Por: Alexandre Ostrowiecki
(Nani)
Este artigo e a pesquisa podem refletir também a situação
dos jovens curitibanos.
No ritmo atual, daqui a pouco poderemos colocar
nossos jovens judeus na lista de espécies em extinção
do Ibama.
Recentemente, decidi realizar uma pesquisa para tentar entender
um pouco mais sobre a situação da nossa juventude
comunitária. Ao final de alguns dias de trabalho e de cerca
de 80 pesquisas realizadas com jovens judeus dos mais variados
ambientes foi possível encontrar algumas informações
muito interessantes.
Vamos supor que existam em São Paulo 60 mil judeus. Desse
total, segundo a pirâmide social das populações
desenvolvidas socio-economicamente, pode-se imaginar que haja cerca
de 10.000 jovens entre 18 e 35 anos. Esse é o grupo que
estamos nos propondo a avaliar. Das pesquisas e impressões
gerais, ficou claro que existem basicamente três grupos de
jovens distintos, divididos segundo a sua atuação
e sentimentos comunitários: os judeus ativistas, os esporádicos
e os de sobrenome. Claro que esses termos são uma simplificação
e que há centenas de pessoas que estão em situação
intermediária entre um grupo e outro, mas vamos adotar esses
grupos para fins de ilustração.
O grupo dos ativistas corresponde a pouco menos de 10% dos jovens,
ou mil pessoas. Como o nome bem diz, estes são ativos em
uma ou mais instituições judaicas. Podem ser observantes
das leis judaicas ou não (a maioria não o é).
A quase totalidade do grupo dos ativistas é sionista e apóia
o Estado de Israel. Geralmente, a maioria dos amigos são
judeus, trazidos desde o tempo de colégio judaico ou movimento
juvenil. Esses amigos tendem a permanecer com os jovens ativistas
pelo resto da vida. Esse grupo tende a valorizar a cultura e a
tradição judaica, apesar de não os conhecer
a fundo. Quando o tema é casamento misto, os jovens ativistas
declaram que ou só se casariam com outro judeu ou preferem
fortemente casar-se com outro judeu. Dentre o grupo dos ativistas,
a ortodoxia enquanto opção religiosa não costuma
ser considerada muito atrativa, a não ser, é claro,
para aqueles que cresceram em lares ortodoxos. Apesar de atuarem
com freqüência em ambientes judaicos, o grau de conhecimento
desse grupo sobre judaísmo é bastante baixo. Se perguntarem
a esse grupo, por exemplo, qual é a diferença entre
Torá e Talmud, muito poucos saberão responder. A
identificação judaica ocorre mais através
do sentimento do que pelo estudo.
O segundo grupo corresponde a 30% da população jovem
judaica e foi chamado de judeus esporádicos ou judeus das "grandes
festas". Esse pessoal não costuma atuar em nenhuma
instituição, sendo que os principais (e talvez únicos)
vínculos com a comunidade são a sinagoga de Yom Kipur/Rosh
Hashaná, a piscina da Hebraica e as baladas (festas de confraternização).
A quase totalidade deste grupo é não observante das
leis judaicas como Shabat e Cashrut. A religião é vista
geralmente como obrigação enfadonha a ser cumprida
por exigência de pais e avós. No caso deste grupo,
a maioria dos amigos tende a ser de não judeus, sendo que
os judeus esporádicos tendem a reter parte dos amigos judeus
da infância, que os acompanham ao longo da vida. Quanto ao
casamento misto, cerca de metade declara preferir casar com judeu
enquanto a outra metade se declara indiferente. Um ponto interessante é que,
no grupo dos judeus esporádicos, quando ocorre algum evento
anti-semita, é normal observar um forte ressurgimento do
interesse pela comunidade e aumento da identificação
judaica. Este é o grupo mais suscetível a ser influenciado
pelo judaísmo ortodoxo. Um grande número de judeus
esporádicos retornam ao seio da comunidade através
da influência das congregações ortodoxas. Em
termos de conhecimento judaico deste grupo, o pouco de informação
que as pessoas sabem é bastante fragmentada e confusa, geralmente
resquícios, de alguma passagem por escola judaica. Se fizermos
aos judeus esporádicos a mesma pergunta feita acima (diferença
entre Torá e Talmud), a maioria das pessoas responderia "o
que é esse negócio de Talmud?”
