O anti-semitismo na agenda de Chavez
Por: Sergio Widder *



O governo do presidente venezuelano, Hugo Chavez, incorporou o anti-semitismo à sua agenda política. Não como uma preocupação ou um mal a combater, mas como um de seus itens. Nesse sentido, as declarações que Chavez fez semanas atrás, quando, após a intervenção do governo de Alvaro Uribe em território equatoriano, descreveu a Colômbia como "a Israel do continente", não deve ser tomada como um ato a mais de provocação.
Essa frase foi interpretada por amplos setores que simpatizam com ele como uma nova demonstração de sua rebeldia antiimperialista, digna de ser aplaudida e festejada. Se Israel é um "enclave militarista" no Oriente Médio, então a Colômbia cumpre um papel similar na América do Sul. Ambos deveriam, sempre a partir dessa visão, ser combatidos no marco da "resistência global ao imperialismo".
Tal interpretação ignora uma realidade alarmante.
O governo de Chavez, tanto através dele próprio, como por meio de outras instâncias ligadas a ele, avançaram numa escalada de manifestações e ações anti-semitas que são, quando menos, toleradas pela autoridade máxima, quando não realizadas diretamente por ela própria.
Uma lista específica inclui o seguinte:
Duas invasões contra a Sociedade Hebraica de Caracas (onde funcionam um clube esportivo, uma sinagoga e uma escola), com a desculpa de que ali se escondiam armamentos e explosivos. Casualidade ou não, a primeira invasão ocorreu simultaneamente com uma das freqüentes visitas de Chavez a Teerã. Talvez as invasões não tenham sido efetuadas por ordem direta de Chavez, mas parece pouco provável que ocorressem sem seu aval ou seu conhecimento;
Um discurso às vésperas do Natal de 2005, no qual disse: "O mundo tem riquezas para todos, mas algumas minorias, entre elas os descendentes dos assassinos de Cristo, se apoderaram das riquezas deste mundo". A acusação de deicídio (o assassinato de Cristo) foi um dos argumentos centrais do anti-semitismo religioso, que provocou a morte de incontáveis judeus ao longo de séculos. O Concílio Vaticano II eliminou essa acusação coletiva contra os judeus já faz mais de quatro décadas, mas Chavez parece não ter tomado nota ainda. A isso poderíamos somar o mito da concentração da riqueza (e, por lógica conseqüência, da concentração do poder), outro clássico do imaginário antijudaico.
Permanentes ataques da mídia oficial, particularmente um programa de televisão, La hojilla (cujo símbolo é uma lâmina de barbear), transmitido através de um canal público. A título de exemplo, vale a pena mencionar uma transmissão durante as manifestações estudantis que precederam o último referendo, na qual o condutor, Mario Silva, menciona os membros de uma família judaica como financiadores da conspiração, e acrescenta: "Não podem me chamar de anti-semita; eu sempre disse que aqueles empresários judeus que não estão com a conspiração que o digam". Ou seja: os judeus são sempre culpados, a menos que se demonstre o contrário.
A sociedade entre Chavez e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, deu pé a um curioso revisionismo do Holocausto por parte do presidente da Venezuela. Se bem que não tenha chegado a negá-lo de maneira explícita, Chavez disse que Israel agia "pior que Hitler" durante a guerra entre esse país e o grupo terrorista Hezbolá. Segundo seu enfoque, o Holocausto foi, em todo caso, um enfrentamento entre grupos armados sem deportações, campos de extermínio nem câmaras de gás. No mais, Chavez jamais criticou a negação do Holocausto como predica seu sócio de Teerã.
Chavez tampouco se diferenciou do presidente iraniano com relação aos reiterados chamamentos de Ahmadinejad para apagar Israel do mapa, uma proposta sem lugar a dúvidas genocidas.
O governo venezuelano manifestou-se disposto a receber delegados do Hamas, um grupo que em sua carta orgânica declara sua intenção de destruir Israel e cita os Protocolos dos Sábios de Sião (um panfleto anti-semita do princípio do século XX) como prova da existência de uma "conspiração judaica" para dominar o mundo.
Mas acima do já referido — e, talvez como marco que engloba e que permite entender melhor esta breve contagem — o mais escandaloso é que Chavez cortou todo diálogo com a comunidade judaica venezuelana.
Durante uma de suas viagens a Caracas quando era presidente, Néstor Kirchner recebeu dirigentes judeus venezuelanos e ofereceu sua cooperação para tentar recompor o diálogo. Sem dúvida, um gesto valioso, mas que na realidade deixa a descoberto uma situação escandalosa: os cidadãos venezuelanos judeus não têm possibilidade de manter diálogo com seu próprio governo. Seria o equivalente a que os brasileiros judeus tivessem que recorrer a um presidente estrangeiro sobre alguma inquietude ao nosso próprio governo.
Por sua vez, Cristina Fernández de Kirchner participou, quando ainda era senadora, de uma reunião da Confederação das Associações Israelitas da Venezuela, durante a qual assegurou que ergueria sua voz para denunciar qualquer fato de anti-semitismo no continente. Convém, então, estar alertas ao que ocorre em Caracas.
Com sua profissão de fé antijudaica Chavez parece mais um porta-voz do pensamento reacionário que um líder da emancipação latino-americana.

* Sergio Widder, autor deste artigo é representante do Centro Simon Wiesenthal para a América Latina. Publicado no jornal La Nación, de Buenos Aires, Argentina.