Por: Nahum Sirotsky
De Israel - Creio que não há colega de profissão
que desconheça as regras elementares do jogo. Uma delas é a
de que a informação que fica na cabeça do
leitor é sempre a primeira versão. Todo o desmentido,
por mais verdadeiro que seja, deixa a sensação
de confirmação. E, pior, implica em repetir a afirmação
inicial.
A censura é o receio da verdade, é a forma mais
burra de impedir que ela se espalhe como versões diferentes
do que se pretendeu guardar. Punir a fonte, mesmo quando assim
obriga a lei, faz da informação uma verdade mesmo
que não seja. Expulsar o jornalista é a maior das
burrices, pois as atenções se viram sobre o motivo.
Foi a falta de conhecer tais regras que internacionalizou o rumor
sobre Lula. E prejudicou definitivamente, nos meios criadores
de opinião, que influem nas decisões, a imagem
do Governo.
Claro que não foi esta a maior besteira cometida por governos
na atualidade. O Iraque é um exemplo maior e mais grave
de desconhecimento da opinião pública. Peter Galbraith, é associado
ao "Centro de Controle e Não Proliferação
de Armas" (Center for Arms Control and Non-Proliferaton),
o que se conhece como "thinktank" - instituições
criadas com o propósito de pensar questões e influir
em políticas, fundamentais no mundo de hoje, interconectado
e ineditamente complexo.
Os governos necessitam ouvi-las. Não é mais possível
traçar políticas sem atentar para as informações
e sugestões oferecidas. Peter serviu em vários
países em diferentes missões. Em um bem fundamentado
ensaio para o "New York Review of Books", considera
que os esforços americanos de remodelar o Iraque "nunca
se recuperaram do confuso começo quando falharem em impedir
o saque de Bagdá". A invasão foi predicada
na hipótese de que a batalha política contaria "com
a transferência de lealdade da burocracia e polícia
para os invasores/libertadores. E o país continuaria sendo
administrado rotineiramente, só que livre do medo de Hussein".
Mas ocorreu o colapso e o caos. Depois de anos de vida submissa,
haveria de existir dúvidas nos primeiros momentos da ocupação.
Os anglo-saxões nem a ordem souberam impor. Não
souberam projetar o significado da liberdade que traziam como
objetivo.
Galbraith lembra bem. O sistema de Saddam foi de incrível
crueldade. Nos anos oitenta, as forças de Saddam massacraram
cerca de 200 mil curdos, destruíram 4 mil aldeias dessa
etnia e contra ela empregaram armas químicas. Os curdos
tiveram a ousadia de quererem ser livres. Nos anos noventa, as
forças de Saddam expulsaram 500 mil árabes do sul
Pantanoso, massacraram uns 50 mil, destruíram uma civilização
de 5 mil anos. Saddam mandou matar 300 mil iraquianos xiitas
que protestavam contra o tratamento que recebiam. A lista de
crimes que cometeu contra seu próprio o povo é longa.
A ONU e os Estados Unidos fecharam os olhos. Saddam, aparentemente,
servia a propósitos indispensáveis na época.
E foi um dos monstros do século 20.
Conhecer o inimigo é absolutamente vital na guerra. Os
países e as forças armadas empregam seus mais preparados
indivíduos nesta tarefa. As forças armadas planejam
e se movimentam apoiadas no que informam serviços de inteligência,
os grupos que estudam e analisam o inimigo.
Peter Galbraith ecoa as opiniões de muitos. Os americanos
provavelmente permanecerão por longo prazo no Iraque.
Sair seria correr o risco de implosão, da divisão
do país em um Curdistão; em um país xiita
- a seita majoritária no Iraque que sofreu com anos de
perseguição de Saddam e em um sunita que representa
a minoria. Os sunitas são a maioria dos muçulmanos,
porém, não no Iraque nem no vizinho Irã.
