Por: Tila Dubrawsky
É notável o papel decisivo das mulheres judias
em cada evento importante da nossa história.
Lag Baomer, comemorado domingo passado, (8 de maio), marca a
sobrevivência dos discípulos do Rabi Akiva (século
I e.C.), após uma praga que dizimou os seus alunos. Estes
mesmos alunos, junto com seu mestre, avivaram e perpetuaram a
continuidade da Torá Oral. Entre estes foi Rabi Shimon
bar Yochai, autor do Zohar e elo vital na transmissão
da luz interior da Torá, a Cabalá. O Talmud (Yevamot
62b) declara que estes discípulos resguardaram a Torá naquela época.
Ao conhecermos mais sobre a vida do Rabi Akiva, podemos compreender
o quão significativa foi a influência feminina neste
período crítico da história judaica. O Talmud
nos relata sobre as circunstâncias familiares deste grande
sábio e destaca que atrás de sua subida de pobre
e ignorante pastor à fileira dos maiores eruditos do nosso
povo, estava uma mulher, sua fiel e corajosa esposa Rachel.
Rachel, filha de um dos homens mais influentes daquele tempo,
sentiu o grande potencial do simples rapaz que trabalhava para
seu pai e manifestou sua vontade de casar com ele, com a condição
que ele fosse estudar a Torá. Ele iniciou o seu estudo
com quarenta anos de idade e progrediu rápido, até se
tornar o ilustre Rabi Akiva que todos conhecemos. O casal passou
por muitas privações, mas Rachel enfrentou tudo
com perseverança e equanimidade e até vendeu os
seus lindos cabelos para poder sustentá-los.
Rabi Akiva reconheceu publicamente a grandeza de sua esposa quando
disse aos seus alunos: “Tudo que eu aprendi e tudo que
vocês aprenderam, devemos a ela.” (Ketubot 63 a).
Isto significa que a estrutura inteira da Torá Oral, a
própria base da existência do nosso povo e o nosso
modo de viver, é na verdade atribuída a uma mulher
judia! A mensagem na prática desta história é que
todas as mulheres têm tremendo potencial com conseqüências
de grande alcance que afetam não somente a sua vida pessoal
e a do seu marido e filhos, mas também a inteira nação
judaica.
Estamos nos aproximando da festa de Shavuót e ao analisarmos
os acontecimentos que precederam a outorga da Torá há 3316
anos, revelamos como, de fato, este papel fundamental da mulher
na perpetuação da Torá, foi traçado
por D-us desde o nascimento do nosso povo. Ao pedir que Moisés
preparasse a jovem nação Israelita para o recebimento
de Sua dádiva preciosa - a Torá, o Todo Poderoso
ordenou: “Assim falarás à casa de Jacob e
dirás aos filhos de lsrael.” (Êxodo 19:3)
Nossos sábios explicam (Mechilta) que a casa de Jacob
refere-se às mulheres judias e os filhos de Israel aos
homens e que Moishe Rabeinu teria de falar primeiramente com
os membros femininos do povo.
Entre as explicações dadas para este fato é que
a continuidade da nossa herança legada por D-us e a preservação
de sua santidade depende do grau da compreensão e compromisso
da mulher. Por isso era fundamental assegurar a participação
feminina. Quando a mulher compreende e se compromete, quando
ela se envolve e se dedica, ela se torna a fonte da força
e inspiração para o marido e para a família
e o verdadeiro alicerce que sustenta o lar judaico.
A mulher foi dotada com vastos recursos interiores. Como descobri-los?
Hoje, mais do que nunca, é vital que cada judia estude a Torá, tanto
a sua dimensão mística para deixar desabrochar o seu inato amor
e reverência a D-us e outras emoções espirituais, quanto às
leis e conceitos necessários para poder observar as mitsvot que ela é requisitada
a cumprir. Estas abrangem um currículo amplo e variado, incluindo as
leis intricadas de Shabat, Cashrut, Taharat Hamishpachá (Pureza familiar),
todos os outros preceitos não contingentes de horários fixos
e basicamente todas as mitsvot proibitivas.
Em verdade, muitos rabinos estudiosos seriam felizes se conseguissem completar
no seu estudo da Torá, tudo que as mulheres tem direito e obrigação
de saber... (a ser continuado se D-us quiser).
Dedico esta coluna lílui nishmat em memória da
minha Bubbe z“l, Ienta Braina bat Meshulam Zussia, falecida
em 8 de Kislev, 3 de dezembro de 2003. Com muita perseverança
edificou um lar judaico junto com meu Zeide z”l, onde a
preocupação fundamental era criar filhos dentro
do espírito de uma autêntica educação
judaica. Nas décadas de 1920-1930 em Brooklyn, New York
o ambiente ainda era de complacência e apatia à religião
e muitas vezes seus vizinhos e parentes escarneceram deles por
seu compromisso a ideais “antiquados”. Minha Bubbe
z’’l partiu com boa velhice e deixou, graças
a D-us, filhos, netos, bisnetos e tataranetos espalhados pelo
mundo, todos judeus íntegros, observantes de Torá e
Mitsvot.
* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky,
diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó,
coordenadora de programas educacionais e culturais e orientadora
de pureza e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas
as idades.