Por: Sergio Feldman
Jesus era judeu.
Nasceu em Belém (Beit Lechem) na Judéia
(Iehudá), de pai e mãe judeus, viveu entre a Judéia
e a Galiléia (Galil). Cresceu em Nazaré (Natzeret)
e pregou na Galiléia, no lago Tiberíades (Kineret
ou mar da Galiléia) e no vale do Rio Jordão (Iarden).
Viveu e pensou como um judeu de sua época: falava frases
retiradas do livro de Isaías e do Pentateuco (Torá).
Algumas de sua celebres frases, podem ser repensadas. Costuma-se
atribuir a célebre frase, “Amarás ao próximo
como a ti mesmo” a Jesus. Alguns judeus a atribuem a Hilel,
sábio renomado do período do Segundo Templo, mas
anterior a Jesus. Porém, há um versículo
(passuk) no código da Santidade (Levítico ou Vaikrá,
cap. 19, v. 18) que cita esta famosa frase, muitos séculos
antes de Hilel e Jesus. Por que foi atribuída a Jesus?
Por que sintetiza os ideais e as idéias principais da
religião judaica: amar a D-us e amar ao próximo.
Jesus praticava e acreditava nestes valores, pois era judeu.
Já repararam que todas as pessoas neste país celebram
a circuncisão (Brit Milá) de Jesus, sem se dar
conta que nasceu no dia 25 de dezembro e foi circuncidado no
dia 1º de janeiro, exatamente oito dias, como manda a tradição
judaica!!! Nada mais nada menos do que a antiga denominação
da festa: circuncisão universal. Depois foi renomeada
como confraternização universal. Se o Judaísmo
tem como pilares a circuncisão, o estudo da Lei ou Pentateuco
(Torá), e a prática dos preceitos (mitzvot), o
que nos diz disso Jesus? Seria contra a Torá? E os argumentos
e pontos de vista dos profetas hebreus tão importantes
no Judaísmo, teriam apoio ou seriam negados por Jesus?
O trecho do apóstolo Mateus traz luz a esta questão
(cap. 5, v. 17). Diz: “Não pensem que vim para destruir
a Lei e os Profetas; não vim para destruir, mas sim para
fazê-los cumprir”. Como pode ser percebido, Jesus
não nega a Torá e os Profetas, mas defendê-os.
Tratava-se de um judeu cumpridor das miztvot e das práticas
judaicas. Nunca se declarou contra e nem se opôs à sua
prática.
A última ceia que foi a motivação da “Ceia
do Senhor” e posteriormente da eucaristia (e da hóstia)
era uma ceia (seder) da Páscoa Judaica (Pessach). A origem
da hóstia é o pão ázimo (matzá).
Eu conheci um padre, muito amigo dos judeus, que sempre vinha
comprar caixas de matzot na sinagoga, para usá-las nas
missas, num dos locais aonde trabalhei, aqui no Brasil. Dizia
que se tratava da verdadeira hóstia, pois se assemelhava àquela
de Jesus.
Jesus guardava o Sábado (Shabat), freqüentava o Templo
(Beit Hamikdash), celebrava as festas do calendário judaico
(chaguim), e compartilhava seu saber e sua bondade com seus irmãos
oprimidos. E quem os oprimia? Quem seriam os adversários
de Jesus? Há uma diversidade de opiniões e de interpretações.
Permitam-me direcionar a reflexão, para uma destas vertentes
interpretativas. O maior inimigo dos judeus neste período
era o Império Romano, que ocupara toda a Ásia Ocidental
e se tornara a potência dominante. Para dominar, adotava
políticas de ocupação diferentes em cada
região, mas geralmente buscava alianças de grupos
determinados, para neutralizar oposições locais.
Quem seriam os aliados de Roma, na Judéia? Um destes era
Herodes, o idumeu (edomita), cuja família fora convertida
ao Judaísmo. Político habilidoso e grande construtor,
porém dotado de uma paranóia que o levava a ver
inimigos em todos os lugares. Apoiava os romanos por achar que
não havia chances de sobreviver senão apoiando
o domínio romano. Havia grupos que entendiam isto, mesmo
não gostando dos romanos. Um destes grupos eram os saduceus
(tzedukim). Tinham sua ideologia centrada nos rituais de sacrifícios
no Templo. Eram, na sua maioria, membros da classe dominante:
nobres, parentes da família real, descendentes do clã sacerdotal
(cohanim), grandes comerciantes e latifundiários. Não
vendo como sobreviver diante do Império,
optaram por aceitá-lo e submeter-se ao mesmo.
Na oposição ao Império temos diversas posições.
Alguns eram moderados e não aceitando, optaram por não
se revoltar de armas na mão, por não ver chances
de vencer. Um destes grupos eram os fariseus (prushim), que optaram
pela Lei, seu estudo e sua prática, mais do que o ritualismo
do Templo que servia para fortalecer os interesses dos saduceus.
Opunham-se criticando e acreditando que um dia D-us enviaria
o seu Ungido ou Messias, para libertar seu povo, através
de uma nova era. Vencendo os romanos, estabeleceria o reino de
D-us na Terra. Um tempo messiânico, sem guerras e sem injustiça
social, sem violência e sem opressão ao gênero
humano. Os cristãos seriam um grupo dissidente, dentro
do Judaísmo, que acreditou que o Messias já viera
e que Jesus, seria o ungido enviado por D-us. Eram judeus e sonhavam
com um ideal judaico. Outros grupos messiânicos surgiram
neste período. Tratava-se de uma era de profunda religiosidade,
de uma enorme expectativa messiânica. Não apoiavam
o domínio imperial, mas trataram de não se chocar
com o poder de Roma. Diziam: “Daí a César
o que é de César, e daí a D-us o que é de
D-us”.
