Ainda sobre festas juninas
Por: Jane Bichmacher de Glasman *

No mês passado escrevi sobre as fogueiras das festas juninas e sua relação com as de Lag baOmer.
Em suma, minha colocação foi que as fogueiras são reminiscências inconscientes do fogo sagrado das religiões pagãs e que nos países de inverno rigoroso a entrada do verão, em junho, era comemorada festivamente com fogueiras, cantos, danças e alegria. Comentei sobre os seus diversos simbolismos.
Mas outros laços unem também estas festas ao judaísmo.
Para começar, o óbvio fato de que João, o santo que deu nome à festividade (chamada inicialmente de joanina, em Portugal), era judeu (citado não apenas nos Evangelhos, como por Flávio Josefo). Deve-se a ele a introdução do batismo no cristianismo – que era na verdade o ritual de purificação na mikve. Batismo é a transliteração do grego βαπτισμω para o latim, na Vulgata. Sua origem está na Torá, que determinava a prática da imersão em algumas situações, como para a purificação ritual (Levítico 13-15) e na consagração de Sacerdotes (Lv 8:6). Os sábios talmúdicos também estabeleceram a imersão na mikve como um passo importante para quem se converte ao judaísmo.
Um aspecto importante da festa ligado ao nome de São João é a tradição de banhar-se no mar, nas nascentes, nos rios ou no sereno, na noite da véspera.
Muitos relatos sobrenaturais do Recife datam do século XVII, época do domínio dos holandeses e também da chegada de muitos judeus, que depois seriam perseguidos e julgados pela Inquisição da Igreja Católica. Não são poucas as lendas de tesouros escondidos, vigiados por espíritos inquietos que guardam seus antigos pertences.
Uma das lendas conhecidas é a de Branca Dias. Dona de uma magnífica coleção de objetos de prata vivia tranqüila no Recife, até que a sombra da Inquisição baixou sobre os cristãos novos. Ela juntou todos os seus objetos e, com a ajuda de uma criada, levou-os a um riacho, onde os atirou. Seus temores se concretizaram: foi levada para Portugal, julgada e condenada à morte. Alguns anos depois começaram a correr histórias de que uma aparição estava afastando as pessoas que passavam por um riacho num subúrbio do Recife, e logo se ligou a Branca Dias: o fantasma estaria guardando seu tesouro. O curso d’água ficou conhecido como Riacho do Prata, hoje, Açude da Prata. A lenda ganhou repercussão com alguns desaparecimentos ocorridos no local. Uma das histórias conta que, numa época em que os recifenses buscavam proteção dos céus e dos santos com banhos à meia-noite em rios, açudes e riacho — especialmente no período das festas juninas —, uma moça foi com sua mucama às águas do Prata para pedir um esposo. Chegando lá, fez com que a mucama ficasse esperando à distância. Quando esta voltou, nada mais restava da sinhazinha, levada pelo fantasma de Branca Dias. Até hoje muitos falam que, nas noites de lua cheia, vêem-se duas moças nuas no meio do Açude do Prata. Uma seria Branca Dias, a outra seria a sinhazinha que sumiu na noite de São João...
As festas juninas adquiriram imensa popularidade, maior até que a do carnaval, no nordeste, desde o período colonial. Como mencionei, foi nesta região que se estabeleceu uma imensa população de cristãos-novos – que durante o período de tolerância, sob domínio holandês, possibilitou o desenvolvimento da primeira comunidade abertamente judaica no Brasil (tendo a maioria daqui partido no final do período e os demais, retornado à vida secreta).
Bumba-meu-boi ou boi-bumbá é uma dança do folclore brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, e gira em torno da morte e ressurreição de um boi. Surgiu no nordeste, mas disseminou-se por quase todos os estados da Amazônia, em especial o Amazonas. Na região norte, incluindo-se os estados do Maranhão e Piauí, está inserida nas festas juninas. O boi remonta à Toura. Registram as denunciações e confissões feitas ao Santo Oficio, a noção popular do que seria o livro fundamental do judaísmo: a Torá. De Torá veio Toura, havendo inclusive quem afirmasse ter visto em cara de alguns cristãos-novos, o citado objeto, com chifres e tudo.
Para concluir, mais uma curiosidade: o hábito de soltar balão de ar quente em época de festa junina começou quando o padre Bartolomeu de Gusmão, conhecido como Padre Voador, inventou em 1709 um artefato chamado Passarola e quis fazer dele um meio de transporte. D. João V o ajudou a construir o primeiro protótipo. Além de ser alvo de zombaria pelos seus contemporâneos, ele foi perseguido pela Inquisição, por ser amigo de judeus, e teve suas experiências proibidas, sob a alegação de que “eram diabólicas”. Ele teve que fugir pra Espanha, onde morreu pouco tempo depois. Em Portugal, foi tradição, após o fim da Inquisição soltar balões em festas.

*Jane Bichmacher de Glasman é escritora doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica da USP, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos da UERJ.