Galbraith imagina que o jeito será uma espécie
de federação, ou confederação, com
os curdos em convivência democrática e secular em
um Estado deles, os xiitas com um Estado teocrático, e
os sunitas com um canto seu. Haveria uma presidência sem
maiores poderes. Se a opção for por eleições
livres em um país unitário haveria, provavelmente,
uma guerra civil. Os xiitas venceriam e procurariam impor sua
versão do Islã, inaceitável pelos sunitas
e curdos.
O Iraque de hoje corresponde à Mesopotâmia da antiguidade,
há mais de 5 mil anos. A região foi sucessivamente
dominada pela Babilônia, Assíria, Pérsia,
por Alexandre o Grande, da Macedônia, a dinastia grega
dos selêucidas e outras até a conquista pelos árabes
muçulmanos no século 7 d.C. Vieram os mongóis
convertidos que saquearam a Bagdá das mil e uma noites.
E no século 17, a conquista dos turco-otomanos, que lá permaneceram
até fins do século 19. É a história
do nascimento da civilização ocidental e do monoteísmo,
pois Abrão, o patriarca, é de Ur e também
de uma das dinastias da região, a suméria, talvez
de três mil anos antes de Cristo. Talvez os primeiros a
usar sinais para significar coisas.
Os turcos, donos do maior império, perderam tudo na I
Guerra Mundial quando lutaram ao lado dos alemães que
foram derrotados. Foi quando os vencedores juntando três
Estados muçulmanos, criaram o Iraque, cuja administração,
sob mandato da Liga das Nações, precursora das
Nações Unidas, foi entregue à Grã-Bretanha.
Os povos árabes congregados não gostaram e se revoltaram.
Os britânicos inventaram um Conselho Árabe sob a
sua supervisão, e acabaram promovendo um plebiscito para
escolha de um rei. Foi eleito Faiçal, herói beduíno
da guerra contra os otomanos.
Um dos dois irmãos guerrilheiros, Abdulla, o mais jovem,
seria alçado a emir (príncipe) da Transjordânia
e, eventualmente, rei. Os novos iraquianos preferiam um rei estrangeiro árabe
aos ingleses. Em 1932, o Iraque se tornou um país independente
e entrou na Liga das Nações. E assim foi até a
revolução que derrubou a monarquia e dela surgiu
Saddam, que assumiu todos os poderes. Os povos árabes
das seitas sunita e xiita só coexistiram sob a mão
forte dos poderes autoritários. Sempre desejaram viver à parte.
A forças que invadiram o Iraque foram destruir tal cruel
ditadura. Esqueceram que iriam conviver com povos de grande antiguidade,
que aguardavam a conquista do direito de escolherem entre ser
um país jamais consolidado numa pátria comum ou
viverem cada um em seu canto, sob leis de sua preferência.
Essas forças estão errando desde então.
Enfrentam resistências de lideranças que não
confiam que o estrangeiro possa compreendê-las. Não
são povos que se agrada com docinhos ou delicadezas. Só pelo
respeito ao que desejam. Existe o compromisso de lhes ser entregue
o poder e as eleições livres. Eles prefeririam
que se lhes concedesse a opção entre um Estado único
ou cada povo no seu canto. Não é o que se anuncia.
Em um ano de guerra no Iraque, os americanos terão gasto
cerca de cem bilhões de dólares. Talvez mais. E
o presidente Bush acaba de pedir reforço de 25 bilhões
de dólares. Tal verba não será a última
se os americanos continuarem num país em que a tortura
de prisioneiros, revelada em flagrantes fotográficos,
não é o único erro. Tudo começou
por esquecerem que a derrubada de Saddam não é o
grande problema. A questão é como fazer as etnias
e religiões conviverem em paz e harmonia só existentes
pelo medo da polícia dos monarcas e ditadores. Galbraith
e os que sabem acham impossível.
* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS
e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação
desta coluna tem a autorização do autor.