Visão Judaica - Edição N° 24
:. Coloquem os jovens no Ibama .:

 

 

Por: Alexandre Ostrowiecki (Nani)

Este artigo e a pesquisa podem refletir também a situação dos jovens curitibanos.

No ritmo atual, daqui a pouco poderemos colocar nossos jovens judeus na lista de espécies em extinção do Ibama.
Recentemente, decidi realizar uma pesquisa para tentar entender um pouco mais sobre a situação da nossa juventude comunitária. Ao final de alguns dias de trabalho e de cerca de 80 pesquisas realizadas com jovens judeus dos mais variados ambientes foi possível encontrar algumas informações muito interessantes.
Vamos supor que existam em São Paulo 60 mil judeus. Desse total, segundo a pirâmide social das populações desenvolvidas socio-economicamente, pode-se imaginar que haja cerca de 10.000 jovens entre 18 e 35 anos. Esse é o grupo que estamos nos propondo a avaliar. Das pesquisas e impressões gerais, ficou claro que existem basicamente três grupos de jovens distintos, divididos segundo a sua atuação e sentimentos comunitários: os judeus ativistas, os esporádicos e os de sobrenome. Claro que esses termos são uma simplificação e que há centenas de pessoas que estão em situação intermediária entre um grupo e outro, mas vamos adotar esses grupos para fins de ilustração.
O grupo dos ativistas corresponde a pouco menos de 10% dos jovens, ou mil pessoas. Como o nome bem diz, estes são ativos em uma ou mais instituições judaicas. Podem ser observantes das leis judaicas ou não (a maioria não o é). A quase totalidade do grupo dos ativistas é sionista e apóia o Estado de Israel. Geralmente, a maioria dos amigos são judeus, trazidos desde o tempo de colégio judaico ou movimento juvenil. Esses amigos tendem a permanecer com os jovens ativistas pelo resto da vida. Esse grupo tende a valorizar a cultura e a tradição judaica, apesar de não os conhecer a fundo. Quando o tema é casamento misto, os jovens ativistas declaram que ou só se casariam com outro judeu ou preferem fortemente casar-se com outro judeu. Dentre o grupo dos ativistas, a ortodoxia enquanto opção religiosa não costuma ser considerada muito atrativa, a não ser, é claro, para aqueles que cresceram em lares ortodoxos. Apesar de atuarem com freqüência em ambientes judaicos, o grau de conhecimento desse grupo sobre judaísmo é bastante baixo. Se perguntarem a esse grupo, por exemplo, qual é a diferença entre Torá e Talmud, muito poucos saberão responder. A identificação judaica ocorre mais através do sentimento do que pelo estudo.
O segundo grupo corresponde a 30% da população jovem judaica e foi chamado de judeus esporádicos ou judeus das "grandes festas". Esse pessoal não costuma atuar em nenhuma instituição, sendo que os principais (e talvez únicos) vínculos com a comunidade são a sinagoga de Yom Kipur/Rosh Hashaná, a piscina da Hebraica e as baladas (festas de confraternização). A quase totalidade deste grupo é não observante das leis judaicas como Shabat e Cashrut. A religião é vista geralmente como obrigação enfadonha a ser cumprida por exigência de pais e avós. No caso deste grupo, a maioria dos amigos tende a ser de não judeus, sendo que os judeus esporádicos tendem a reter parte dos amigos judeus da infância, que os acompanham ao longo da vida. Quanto ao casamento misto, cerca de metade declara preferir casar com judeu enquanto a outra metade se declara indiferente. Um ponto interessante é que, no grupo dos judeus esporádicos, quando ocorre algum evento anti-semita, é normal observar um forte ressurgimento do interesse pela comunidade e aumento da identificação judaica. Este é o grupo mais suscetível a ser influenciado pelo judaísmo ortodoxo. Um grande número de judeus esporádicos retornam ao seio da comunidade através da influência das congregações ortodoxas. Em termos de conhecimento judaico deste grupo, o pouco de informação que as pessoas sabem é bastante fragmentada e confusa, geralmente resquícios, de alguma passagem por escola judaica. Se fizermos aos judeus esporádicos a mesma pergunta feita acima (diferença entre Torá e Talmud), a maioria das pessoas responderia "o que é esse negócio de Talmud?”
