Visão Judaica - Edição N° 24
:. Anti-sionismo e anti-semitismo .:

 


Por: Robert Wistrich

O Anti-sionismo e o anti-semitismo eram, inicialmente, duas ideologias distintas que, com o passar dos tempos, especialmente desde 1967, tenderam a se convergir. A forma mais radical de anti-sionismo, a qual recentemente emergiu com força renovada, manifesta algumas extraordinárias analogias ao fascismo e ao racismo anti-semita, anteriores ao Holocausto. Há, por exemplo, a exigência a um boicote científico, cultural e econômico à Israel, que levantou sinistras associações e lembranças entre os judeus sobre o boicote nazista que começou em 1933. A isto, devemos adicionar os meios pelos quais, recentemente, o sionismo e a população judaica têm sido desmoralizados e que, virtualmente, são idênticos aos métodos, argumentos e técnicas do anti-semitismo nazista. Embora a bandeira devesse ser “anti-racista” e a difamação ter sido feita em nome dos Direitos Humanos, o mesmo desejo de estigmatizar e difamar a coletividade judaica são evidentes. Os “anti-sionistas” que insistem em comparar o Sionismo e os judeus com Hitler e o Terceiro Reich são, na verdade, anti-semitas, mesmo que neguem veementemente o fato! Porém, se os sionistas são “nazistas” e Sharon realmente é Hitler, então é um dever moral que se elimine Israel. Este é o pano de fundo de muitos anti-sionistas contemporâneos. A exibição em Estocolmo, na qual um atentado a bpomba do Jihad islâmico é visto como “Branca de Neve” navegando em uma piscina de sangue, não tem nada a ver com a “prevenção ao genocídio”. É um convite para realizar um outro massacre de judeus, seja lá como os artistas chamem.
Israel é o único Estado da face da terra no qual um distinto e grandioso número de nações, grupos políticos e individuais (inclusive os auto-detestáveis judeus) deseja ver desaparecer – por si só uma arrepiante recordação da propaganda nazista dos anos 30. As expressões mais virulentas desta “exterminação” anti-sionista vêem do mundo árabe muçulmano, sucessor histórico das formas anti-semíticas totalitaristas do começo do século vinte na Alemanha e na União Soviética. Ecoa-se até mesmo pelos estadistas muçulmanos “moderados” como Mahathir Mohammad que, publicamente, repetiu a clássica fábula anti-semita que “os judeus governam o mundo”, sem evocar nenhuma objeção ao mundo islâmico. Dos islâmicos mais radicais do Al-Qaida ao palestino Hamas funde-se o indiscriminado terror, homens-bomba “suicidas” e o estilo de anti-semitismo dos Protocolos de Sião com a ideologia do Jihad. Eles adotam a demonização de “qualquer judeu” como o “inimigo da raça humana”. O mesmo estereótipo demoníaco pode ser encontrado no Egito “moderado pró-Ocidental”( palco da novela anti-semita “Rider Without a Horse” – Cavaleiro sem Cavalo), da Síria Baatista, da Arábia Saudita Wahhabita conservadora e dos xiitas fundamentalistas do Irã. Isto é um anti-sionismo ideológico que busca a aniquilação de Israel e um mundo “livre de judeus”-a máxima “solução final”.
O perigo se torna grave, especialmente, porque tal “aniquilação” anti-sionista está se espalhando sob a máscara do anti-israelismo e o ódio a Ariel Sharon na Europa Ocidental, América e partes do Terceiro Mundo. Este,encontrou apoio popular na diáspora muçulmana entre a juventude radicalizada e os fortes ecos entre os anti-globalistas, trotskistas e os grupos de extrema direita, sem mencionar partes da principal mídia do Ocidente. Há uma livre e enganadora coalização dos fanáticos vermelho-marrom-verde (red-brown-green) focada contra a América e Israel. Osama Bin Laden é um herói, não apenas para os muçulmanos que desejam estabelecer uma hegemonia islâmica global mas, também, para muitos daqueles de esquerda que ainda acreditam na “revolução mundial” ou (da extrema direita) na morte do então chamado domínio “judeu-americano”.
O poder de mobilização do “anti-sionismo” deriva de sua ligação com a causa palestina. Desde os anos 60, a OLP vem trabalhando bastante para deslegitimar o sionismo e sua política tem tido grande sucesso. O anti-sionismo palestino envolve a negação da nacionalidade judaica e qualquer soberania judaica legítima em Eretz Israel; a recusa de qualquer ligação histórica entre o judaísmo e Sion ou a existência de dois templos judaicos em Jerusalém. Não admira que Israel jamais tenha existido em qualquer mapa palestino, mesmo durante o “processo de paz” em Oslo. Nem se deve esquecer que a Autoridade Palestina geralmente reúne motivos anti-semitas, inclusive a negação do Holocausto, difamações sangrentas atualizadas e temas de conspiração judaica – com excitamento geral à violência jihadista.
