Eu estava de volta a Israel após cinco anos de separação. Havia concluído meu curso de graduação na Universidade de Tel Aviv no início de 1976 e já retornara ao Brasil. Havia me casado e já tinha um filho, o André, e minha esposa Iara estava grávida, esperando o Ariel. Eu fora convidado para participar de um curso na Universidade Aberta de Tel Aviv junto com um grupo de brasileiros e latino-americanos. Era janeiro de 1981 e estávamos no inverno de Israel. Estação de chuvas, mesmo se escassas. No primeiro final de semana livre havia visitado minha família em Israel, mas no segundo final de semana recebi um convite irrecusável de meu grande amigo Shlomo: ir com um grupo de jovens oficiais do Exército israelense para passear no Deserto da Judéia.
Shlomo era um grande amigo: havíamos sido companheiros no movimento juvenil judaico Dror. Quando fui estudar em Israel em 1972 nos encontramos no curso preparatório, onde aprendemos mais hebraico para poder assistir as aulas numa universidade israelense, e também conteúdos necessários à nossa integração na sociedade israelense. Estes meses juntos nos aproximaram muito: ele era nascido em Israel, mas havia passado a infância e a juventude no Brasil. Tínhamos opiniões muito semelhantes em política e em relações humanas, mas ele era tímido e eu deixara de sê-lo há algum tempo, e no íntimo uma pessoa que já foi tímida nunca deixa de entender outra que segue sendo. Ele se tornou um de meus melhores amigos desde então e não deixou esta posição nunca mais. O reencontro em 1981 foi caloroso e para celebrar íamos passear no deserto. Seus colegas do exército eram fanáticos por natureza, uma coisa comum em Israel, nesta geração. Como eram oficiais de comunicação dispunham de transporte, mesmo no sábado. Íamos passear no deserto da Judéia ou Midbar Iehudá. Foi um passeio com cores diferentes: cores do passado bíblico, do presente ecológico e de um sonho nunca realizado. Passado, presente e futuro num deserto? Será que é possível? Viajemos na minha memória e busquemos o sentido alegórico do deserto.
Era bem tarde na sexta-feira quando saímos num pequeno caminhão do exército e pegamos a rota Tel Aviv-Jerusalém. A estrada expressa não estava concluída ainda naquela época, e por isso fomos pela estrada antiga, numa demorada viagem, conversando na carroceria, ao mesmo tempo em que olhávamos as partes históricas do caminho. Aquele caminho tinha sido alvo de sangrentas batalhas na Guerra da Independência de 1948. Naquele período, para abastecer a Jerusalém Nova e mantê-la ilesa da invasão árabe, caravanas deveriam subir do Litoral até a Cidade Sagrada. Muito sangue rolou neste trajeto nesses dias heróicos. O caminho me trazia lembranças, e eu e o Shlomo mesclávamos conversas, olhares na noite escura e nos sinais do passado cuja memória tangencia o sentido da luta pela cidade sagrada que ambos amávamos tanto.
Chegando a Jerusalém tivemos de entrar com o caminhão militar num bairro ortodoxo para buscar um dos colegas do Shlomo que iria conosco no passeio matinal. Ele estava na casa de uma namorada que se situava numa “região fechada”: não circulavam carros no Shabat, ou seja, desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do- sol de sábado. Por isso, havia risco de retaliação: em certos casos poderiam ser lançadas pedras sobre o caminhão por crianças ou jovens ortodoxos radicais. O fato de o veículo ser militar atenuava os riscos, mas por vias das duvidas, todos colocamos capacetes militares para se proteger de alguma pedra eventual que resolvesse “ser atirada” sobre os violadores do sagrado descanso sabático. Problemas da diversidade e da alteridade não eram pertinentes a esta região: os transgressores do Shabat eram tratados com uma severidade medieval, sob pedras e xingamentos. Tivemos sorte, pois o fato do veículo ser militar nos deu uma relativa imunidade. Recolhemos o amigo e fomos dormir no albergue do monte Herzl. Um sono rápido, pois às cinco horas da madrugada estávamos acabando de comer um desjejum básico e saindo para a parte leste da cidade.
Cruzamos a sonolenta Cidade Velha: as mesquitas estavam adormecidas no seu passado de glória e o Monte das Oliveiras estava tranqüilo com seus túmulos recém-restaurados da profanação de vinte anos de ocupação jordaniana. Os rabinos e fiéis que ali se alojaram a espera do Dia da Redenção estavam reacomodados e podiam esperar que a profecia do vale dos ossos secos (Ezequiel 37) se consumasse no final dos tempos. Voltei-me para o leste e já não via a Cidade Santa. Estávamos no limiar do deserto da Judéia. Paramos na sua extremidade e íamos adentrá-lo. A escuridão ainda era intensa e o sol ainda estava dormindo no Oriente. Ouvi as explicações do líder do passeio: normas rígidas de ecologia foram descritas. Ouvira estas coisas antes, mas agora me surpreendi com as explicações minuciosas sobre o que era “orgânico” e o que era lixo “não consumível”. O deserto era uma zona de preservação: nada de jogar papel, plástico, restos de comida, salvo se fossem orgânicos. Era proibida a colheita de plantas silvestres, flores e tampouco cactos.