O último grupo é o dos judeus de sobrenome, que corresponde à maioria
da população jovem de São Paulo, cerca de
60% do total. Dei esse nome porque as pessoas que pertencem a este
grupo retém sobrenomes judaicos e não muito mais
do que isso. Não existe praticamente vínculo comunitário
nenhum, no máximo um pulinho na sinagoga para o Kol Nidrei,
para satisfazer algum pedido do avô. Os judeus de sobrenome
desconhecem completamente o que possa vir a ser o judaísmo,
inclusive muitos fazem questão de rejeitar a sua identidade
judaica por acreditar que ela seja incompatível com o caráter
pluralista do Brasil. A quase totalidade dos amigos é de
não judeus, advindos dos mais diversos ambientes de convívio
(faculdade, trabalho, discotecas). São completamente indiferentes
quando se trata de casamento misto. Pelo contrário, esse
grupo se posiciona contra qualquer pessoa que afirme preferir alguém
da mesma religião para casar, o que consideram racismo.
Nos momentos de anti-semitismo, contudo, a maioria o grupo dos
judeus de sobrenome segue um padrão semelhante ao dos judeus
esporádicos, aumentando o seu interesse e identificação
com causas judaicas. É nos momentos de contestação
e discussão com algum conhecido não judeu que essas
pessoas começam a buscar a comunidade. Apesar disso, uma
parcela não desprezível segue pelo caminho oposto,
da crítica radical a Israel como forma de se proteger dos
ataques. Alguns dos judeus de sobrenome podem se tornar os mais
virulentos dos "self hate Jews". A maior parte dos membros
deste grupo tenta se manter o mais longe possível das sinagogas,
mas é bastante comum que algumas pessoas, ao entrar em contato
com a ortodoxia, tornem-se observantes rapidamente, principalmente
as pessoas com dificuldades sociais, envolvimento com drogas e
outras condições que as deixe em busca de rumo e
espiritualidade. Se for feita a pergunta citada anteriormente (Torá x
Talmud) não será incomum alguém perguntar
o que é Torá.
O que se observa é que a tendência geral da população
jovem seja mover-se para a direita, a medida em que os filhos de
jovens ativistas tendem a se tornar esporádicos e os filhos
dos esporádicos tendem a se tornar judeus de sobrenome.
Deste último grupo, a menos que ocorra algum evento externo
marcante, a tendência é a assimilação
completa. Entre os fatores que causam este quadro estão
a crise do modelo religioso atual, especialmente das congregações
liberais e a crise do sionismo. Além destas questões,
a própria natureza da sociedade brasileira, possivelmente
a sociedade mais aberta e sedutora do mundo ocidental, contribui
para que os jovens se afastem e optem por uma vida não judaica.
Neste artigo não estou propondo soluções. Em primeiro
lugar porque não as tenho de imediato e em segundo lugar porque me propus
simplesmente a descrever uma situação e levantar algumas questões.
Talvez as principais delas sejam as seguintes:
1) Como podemos fazer com que os jovens ativistas, que já têm
interesse e dedicação à comunidade, invistam mais em sua
própria educação de forma que se tornem um pólo
de conhecimento e perpetuação do judaísmo?
2) Como podemos revitalizar o nosso modelo religioso de modo que a oração
e espiritualidade do judaísmo comecem a atrair os jovens, ao invés
de espantá-los?
3) Como podemos canalizar a ênfase única que o judaísmo
dá na justiça social de forma que a Tzedaká passe a ser
mais valorizada pelo jovem e se torne um núcleo de atração
de novos ativistas?
4) Quando vamos finalmente entender que o casamento misto é uma realidade
inescapável e encarar de frente essa questão?
A forma e a rapidez com que vamos responder a essas questões será,
provavelmente, a coisa mais importante que a nossa comunidade fará nos
próximos 20 anos. Mas não precisamos nos desesperar. Em último
caso, os jovens sempre poderão viajar para a Amazônia e nadar
junto aos botos cor-de-rosa com plaquetas de S.O.S.
* Alexandre Ostrowiecki (Nani) é administrador de empresas e membro
da Taba – Coalização pela Paz entre Israel e Palestina.
Baseado em pesquisa que fez, publicou este texto na Revista Com.Shalom – 9/5/04