O “anti-sionismo” palestino tem ajudado a infectar a Europa com uma versão de anti-semitismo na qual os judeus se tornaram vorazes sugadores de sangue colonialistas. Eles são representados como forasteiros, invasores infundados e imperialistas, que conquistaram a Palestina pela força bruta. Os sionistas são “Cruzados” sem direitos legítimos ao solo – um transplante estranho na região que, espertamente, manipularam a Grã-Bretanha e depois a América para alcançar suas metas. Esta é uma narrativa árabe anti-semita a qual Hitler teria aprovado.
A popularidade dos Protocolos é um dos sintomas mais eficazes do Oriente Médio da fusão completa entre o anti-semitismo e o anti-sionismo. O sionismo também é caluniado em algumas mídias por ser “criminoso” por natureza bem como por seus atos – um outro clássico estereótipo anti-semita. As ações militares de Israel oferecem aos europeus a torturante tentação de dizer que “as vítimas de ontem se tornaram os (nazistas) perpetradores de hoje”, e a oportunidade de apresentar o sionismo como herdeiro das páginas mais negras da história colonial Ocidental – por exemplo: Argélia, Vietnam, África do Sul. Tais comparações nem sempre são anti-semitas na intenção, mas são, entretanto, falsas na prática. Mas numa repetição sem fim, elas se tornam uma racionalização ideológica para desmantelar Israel. Esta é a meta principal do anti-sionismo “progressivo” que insiste em sua pureza moral e ainda torna cegos os então chamados “bombas suicidas” que, literalmente, são “crimes contra a humanidade”. Tal anti-sionismo é fundamentalmente discriminatório ao negar até a possibilidade de legitimação de um nacionalismo judaico, enquanto idealiza o nihilismo violento do movimento nacional palestino. As Cruzadas anti-globalistas contra Sion geralmente justificam os estereótipos de terrorismo, jihadismo e anti-judaísmo que se encontram no fundamentalismo islâmico. Para a maioria da Esquerda Ocidental, os palestinos só podem ser vítimas. Os homens-bomba do Hamas são militantes engajados em legitimar os resistentes. Eles nunca são perpetradores de quaisquer crimes ou responsáveis por suas ações. Só Israel é acusado. Esta também é a posição da BBC.
Tanto na extrema esquerda quanto na extrema direita, o anti-sionismo contemporâneo utiliza livremente estereótipos sobre o “lobby judaico/sionista”, “criminalidade” judaica e “provocação de guerra” que são profundamente anti-semitas. Esta visão de mundo tem penetrado nos debates sobre o ponto onde 60% dos europeus consideram o pequeno Israel como a maior ameaça, hoje, à paz mundial. Mais de um terço dos examinadores na Europa e até mesmo na América, constantemente atribuem aos judeus excessivo poder e influência. Além disso, da Itália e Grécia até a Alemanha e Suécia, os judeus são suspeitos de dupla lealdade por um número cada vez maior de gentios. Os ataques “anti-sionistas” pelos muçulmanos na Europa sobre instituições públicas judaicas e alvos demonstram que estamos falando sobre uma distinção sem diferença. O anti-sionismo não é apenas o herdeiro de antigas formas de anti-semitismo. É, também, o menor denominador comum entre a tendência política antitética na Europa e no Oriente Médio - o único ponto em que eles concordam. É uma ponte entre a esquerda, a direita e os militantes muçulmanos; entre as elites (inclusive a mídia) e as massas; entre a igreja e a mesquita; entre a crescente Europa anti-Americana e a endêmica anti-Arábia Oriental – Oriente Médio muçulmano; um ponto de convergência entre os conservadores de direita e os radicais de esquerda e uma ligação entre as gerações. O anti-sionismo não é mais uma exótica coleção de slogans “radicais chic” que, de alguma forma, sobreviveram a inundação de contra-cultura dos anos 60. Tornou-se uma ideologia “exterminacionista”, pseudo-redimista no Oriente Médio que tem sido reexportada para a Europa com efeito devastador.

*Robert Wistrich é Diretor do Vidal Sassoon International Center for the Study of Antisemitism da Hebrew University of Jerusalem. Publicado no The Montreal Gazette em 14 de março de 2004


 

 



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