O último grupo é o dos judeus de sobrenome, que corresponde à maioria da população jovem de São Paulo, cerca de 60% do total. Dei esse nome porque as pessoas que pertencem a este grupo retém sobrenomes judaicos e não muito mais do que isso. Não existe praticamente vínculo comunitário nenhum, no máximo um pulinho na sinagoga para o Kol Nidrei, para satisfazer algum pedido do avô. Os judeus de sobrenome desconhecem completamente o que possa vir a ser o judaísmo, inclusive muitos fazem questão de rejeitar a sua identidade judaica por acreditar que ela seja incompatível com o caráter pluralista do Brasil. A quase totalidade dos amigos é de não judeus, advindos dos mais diversos ambientes de convívio (faculdade, trabalho, discotecas). São completamente indiferentes quando se trata de casamento misto. Pelo contrário, esse grupo se posiciona contra qualquer pessoa que afirme preferir alguém da mesma religião para casar, o que consideram racismo. Nos momentos de anti-semitismo, contudo, a maioria o grupo dos judeus de sobrenome segue um padrão semelhante ao dos judeus esporádicos, aumentando o seu interesse e identificação com causas judaicas. É nos momentos de contestação e discussão com algum conhecido não judeu que essas pessoas começam a buscar a comunidade. Apesar disso, uma parcela não desprezível segue pelo caminho oposto, da crítica radical a Israel como forma de se proteger dos ataques. Alguns dos judeus de sobrenome podem se tornar os mais virulentos dos "self hate Jews". A maior parte dos membros deste grupo tenta se manter o mais longe possível das sinagogas, mas é bastante comum que algumas pessoas, ao entrar em contato com a ortodoxia, tornem-se observantes rapidamente, principalmente as pessoas com dificuldades sociais, envolvimento com drogas e outras condições que as deixe em busca de rumo e espiritualidade. Se for feita a pergunta citada anteriormente (Torá x Talmud) não será incomum alguém perguntar o que é Torá.
O que se observa é que a tendência geral da população jovem seja mover-se para a direita, a medida em que os filhos de jovens ativistas tendem a se tornar esporádicos e os filhos dos esporádicos tendem a se tornar judeus de sobrenome. Deste último grupo, a menos que ocorra algum evento externo marcante, a tendência é a assimilação completa. Entre os fatores que causam este quadro estão a crise do modelo religioso atual, especialmente das congregações liberais e a crise do sionismo. Além destas questões, a própria natureza da sociedade brasileira, possivelmente a sociedade mais aberta e sedutora do mundo ocidental, contribui para que os jovens se afastem e optem por uma vida não judaica.
Neste artigo não estou propondo soluções. Em primeiro lugar porque não as tenho de imediato e em segundo lugar porque me propus simplesmente a descrever uma situação e levantar algumas questões. Talvez as principais delas sejam as seguintes:
1) Como podemos fazer com que os jovens ativistas, que já têm interesse e dedicação à comunidade, invistam mais em sua própria educação de forma que se tornem um pólo de conhecimento e perpetuação do judaísmo?
2) Como podemos revitalizar o nosso modelo religioso de modo que a oração e espiritualidade do judaísmo comecem a atrair os jovens, ao invés de espantá-los?
3) Como podemos canalizar a ênfase única que o judaísmo dá na justiça social de forma que a Tzedaká passe a ser mais valorizada pelo jovem e se torne um núcleo de atração de novos ativistas?
4) Quando vamos finalmente entender que o casamento misto é uma realidade inescapável e encarar de frente essa questão?

A forma e a rapidez com que vamos responder a essas questões será, provavelmente, a coisa mais importante que a nossa comunidade fará nos próximos 20 anos. Mas não precisamos nos desesperar. Em último caso, os jovens sempre poderão viajar para a Amazônia e nadar junto aos botos cor-de-rosa com plaquetas de S.O.S.

* Alexandre Ostrowiecki (Nani) é administrador de empresas e membro da Taba – Coalização pela Paz entre Israel e Palestina. Baseado em pesquisa que fez, publicou este texto na Revista Com.Shalom – 9/5/04

 

 



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