Como era inverno, só podíamos entrar no cânion seco do riacho (nosso passeio seria no wadi ou cânion do rio de inverno) após o rádio dar a previsão da meteorologia. Se fosse chover teríamos de desistir desta rota e realizar um passeio de caminhão. Por quê? Pois sendo um deserto e tendo as rochas e o solo impermeável, toda a chuva escorria rapidamente para dentro do cânion que seria alagado por uma súbita e violenta enxurrada se houvesse mesmo uma pequena e abrupta chuva. Parecia algo surrealista: poder se afogar por causa de uma chuva pequena ou média, no meio do deserto!!!
Por sorte, não choveria. Eram seis horas da manhã e adentramos o wadi ou leito seco de um rio de inverno. Chovera há duas semanas e havia trechos com pequenas piscinas na parte média e inferior do leito. Na parte superior não havia água. Somente rochas escarpadas que ainda se escondiam na penumbra da madrugada de inverno no deserto. Após alguns minutos nos deparamos com uma imagem mágica. Um pastor árabe e seu rebanho estavam saindo das cavernas no alto do cânion e iam atrás de escassas pastagens na periferia do deserto. As cavernas eram inumeráveis. Após uma hora de caminhada tivemos de parar. Uma pessoa precisava “se desfazer de um conteúdo orgânico” descartável de seu organismo, ou seja, precisava evacuar. A saída era entrar numa das cavernas e “cobrir seus pés”. Veio a mim a imagem bíblica de Saul perseguindo David na região de Ein Gedi.
(I Samuel 24:1) – “E sucedeu que, voltando Saul de perseguir os filisteus, anunciaram-lhe, dizendo: Eis que Davi está no deserto de En-Gedi”.
E as cavernas que serviam de currais para cabras aparecia no trecho bíblico:
(I Samuel 24:2) – “Então tomou Saul três mil homens, escolhidos dentre todo o Israel, e foi em busca de Davi e dos seus homens, até sobre os cumes das penhas das cabras montesas”.
E a situação trágica e patética de Saul precisando cobrir seus pés e “evacuar”:
(I Samuel 24:3) – “E chegou a uns currais de ovelhas no caminho, onde estava uma caverna; e entrou nela Saul, a cobrir seus pés; e Davi e os seus homens estavam nos fundos da caverna”.
Lembrei da caverna aonde David poderia ter matado Saul que estava a sua mercê. David ficou impávido diante da vulnerabilidade do rei, que estava a sua busca com intenção de liquidá-lo. Optou por respeitar a condição de ungido de D-us e não tocou Saul.
Naquelas cavernas e naquele momento eu via Saul, eu percebi David escondido no fundo da caverna e o gesto do passado bíblico refletindo nas rochas do deserto. Estava no passado.
Retomamos a caminhada. Alguns locais eram de difícil passagem. Usamos cordas e por vezes devíamos ajudar uns aos outros. Senti a solidariedade e a criatividade dos israelenses: sabiam trabalhar em grupo e resolver problemas de maneira ágil e prática. Shlomo me explicava e me guiava em todas as etapas. Estávamos à busca de flores do deserto, que floresciam somente no inverno e/ou primavera, na intenção de fotografá-las. Tinham vida curta: duravam algumas semanas e sumiam logo após as últimas chuvas. Achamos algumas delas. O grupo fotografava com esmero: era um tesouro ecológico. Eram flores de rochedos. Não tinham terra fofa para crescer e saiam ao mundo nas brechas das rochas. Tenazes e ousadas como os sabras. Sabra é um apelido dado aos israelenses. Trata-se de uma alegoria: o sabra é um cacto. Cheio de espinhos por fora, para se proteger; mas seu conteúdo é adocicado por dentro. As flores do deserto faziam uma outra alegoria. Apesar da aspereza e aridez do Oriente Médio, nascera um novo Estado, que fincara suas raízes no deserto e cultivara a aridez da convivência com seus vizinhos hostis.
No leito intermediário encontramos alguns trechos com piscinas naturais. Ali alguns se banharam, ou pelo menos lavaram os pés para se refrescar da jornada. Eu me entusiasmei com a criatividade dos jovens oficiais, com seu amor e respeito pela natureza e com a forte solidariedade do grupo. O passeio se concluiu após umas oito horas, nas quais se alternaram caminhadas, sessões de fotos de natureza e banhos de “piscina”. Gerou-me um sonho: poderia o deserto e a aridez se transformar em terra fértil? Lembrei de um trecho de Salmo, aliás, de vários trechos que fazem alegoria entre o deserto e a Redenção. Eis um deles:
(Salmos 107:35) – “Converteu o deserto em lençóis d’ água, e a terra seca em mananciais”.
Hoje, relembro deste mágico passeio com meu amigo Shlomo. Passado, presente e um sonho. Fazem mais de trinta anos, quase quarenta. Infelizmente um sonho que não poderei mais compartilhar contigo amigo fiel e de abençoada memória. Que D-us te abençoe e guarde.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.