Isso pode dar espaço a algumas leituras e interpretações:
aceitar Roma até a hora que D-us derrubasse o Império.
Não criticar abertamente Roma, mas entender que os impérios
são passageiros e acabam caindo um dia. Só D-us é Eterno.
Uma maneira de pensar, muito judaica. Os primitivos cristãos
não eram simpatizantes do Império e eram críticos
dos saduceus. Então quem matou Jesus? Sem dúvida
os romanos, já que foi crucificado (pena de morte romana)
e não apedrejado (pena de morte judaica). O tribunal judaico
não tinha permissão romana para deliberar sobre
pena de morte. Isso competia a Roma: só inimigos de Roma
podiam ser condenados à morte. A participação
e o apoio dos saduceus é visível: mas não
houve um apoio generalizado do povo judeu que vivia na Judéia,
neste período. Jesus não representava uma ameaça
aos fariseus; no máximo uma voz crítica e discordante
como muitas outras. Aos saduceus e a Roma, Jesus oferecia uma
severa crítica: por sinal, bastante inserida nas palavras
de Isaías e outros profetas que lhe serviam de inspiração.
Estes poderiam estar interessados em puni-lo e condená-lo
a morte.
Roma continuou a perseguir os cristãos por mais de duzentos
e cinqüenta anos. Foram inúmeras perseguições,
mas computamos cerca de dez grandes perseguições
aos cristãos. Uma média de uma grande perseguição
a cada 25 anos. O primeiro imperador que os perseguiu foi Nero
já nos anos sessenta do primeiro século. Os cristãos
foram jogados aos leões no Circo Romano. Isso prosseguiu
até o Imperador Diocleciano, próximo ao ano 300.
O ódio e a perseguição aos cristãos
era uma constante: só cessou quando o Imperador Constantino
fez a opção de proteger e tolerar a religião
cristã por razões estratégicas. O cristianismo
passa então de religião oprimida e perseguida,
a tolerada. Não demora a se tornar religião protegida
e por fim religião dominante e opressora. E passa a perseguir
os cristãos dissidentes (denominados hereges), e a restringir
os direitos judaicos no Baixo Império.
E como o Cristianismo se separou do Judaísmo? Originalmente
se tratava de uma seita judaica que acreditava que o Messias
já viera e era Jesus. Após sua morte os apóstolos
saíram a pregar sua nova fé e seus valores e ideais
a outros judeus. Pregavam nas sinagogas da Síria, Ásia
Menor, Egito e Grécia. Eram judeus pregando a seus irmãos.
Contudo havia semi-prosélitos ou metuentes, que freqüentavam
as sinagogas. Eram não-judeus atraídos pelo judaísmo
e que não se tornavam judeus por causa de certas exigências.
A conversão ao Judaísmo exigia certas atitudes:
o prosélito devia celebrar a circuncisão, estudar
a Lei (Torá) e praticar os preceitos. Diante disso alguns
dos apóstolos pensaram em evangelizá-los: convertê-los à nova
seita judaico-cristã. Mas a dificuldade e as exigências
deveriam ser superadas. Um concílio reunido em Jerusalém
em meados do primeiro século abriu a porta aos não-judeus,
retirando as exigências de Circuncisão, Torá e
preceitos e colocando em seu lugar o batismo e a fé em
Jesus como Salvador. O mentor desta mudança foi Paulo
de Tarso. Neste momento se iniciou a separação
dos judeus e dos cristãos. Não pode haver Judaísmo
rabínico sem circuncisão, Torá e preceitos.
O distanciamento aumentou quando os cristãos optaram por
não apoiar a revolta contra Roma (66-70 d.C.). Deste momento
em diante se tornam inimigos e a reaproximação
só acontece após quase 2 mil anos, com o Concílio
Vaticano II convocado pelo Papa João XXIII.
Com a reviravolta de Constantino e a aliança do Império
com a Igreja, ambos trataram de esquecer dois séculos
e meio de perseguições e de confronto. Roma deixa
de ser a grande inimiga e passa a ser aliada.
Os judeus passam a ser os concorrentes da herança da Revelação
da Lei e da herança do Pacto de D-us. Assim sendo, para
existir, a Cristandade teve de persegui-los, humilhá-los
e sempre provar que o novo pacto havia substituído o pacto
de Abraão, Isaac, Jacob e Moisés. Por séculos
a Igreja irá construir uma ideologia, na qual a culpa
e o erro judaico teriam um papel central. Não exterminar
os judeus, mas provar sua culpa (mesmo que de maneira forjada)
e seu erro ao não aceitar Cristo. E acreditar que o retorno
de Jesus só se daria, se e quando os judeus se convertessem,
pelo menos parcialmente ao Cristianismo.
Isso deu início a séculos de perseguições,
confrontos teológicos e preconceito antijudaico, em nome
de Jesus.
Jesus que era um judeu, deixou de “sê-lo”. “Esqueceram-se” de
suas raízes e de suas origens. Seu povo passou a ser o
povo de Judas, o traidor. O povo de Jesus foi exorcizado e demonizado
por séculos: os judeus foram comparados ao demônio
e considerados filhos do Mal.
Este artigo é dedicado a alguns de meus amigos que ao
final do debate de Iom Haatzmaut (dia da Independência
de Israel) me solicitaram uma continuidade do tema e um fundamento
para os temas levantados pelo debate.
*Sergio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutorando em História pela UFPR.