Por: Henry
Galsky
Recentemente Israel e Líbano concretizaram uma troca
de prisioneiros histórica. Por trás das manchetes
que circulam em todo o mundo, há uma espécie de
balança de valores que poderia definir as duas sociedades.
A matemática é simples: Israel libertou 436 prisioneiros
em troca de apenas um cidadão vivo, três soldados
mortos e informações sobre o piloto desaparecido
Ron Arad.
Acabo de retornar de Israel. Não sei se há em outro
lugar do mundo uma organização como a MIAs, que
busca informações sobre oficiais desaparecidos
em ação. Desde a fundação do Estado,
em 1948, mais de quatrocentos soldados estão sob o status
Missing in Action. O caso mais emblemático é justamente
o do piloto Ron Arad, capturado em 16 de outubro de 1986 após
ejetar-se de seu avião e cair em solo libanês.
O governo de Israel busca, desde então, informações
sobre o piloto e pistas para encontrá-lo. E essa foi uma
das razões para a efetivação da controversa
troca de prisioneiros. De fato, é difícil compreender
a libertação de prisioneiros como Anwar Yassin
que, em setembro de 1987, assassinou os soldados Alex Singer,
Ronen Weisman, e Oren Kamil. Alex Singer era irmão do
jornalista do Jerusalem Post, Saul Singer, que, em coluna publicada
no jornal, opina: "A razão pela qual temos que trocar
tanto por tão pouco é que valorizamos a vida humana
e a liberdade de maneira diferente".
Realmente, é difícil de engolir a recepção
que boa parte dos prisioneiros recebeu em Beirute (muitos dos
que foram libertados seguiram para os territórios palestinos).
Na capital do Líbano uma comitiva que reunia o presidente
Emile Lahoud e o líder do grupo terrorista Hezbolá,
o xeque Hassan Nasrallah, aguardava os presos recém libertados.
Havia também a presença de muitos jornalistas ocidentais
que cobriam o evento e faziam questão de chamar os ex-presos
de militantes.
Quando se lida com números, realmente fica mais fácil
chamar de militantes as 436 pessoas envolvidas na troca de presos.
Mas é difícil aceitar uma definição
tão simplista - e até certo ponto romântica
- ao examinarem-se as ações que os levaram à prisão
em Israel. Um bom exemplo é o caso do libanês Samir
Kuntar que, em 1979, foi o responsável pelas mortes de
Danny Hanan, suas duas filhas (de quatro e dois anos de idade)
e um policial.
A polêmica criada em Israel foi tamanha que a troca esteve
ameaçada de não acontecer até o último
momento. Duas associações de vítimas do
terrorismo entraram com ações na Suprema Corte
de Justiça. O argumento utilizado pelas duas organizações
era de que a troca correspondia a um perigo para o Estado e seus
civis. Segundo o representante da organização Vítimas
do Terrorismo Árabe, Baruch Ben-Yosef, "centenas
de terroristas, incluindo aqueles com sangue nas mãos,
não podem ser libertados". Porém, a petição
foi negada e a troca se concretizou.
Nos jornais brasileiros, pessoas como Anwar Yassin e Samir Kuntar
continuam a ser chamados apenas de militantes. Imagens do reencontro
dos terroristas no Líbano com suas famílias podem
comover aqueles que não sabem dos crimes que cometeram. É por
isso que se faz necessário um exame cuidadoso da ficha
de cada um dos 436 presos antes de qualquer avaliação.
Por sua vez, a troca não é um fato a ser comemorado. É apenas
mais um capítulo que ensina como cada sociedade enxerga
a vida humana de maneira distinta. Enquanto assassinos como Anwar
Yassin e Samir Kuntar são recebidos no Líbano com
honras de Estado, a sociedade israelense parece estar disposta
a pagar um alto preço para ter seus filhos de volta. Mesmo
que seja apenas para lhes dar um enterro digno.
* Henry Galsky é jornalista, pós-graduando em
Estratégias de Negociações Internacionais
pela Universidade Cândido Mendes e escreveu este artigo
originalmente publicado no Alef Plantão.