Visão Judaica - Edição N° 24
:. Bin Laden, o terrorismo dos ricos.:

Por: Pilar Rahola

Fui contra a guerra do Iraque, alegro-me com a queda do PP1 e Bush não é meu político predileto. Feitas as necessárias apresentações, bem conhecidas pelos meus leitores assíduos, o resto da análise que proponho não se aproxima em nada do pensamento politicamente correto que domina quase de forma unânime. Especialmente se a proposta vem das vozes mais comprometidas com a esquerda. Falo de Madri, com certeza. Falo depois de haver feito minha a canção de Sabina — "Yo me bajo en Atocha..."2 — e aspirar a dor profunda com que a morte arranha as paredes da alma. Mas não falo da dor, porque é tempo de manter o coração quente, mas o cérebro frio, e o que dizemos sobre o que nos está acontecendo, não pode ser a poesia do lamento (por mais que amemos a poesia e estejamos de luto), nem estandarte da indignação. Temos que refletir a partir da prosa dos fatos e da mais absoluta maturidade democrática. Com esta vontade, pois, expresso meu desmentido de alguns dos lugares comuns destes dias que tentam explicar o atentado da Al-Qaeda.
Primeiro, está se cristalizando a idéia de que o terrorismo islâmico é a rebelião dos pobres contra o abuso do mundo rico. De alguma maneira, pois, tratar-se-ia de uma espécie de conseqüência das nossas muitas culpas. Muitos têm se expressado assim nestes dias. E, no entanto, a realidade é bem diferente. O desafio à democracia e à modernidade que foi iniciado faz alguns anos pelo integrismo islâmico — por estes dias estará completando seu 12º aniversário o atentado contra a embaixada de Israel em Buenos Aires, que destruiu o edifício, a geriatria, o convento e a igreja, e que matou 29 pessoas —, não tem nada a ver com a pobreza. Por acaso estão se rebelando os povos da África destruída? Conhecem o terrorismo islâmico em Burkina Fasso?3 Estamos diante de um fenômeno ideológico totalitário, alimentado economicamente por elites imensamente ricas, profusamente fanáticas e ferozmente antiocidentais. Nem Bin Laden é um irmão dos pobres, nem os países cúmplices com o terrorismo islâmico se contam entre os mais marginais, nem nada do que está ocorrendo tem algo a ver com o desejo de um mundo melhor. Coloquemos, pois, as coisas em seus devidos lugares: as bombas integristas são planejadas para destruir a liberdade, não para distribuí-la. Para conduzir o mundo até a antimodernidade, não para fazê-lo mais democrático. Para manter as pessoas no ódio e no fanatismo, e não para emancipá-las. Não é uma rebelião, é uma cruzada ideológica totalitária, como o foram em seu tempo o nazismo e o stalinismo, de base nihilista (como todos os totalitarismos), e amparada na enorme riqueza das elites e dos Estados que as financiam.
Segundo - Existe a culpa árabe. Digo-o porque no indispensável exercício da autocrítica que fazemos, e na prática do nosso esporte nacional, o antiamericanismo, nunca temos tempo para falar desta notável culpa. Um dos fatos mais insultantes que ouvi foi, por exemplo, o apoio explícito do rei do Marrocos contra o terrorismo. Não duvido das suas boas intenções. Mas, quando um dirigente árabe é um dos homens mais ricos do mundo, mantém sua população numa miséria infame, tolera as máfias assassinas da imigração ilegal, sustenta parte de sua economia social com esta miséria e não faz nada para construir um sistema democrático, terei que lhe responder com o título do livro de Raymond Carver: Do que fala quando diz que fala em de lutar contra o terrorismo? E, se formos mais além, para que serviu, durante 50 anos, o petróleo? Serviu para criar sociedades cultas, livres e democráticas? Serviu para modernizar e estabilizar socialmente a área? Em mãos de ditadores fanáticos e monarquias fascistas, só serviu para consolidar os fundamentos mais retrógrados, privar os cidadãos das estruturas sociais justas, escravizar até o delírio as suas mulheres e praticar uma política medieval com tecnologia de última geração. A antimodernidade com celular via satélite. E as madrassas corânicas, onde durante anos educam-se os meninos contra os valores da liberdade? Quantos militantes radicais sairão das mais de 5.000 madrassas corânicas que existem, por exemplo, no Paquistão? Que sociedade do futuro se está construindo com a educação integrista fanática das escolas do Sudão? O que é que paga o petrodólar? Paga em benefício da ilustração, a favor da democracia, ou busca uma cultura da paz? Utiliza o Islã para criar cidadãos livres? Ou usa-o perversamente para destruí-los? E ainda mais.
O que dizer sobre a implicação de alguns países da região no financiamento do terrorismo? Estão provados os cheques de Saddam a favor dos suicidas palestinos. Está provado o envolvimento da embaixada do Irã no atentado à Amia, em Buenos Aires, no qual morreram 85 pessoas, e provado está seu apoio logístico e financeiro ao grupo terrorista Hamas. Comprovadas também estão as implicações da Síria no terrorismo do Hezbollah na Terra Santa. E, de onde eram os organizadores do 11 de Setembro, senão basicamente da Arábia Saudita? Não tem o wahabismo4 reinante nada com o custeio do terrorismo? Falemos dos milhares de mortos na cruzada islâmica do Sudão? O que quero dizer com tudo isso? Que estamos diante de uma globalização do terrorismo islâmico, saindo de dezenas de países do mundo islâmico que, longe de criar sociedades da liberdade, mantêm e escravizam os seus cidadãos no mais exacerbado dos fanatismos, sobretudo porque a melhor garantia para continuar tiranizando-os, é criar ódios, intolerâncias e profunda ignorância. A primeira arma de destruição massiva do Islã tem a ver com a falta de liberdade, com a cultura fascista de seus dirigentes, com o uso perverso de D-us e com a negativa de criar uma sociedade de tolerância. E repito o que tenho escrito com freqüência: as primeiras vítimas do integrismo islâmico são os próprios cidadãos de religião muçulmana. O primeiro inimigo da causa palestina é a ideologia nihilista que ensina às crianças a amar a morte. Semanas atrás se conseguiu deter um menino de dez anos com una bomba: isto não sai nos noticiários da TV... O integrismo é o inimigo do Islã. Mas, pelo caminho da autodestruição, mata e nos mata.
Terceiro, a chantagem terrorista. Creio que a guerra foi um despropósito, porque é evidente que não se combate assim o terrorismo. A isso acrescente-se, sem dúvida, que o mundo está melhor sem o regime de Saddam. Mas também é certo que este desafio totalitário vem de longe. O ditame de Bin Laden é de 96. O atentado de 11 de Setembro teve sua preparação iniciada em 92, durante os acordos de Oslo. Quando foi a condenação à morte de Salman Rushdie?
Quarto. E se falamos do grande libertador da Pérsia, o aiatolá Khomeini, quais dos muitos ilustres da esquerda européia o visitavam em seu exílio de Paris? Os sinais fazem muitos anos que nos chegam. Mas nós estamos tirando um cochilo, temos reduzido todos os problemas do mundo ao ódio antiamericano, temos perdoado a vida de todos os ditadores árabes, temos minimizado o terrorismo palestino (alimentando-o com nosso paternalismo), e temos chegado a crer que, se nos portarmos bem, não nos atingirá. Como se nossa vida dependesse do agradinho que fizéssemos a Bin Laden. Não temos entendido nada. E não estou segura de que, depois de Madri, finalmente o entendamos. Dizia em Miami, quatro horas antes do atentado, numa conferência sobre o tema: "O que nos faz falta na Europa para entender o que acontece? Um atentado em Paris, em Londres, em Madri?" Ter sido profética me causa intensa dor e profunda raiva.
Finalmente, a vergonha da solidariedade seletiva. Nem todos os mortos nos doem, nem todos os assassinos aparentam. A mesma ideologia nihilista que mata em Moscou, no centro de Buenos Aires, no trem de Madri e na discoteca de Bali, mata em um ônibus de Jerusalém. Também faz parte de nossa culpa não chorar esses mortos e minimizar os seus assassinos. O terrorismo integrista não é amigo de nenhuma causa, mas o vampiro de todas elas. Alimenta-se delas, as suga e as destrói. Porque é uma ideologia da morte. Madri nos diz tudo isto. Saberemos escutá-la?

