Visão Judaica - Edição N° 24
:. O Shoichet e a Cashrut .:

Por: Ari Zugman

No meu tempo de menino, isto na década de sessenta, havia o “Shoichet”. Shoichet é a palavra em iídiche para magarefe. Ficou na mesma? Procure no Houaiss ou no Aurélio ou em qualquer livro de contos judaicos do século XIX. O shoichet era uma das figuras mais populares e folclóricas do shteitl: o açougueiro ritual, que faz o abate de animais para consumo segundo os preceitos judaicos. O abate deve ser indolor, (tanto quanto possível) por degola, com uma faca afiadíssima.
O animal deve ter saúde perfeita. As vísceras são cuidadosamente examinadas. Uma vez aprovado o animal, apenas certas partes podem ser consumidas, ainda assim passam por uma preparação onde o sangue é retirado, etc.
Muito bem, voltando ao Shoichet, para mim e acho que para a maioria dos que o conheciam, era assim mesmo, com letra maiúscula, como se fosse seu nome próprio. Havia os Moishes e os Yankels e havia o Shoichet. Tinha uma voz rouca e esganiçada, cabelos desgrenhados e olhos esbugalhados. Estava sempre na sinagoga, com seu grupo que parecia saído de um livro de história judaica.
Certa vez, em circunstâncias que não me recordo, ou que nunca soube exatamente, levou um tiro na cabeça. Para completar amputou uma perna. Assim viveu até o fim com uma bala de mais e uma perna de menos. Não é de admirar, que para um menino tenha ficado
a seu respeito, uma imagem meio sobrenatural ou mitológica.
Quando criança, acompanhei algumas vezes meu avô materno a um açougue de periferia onde o Shoichet fazia o seu trabalho. Íamos em busca de carne para a minha avó, única na família que nunca se rendeu e exigiu carne casher até a sua morte.
Acredito que desde o Shoichet, há trinta e cinco ou quarenta anos, nunca mais houve um abate de boi casher em Curitiba. Até o mês de março passado, quando o rabino Disraeli Zagury, de Belém, e o rabino Berkes, do Rio, abateram quarenta e dois bois para Pêssach num frigorífico de São José dos Pinhais. Destes aproveitaram-se vinte e oito. O sucesso foi tanto e a aceitação tamanha, que um segundo abate já foi efetuado, agora de sessenta bois, cuja carne estará disponível nos próximos dias.
A idéia é que possamos ter uma carne casher fresca, com boa qualidade e apresentação, esta é embalada a vácuo, por preços não muito superiores aos da carne não casher encontrados no mercado.
A propósito, o mercado de carnes casher é um dos que mais crescem na área de alimentos no mundo. Nos EUA, imensas gôndolas são ocupadas por produtos desta natureza nos supermercados. Cada vez mais americanos, judeus e não judeus, procuram produtos e principalmente a carne casher.
Os judeus observantes evidentemente só consomem a carne casher por ser um preceito da Torá. Outros preferem o casher por motivos higiênicos, por ser uma carne que passa por supervisão rigorosa, além dos requerimentos legais (não faz mal nenhum em tempos de vacas loucas). Alguns preferem o casher por motivos místicos ou cabalísticos. Acredita-se que na hora da morte o animal transfere para a carne (talvez através de hormônios como a adrenalina) sua dor e desespero. O consumidor, de alguma forma, incorporaria estes sentimentos ao ingerir a carne. O cuidado na shechitá em evitar a dor e o estresse do animal no momento do abate diminuiria este efeito. Além disto, algumas religiões evangélicas preferem o casher e os muçulmanos, que possuem regras dietéticas semelhantes às nossas, também procuram o casher.
Se você quiser encontrar carne e outros produtos casher em Curitiba, procure o Beit Chabad. Se quiser mais informações sobre cashrut, procure os rabinos Fitche ou Mordechai no Beit Chabad ou o professor Sami na Kehilá. Ou procure nos milhares de sites e publicações sobre o assunto.
Bom apetite e boa viagem!!

* Ari Zugman – é engenheiro civil e empresário em Curitiba.


Voltar