudo isto e de muito mais.
A palavra Torá significa ensinar, instruir, dirigir. Então a Torá é um ensinamento, uma instrução, uma direção, um guia - um guia em direção às atitudes corretas e ao afastamento de atitudes erradas. Exatamente no meio do capítulo, encontra-se o famoso ensinamento, "E amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.(É verdade que há, ainda, vários cristãos e até muitos judeus que acreditam que Jesus é o autor deste mandamento).
Usando-se uma idêntica linguagem, recebemos a ordem acerca do forasteiro em nosso meio, de "amá-lo como a nós mesmos".

“Tradições e Costumes” – Erma C. Schlesinger
Morashá.com - Edição 29 - Junho de 2000 - Edição 32 - abril de 2001

 



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