Notas do tradutor:

1. PP - Partido Popular, do ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, que perdeu as recentes eleições na Espanha.
2. “Yo me bajo en Atocha” – literalmente — “Eu salto [desço] em Atocha”. Referência à estação de trem, onde em 11 de março de 2004 ocorreu o maior atentado terrorista da história da Europa, com a explosão simultânea de várias bombas causando a morte de mais de uma centena de pessoas, ferindo e mutilando muitas mais.
3. Burkina Fasso, um dos países mais pobres da África, localizado no noroeste do continente. Seu antigo nome era República do Alto Volta.
4. Wahabismo — Ideologia islâmica predominante na Arábia Saudita. É decorrente da Aliança entre o chefe tribal Mohamed Ibn Saud, fundador da dinastia saudita e o pregador Mohamed Ibn Abdel Wahab (1745). Significa, ao pé da letra, controle das esferas da religião, educação e comunicações.

* Pilar Rahola é doutora em Filologia Hispânica e também em Filologia Catalã pela Universidade de Barcelona. Foi deputada no Parlamento espanhol pela "Izquierda Republicana Catalana" e vice-prefeita da cidade de Barcelona. Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão). Dirige o programa de entrevistas "Vis a vis" e na televisão faz parte de uma equipe de colaboradores do programa de debates da TV espanhola "Esta es mi história". Além disso, participa de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática da mulher e da infância. Tem vários livros publicados em catalão e castelhano. Entre eles: "Mujer liberada, hombre cabreado" (Mulher liberada, homem irritado, em tradução livre) pela Editora Planeta, 2000, "Carta a mi hijo adoptado" (Carta a Meu Filho Adotado) pela Editora. Planeta, 2001 e "História de Ada. Los derechos pisoteados de los niños" (História de Ada. Os Direitos Pisoteados das Crianças), Editora Random House Mondadori, 2002). E-mail:pilarrahola@hotmail.com
Tradução: Szyja Ber Lorber, Curitiba.

 


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