Visão Judaica - Edição N° 24
:. Burradas e acertos do Brasil e de todos .:

Por: Nahum Sirotsky

De Israel - Creio que não há colega de profissão que desconheça as regras elementares do jogo. Uma delas é a de que a informação que fica na cabeça do leitor é sempre a primeira versão. Todo o desmentido, por mais verdadeiro que seja, deixa a sensação de confirmação. E, pior, implica em repetir a afirmação inicial.
A censura é o receio da verdade, é a forma mais burra de impedir que ela se espalhe como versões diferentes do que se pretendeu guardar. Punir a fonte, mesmo quando assim obriga a lei, faz da informação uma verdade mesmo que não seja. Expulsar o jornalista é a maior das burrices, pois as atenções se viram sobre o motivo. Foi a falta de conhecer tais regras que internacionalizou o rumor sobre Lula. E prejudicou definitivamente, nos meios criadores de opinião, que influem nas decisões, a imagem do Governo.
Claro que não foi esta a maior besteira cometida por governos na atualidade. O Iraque é um exemplo maior e mais grave de desconhecimento da opinião pública. Peter Galbraith, é associado ao "Centro de Controle e Não Proliferação de Armas" (Center for Arms Control and Non-Proliferaton), o que se conhece como "thinktank" - instituições criadas com o propósito de pensar questões e influir em políticas, fundamentais no mundo de hoje, interconectado e ineditamente complexo.
Os governos necessitam ouvi-las. Não é mais possível traçar políticas sem atentar para as informações e sugestões oferecidas. Peter serviu em vários países em diferentes missões. Em um bem fundamentado ensaio para o "New York Review of Books", considera que os esforços americanos de remodelar o Iraque "nunca se recuperaram do confuso começo quando falharem em impedir o saque de Bagdá". A invasão foi predicada na hipótese de que a batalha política contaria "com a transferência de lealdade da burocracia e polícia para os invasores/libertadores. E o país continuaria sendo administrado rotineiramente, só que livre do medo de Hussein". Mas ocorreu o colapso e o caos. Depois de anos de vida submissa, haveria de existir dúvidas nos primeiros momentos da ocupação. Os anglo-saxões nem a ordem souberam impor. Não souberam projetar o significado da liberdade que traziam como objetivo.
Galbraith lembra bem. O sistema de Saddam foi de incrível crueldade. Nos anos oitenta, as forças de Saddam massacraram cerca de 200 mil curdos, destruíram 4 mil aldeias dessa etnia e contra ela empregaram armas químicas. Os curdos tiveram a ousadia de quererem ser livres. Nos anos noventa, as forças de Saddam expulsaram 500 mil árabes do sul Pantanoso, massacraram uns 50 mil, destruíram uma civilização de 5 mil anos. Saddam mandou matar 300 mil iraquianos xiitas que protestavam contra o tratamento que recebiam. A lista de crimes que cometeu contra seu próprio o povo é longa. A ONU e os Estados Unidos fecharam os olhos. Saddam, aparentemente, servia a propósitos indispensáveis na época. E foi um dos monstros do século 20.
Conhecer o inimigo é absolutamente vital na guerra. Os países e as forças armadas empregam seus mais preparados indivíduos nesta tarefa. As forças armadas planejam e se movimentam apoiadas no que informam serviços de inteligência, os grupos que estudam e analisam o inimigo.
Peter Galbraith ecoa as opiniões de muitos. Os americanos provavelmente permanecerão por longo prazo no Iraque. Sair seria correr o risco de implosão, da divisão do país em um Curdistão; em um país xiita - a seita majoritária no Iraque que sofreu com anos de perseguição de Saddam e em um sunita que representa a minoria. Os sunitas são a maioria dos muçulmanos, porém, não no Iraque nem no vizinho Irã. Galbraith imagina que o jeito será uma espécie de federação, ou confederação, com os curdos em convivência democrática e secular em um Estado deles, os xiitas com um Estado teocrático, e os sunitas com um canto seu. Haveria uma presidência sem maiores poderes. Se a opção for por eleições livres em um país unitário haveria, provavelmente, uma guerra civil. Os xiitas venceriam e procurariam impor sua versão do Islã, inaceitável pelos sunitas e curdos.
O Iraque de hoje corresponde à Mesopotâmia da antiguidade, há mais de 5 mil anos. A região foi sucessivamente dominada pela Babilônia, Assíria, Pérsia, por Alexandre o Grande, da Macedônia, a dinastia grega dos selêucidas e outras até a conquista pelos árabes muçulmanos no século 7 d.C. Vieram os mongóis convertidos que saquearam a Bagdá das mil e uma noites. E no século 17, a conquista dos turco-otomanos, que lá permaneceram até fins do século 19. É a história do nascimento da civilização ocidental e do monoteísmo, pois Abrão, o patriarca, é de Ur e também de uma das dinastias da região, a suméria, talvez de três mil anos antes de Cristo. Talvez os primeiros a usar sinais para significar coisas.
Os turcos, donos do maior império, perderam tudo na I Guerra Mundial quando lutaram ao lado dos alemães que foram derrotados. Foi quando os vencedores juntando três Estados muçulmanos, criaram o Iraque, cuja administração, sob mandato da Liga das Nações, precursora das Nações Unidas, foi entregue à Grã-Bretanha. Os povos árabes congregados não gostaram e se revoltaram. Os britânicos inventaram um Conselho Árabe sob a sua supervisão, e acabaram promovendo um plebiscito para escolha de um rei. Foi eleito Faiçal, herói beduíno da guerra contra os otomanos.
Um dos dois irmãos guerrilheiros, Abdulla, o mais jovem, seria alçado a emir (príncipe) da Transjordânia e, eventualmente, rei. Os novos iraquianos preferiam um rei estrangeiro árabe aos ingleses. Em 1932, o Iraque se tornou um país independente e entrou na Liga das Nações. E assim foi até a revolução que derrubou a monarquia e dela surgiu Saddam, que assumiu todos os poderes. Os povos árabes das seitas sunita e xiita só coexistiram sob a mão forte dos poderes autoritários. Sempre desejaram viver à parte.
A forças que invadiram o Iraque foram destruir tal cruel ditadura. Esqueceram que iriam conviver com povos de grande antiguidade, que aguardavam a conquista do direito de escolherem entre ser um país jamais consolidado numa pátria comum ou viverem cada um em seu canto, sob leis de sua preferência. Essas forças estão errando desde então. Enfrentam resistências de lideranças que não confiam que o estrangeiro possa compreendê-las. Não são povos que se agrada com docinhos ou delicadezas. Só pelo respeito ao que desejam. Existe o compromisso de lhes ser entregue o poder e as eleições livres. Eles prefeririam que se lhes concedesse a opção entre um Estado único ou cada povo no seu canto. Não é o que se anuncia.
Em um ano de guerra no Iraque, os americanos terão gasto cerca de cem bilhões de dólares. Talvez mais. E o presidente Bush acaba de pedir reforço de 25 bilhões de dólares. Tal verba não será a última se os americanos continuarem num país em que a tortura de prisioneiros, revelada em flagrantes fotográficos, não é o único erro. Tudo começou por esquecerem que a derrubada de Saddam não é o grande problema. A questão é como fazer as etnias e religiões conviverem em paz e harmonia só existentes pelo medo da polícia dos monarcas e ditadores. Galbraith e os que sabem acham impossível.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.



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