Por: Marcos Aguinis
Ninguém se preocupa com os palestinos moderados, nem são
mencionados. Muita gente acha que os palestinos são uma
comunidade homogênea, voltada fanaticamente ao caminho da
violência a fim de conseguir a sua emancipação.
Não é assim.
Pouco se fala dos que detestam essa atitude e dos que amaldiçoam
o dia que apareceu Arafat.
Amaldiçoam com muita força as organizações
armadas que bloqueiam as perspectivas de um acerto negociado, organizações
que com cobertura internacional (dinheiro e mídia) aumentam
dia após dia.
No dia 16 de março uma criança palestina de 10 anos
de nome Abdalla Kouran, ia cruzar o limite entre os territórios
e Israel com duas sacolas bem pesadas. No checkpoint, perguntarem-lhe
o que levava nas sacolas e com toda naturalidade falou que numa
tinha os seus livros da escola e na outra sacola não sabia
qual o conteúdo.
De imediato ele disse: Um senhor me pediu para passar a sacola
e que alguém do outro lado iria em busca da sacola. Perguntaram:
Você conhecia a dita pessoa? Não foi a resposta, ele
me deu 5 shekels (um dólar) para passar a sacola.
O oficial do checkpoint constatou que a sacola continha 10 kg de
explosivos, que seriam ativados a distância por meio de um
telefone celular.
O pequeno Abdalla ia ser convertido em mártir e assassino
de muita gente sem mesmo ter sido perguntado se estava de acordo.
A bomba foi detonada e a criança voltou para sua casa sã e
salvo, onde foi entrevistada por jornalistas.
Sua família que não milita nas organizações
terroristas agradeceu e podem imaginar a fúria que sentiram
os familiares pelo abuso cometido. Nos territórios, porém,
ninguém se atreve a dizer o que pensa.
No dia 24 de março foi descoberto um adolescente portador
de uma deficiência, Hassan Abdo de 15 anos, com um cinturão
de explosivos escondido debaixo da sua jaqueta.
A dor afeta a muitas mães dos homicidas suicidas. No livro
Sahidas, Les Femmes kamikases de Palestine, que teve muito êxito
na França, a jornalista Bárbara Vitor testemunha
que, sob o controle das organizações terroristas,
quem se opõe à guerra sofre desesperadamente. Ela
teve.
coragem de interrogar muitas mulheres e conseguiu ouvir somente
muita dor.
A mãe de Wafa Idris, a jovem que aceitou explodir-se em
Jerusalém, não consegue conter as lagrimas e confessou
que tentou reter a sua filha, mas não conseguiu aplacar
a fúria dos líderes terroristas, e ainda não
conseguiu expressar em público seus sentimentos por medo
de represálias.
Acaba de ser morto Ahmed Yassin, fundador e chefe do Hamas, que
ordenou desde fins de 2000 até hoje 425 atentados, com um
resultado criminoso de 337 mortos e 2076 feridos com muita gravidade.
Muito antes, em 1995, durante as negociações dos
Acordos de Oslo, ele confessara seu credo intransigente ao jornal
panárabe Al Hayat: “A paz com Israel é contraria
a Lei Islâmica”.
Condenado à prisão perpétua em Israel em 1991,
foi libertado 8 anos depois, durante o governo de Benjamim Netanhyau
para melhorar o clima das negociações. No dia seguinte,
sem arrependimento, expressou que apoiava os atentados contra civis
e que jamais aceitaria a paz com os judeus. Sua necessidade de
vingança, devido ao problema físico desde sua infância,
era sanguinária e incalculável.
Encontrou em Israel um objetivo sobre o qual descarregar o ódio
que pregava todos os dias de forma ardente e feroz.
Os palestinos moderados não apreciavam Yasin, nem o Hamas.
Consideram-se prisioneiros dessa e das demais organizações
terroristas que têm dificultado terrivelmente suas vidas.
A instalação da Autoridade Palestina, em 1994, despertou
grandes esperanças, porém Yasser Arafat traiu Rabin
e todos os que tinham acreditado nele. Em vez de proceder como
estadista que monopoliza as forças públicas, permitiu
e até incentivou a proliferação das organizações
terroristas, fora de seu controle. Aproveitou-se da estratégia
e até deu alento para depois atribuir a eles os atentados
que minavam as forças de Israel, enquanto ele atuava como
homem bom que negociava a paz, inclusive formando seu próprio
grupo Al -Aksa.
Em 2000 esmurrou a mesa de negociações de paz em
Camp David e assim impediu o, mais uma vez, o nascimento do Estado
palestino, rejeitando as concessões sem precedentes que
Barak ofereceu.
Quanto à Comunidade Européia, que é uma generosa
provedora de fundos, cansou de suas manhosas negativas para chegar
a um acordo, e exigiu de Arafat a nomeação de um
primeiro ministro, que, afinal, nada pode fazer.
No entanto, os palestinos moderados devem seguir afundando em sua
tragédia. Ninguém os quer ajudar, nem os milhões
de pessoas que no mundo se manifestam como pró-palestinos.
A mídia internacional nunca considera os palestinos moderados,
não lhes perguntam o que desejam (supondo que se disponham
a falar). No entanto, se solidarizam com os fundamentalistas que
eles denominam de militantes.
Ser palestino moderado significa ser colaboracionista. Não
teria chegado o momento de darmos mais atenção aos
palestinos moderados?
Não teria chegado o tempo de mencionarmos e divulgarmos
o que realmente prejudica ao povo palestino?
Edward Said, o mais lúcido dos intelectuais palestinos,
recém-falecido, não se atreveu a ficar muito tempo
nos territórios. Suas críticas a Arafat, à corrupção
de seu governo e aos crimes terroristas o converteram num indesejável.
É
imperioso e urgente condenar o terrorismo de forma categórica,
principalmente o terrorismo árabe a fim de que os palestinos
moderados possam crescer; para que a Autoridade Nacional Palestina
volte a ser uma instituição relevante. Sem organizações
terroristas abre-se logo o caminho para a paz.
Se essa condenação tivesse existido desde os Acordos
de Oslo, a história teria sido diferente.
A idéia de não condenar o terrorismo palestino foi
produto da simpatia que tem o povo palestino, porém, ao
proceder dessa forma, prejudicou-se o povo palestino moderado.
Reiteradamente foi solicitado à Europa, à Rússia,
aos Estados Unidos e às Nações Unidas que
instassem a Autoridade Nacional Palestina para que detivesse os
que organizam atentados, mas a razão para não fazer
isso era que não se queria provocar uma guerra civil, que
a ANP não queria fazer o trabalho sujo. E então,
quem deve fazê-lo? Israel?
Devemos entender que o debilitamento do terrorismo significa mais
fortaleza para o terreno dos moderados, os únicos que lutam
pela paz entre os palestinos.
* Marcos Aguinis é intelectual, conferencista e escreveu
este artigo no jornal La Nación, de Buenos Aires, Argentina.
Traduzido por Leon Mayer.