Por: Ari
Zugman
No meu tempo de
menino, isto na década de sessenta, havia
o “Shoichet”. Shoichet é a palavra em iídiche
para magarefe. Ficou na mesma? Procure no Houaiss ou no Aurélio
ou em qualquer livro de contos judaicos do século XIX.
O shoichet era uma das figuras mais populares e folclóricas
do shteitl: o açougueiro ritual, que faz o abate de animais
para consumo segundo os preceitos judaicos. O abate deve ser
indolor, (tanto quanto possível) por degola, com uma faca
afiadíssima.
O animal deve ter saúde perfeita. As vísceras são
cuidadosamente examinadas. Uma vez aprovado o animal, apenas
certas partes podem ser consumidas, ainda assim passam por uma
preparação onde o sangue é retirado, etc.
Muito bem, voltando ao Shoichet, para mim e acho que para a maioria
dos que o conheciam, era assim mesmo, com letra maiúscula,
como se fosse seu nome próprio. Havia os Moishes e os
Yankels e havia o Shoichet. Tinha uma voz rouca e esganiçada,
cabelos desgrenhados e olhos esbugalhados. Estava sempre na sinagoga,
com seu grupo que parecia saído de um livro de história
judaica.
Certa vez, em circunstâncias que não me recordo,
ou que nunca soube exatamente, levou um tiro na cabeça.
Para completar amputou uma perna. Assim viveu até o fim
com uma bala de mais e uma perna de menos. Não é de
admirar, que para um menino tenha ficado
a seu respeito, uma imagem meio sobrenatural ou mitológica.
Quando criança, acompanhei algumas vezes meu avô materno
a um açougue de periferia onde o Shoichet fazia o seu
trabalho. Íamos em busca de carne para a minha avó, única
na família que nunca se rendeu e exigiu carne casher até a
sua morte.
Acredito que desde o Shoichet, há trinta e cinco ou quarenta
anos, nunca mais houve um abate de boi casher em Curitiba. Até o
mês de março passado, quando o rabino Disraeli Zagury,
de Belém, e o rabino Berkes, do Rio, abateram quarenta
e dois bois para Pêssach num frigorífico de São
José dos Pinhais. Destes aproveitaram-se vinte e oito.
O sucesso foi tanto e a aceitação tamanha, que
um segundo abate já foi efetuado, agora de sessenta bois,
cuja carne estará disponível nos próximos
dias.
A idéia é que possamos ter uma carne casher fresca,
com boa qualidade e apresentação, esta é embalada
a vácuo, por preços não muito superiores
aos da carne não casher encontrados no mercado.
A propósito, o mercado de carnes casher é um dos
que mais crescem na área de alimentos no mundo. Nos EUA,
imensas gôndolas são ocupadas por produtos desta
natureza nos supermercados. Cada vez mais americanos, judeus
e não judeus, procuram produtos e principalmente a carne
casher.
Os judeus observantes evidentemente só consomem a carne
casher por ser um preceito da Torá. Outros preferem o
casher por motivos higiênicos, por ser uma carne que passa
por supervisão rigorosa, além dos requerimentos
legais (não faz mal nenhum em tempos de vacas loucas).
Alguns preferem o casher por motivos místicos ou cabalísticos.
Acredita-se que na hora da morte o animal transfere para a carne
(talvez através de hormônios como a adrenalina)
sua dor e desespero. O consumidor, de alguma forma, incorporaria
estes sentimentos ao ingerir a carne. O cuidado na shechitá em
evitar a dor e o estresse do animal no momento do abate diminuiria
este efeito. Além disto, algumas religiões evangélicas
preferem o casher e os muçulmanos, que possuem regras
dietéticas semelhantes às nossas, também
procuram o casher.
Se você quiser encontrar carne e outros produtos casher
em Curitiba, procure o Beit Chabad. Se quiser mais informações
sobre cashrut, procure os rabinos Fitche ou Mordechai no Beit
Chabad ou o professor Sami na Kehilá. Ou procure nos milhares
de sites e publicações sobre o assunto.
Bom apetite e boa viagem!!
* Ari Zugman – é engenheiro civil e empresário
em Curitiba.