A 40 anos da Guerra dos Seis Dias
Por: Marcelo Kisilevski

 

A sociedade israelense configurou a força da criação, integração, visão de futuro; também a força dos mitos e traumas do passado. A guerra e a ocupação dos territórios implicam num divisor de águas

Na hora da Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel era um país jovem, assustadiço, fugindo ainda dos fantasmas da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, temendo todo o mundo ao redor, e lutando para alcançar uma identidade consistente como país e como sociedade.
Quarenta anos depois daquele triunfo, Israel, que o festejou como o clímax de seu renascimento como nação poderosa após 2000 anos de exílio, deixou de "festejar" para, com perplexidade e desorientação manifesta, "comemorar", e recordar, deixando os matizes a cada cidadão, a cada ideologia.
A Guerra dos Seis Dias deu a Israel e ao movimento sionista que o havia criado a confirmação de que aquele movimento de libertação nacional pretendia criar. Com efeito, o sionismo era uma revolução: contra a concepção do judaísmo como uma mera religião e sua conscientização como grupo nacional, um povo que deseja sua autodeterminação. Numa Europa do século 19 que havia assentido ver os judeus como cidadãos, ficaram novamente excluídos quando os novos estados laicos enfatizaram seu caráter nacional.
Como os franceses ou os alemães, os judeus passaram a ver-se a si próprios como nação também, com uma história, mitos e heróis tomados da Bíblia, convertido de livro religioso em texto fundacional secular, com história, guerras, política. Porém esses heróis tinham atuado numa terra determinada: a Terra de Israel. Ante a continuidade do anti-semitismo europeu, a distância entre a nova consciência nacional copiada dos estados-nação da Europa, e o sionismo como sonho do estado próprio, foi muito curta.
Mas o sionismo também era uma revolução diferenciada: se seus pais fossem religiosos, os sionistas seriam laicos, inclusive ateus; se seus pais fossem artesãos, comerciantes ou banqueiros, ou seja burgueses e pequeno-burgueses, num mundo capitalista ou proto-capitalista, eles seriam marxistas socialistas, voltariam à terra e seriam proletários nas fábricas. Sobretudo, se seus pais fossem débeis, oprimidos, fáceis de matar em pogroms (o Holocausto lhes daria uma trágica razão só mais tarde), eles seriam fortes, com um arado numa mão para trabalhar a terra e um rifle na outra para defendê-la. O que passara por séculos, não voltaria a ocorrer.
Daí que no ethos judeu-israelense a guerra não pode senão ser defensiva. Mas ao ser ganha, como já havia sido na Guerra da Independência em 1948 e na Campanha do Sinai em 1956, não era só um triunfo de Israel no sentido mais mundano, porém uma confirmação no terreno simbólico dos postulados sionistas, uma revanche contra 2000 anos de impotência judaica, uma tomada do destino nas próprias mãos.
O sionismo era também um desejo de viver em paz com os vizinhos árabes, de ser aceitos na região. A seu modo, cada teórico do sionismo o postulou claramente. Um desejo frustrado, às vezes real e às vezes imaginariamente. Quase um complexo de inferioridade. Por isso, os territórios conquistados em 1956 foram devolvidos sem protestar diante das pressões dos Estados Unidos e da União Soviética. Em 1967, os argumentos para retê-los não foram religiosos, nem sequer "imperialistas", porém seculares, estratégicos: desta vez os retivemos como naipes de negociação disse o então comandante em chefe do exército Itzhak Rabin. Até que os aceitem, ou se resignem. As potências aceitaram os argumentos.
Além disso, a conquista em seis dias de Jerusalém Oriental, com a Cidade Velha e o Muro das Lamentações incluídos, e a Margem Ocidental, das mãos da Jordânia, as Colinas de Golan das mãos da Síria, e a Faixa de Gaza e o Sinai das mãos do Egito, foi uma vitória tão ressonante que não só confirmou postulados, como criou mitos futuros. Não só o judeu que para variar se defende, mas o israelense super-homem que não pode ser vencido.
Os historiadores, com efeito, discutem hoje em dia sobe as verdadeiras intenções que tiveram os líderes árabes ao ameaçar Israel com a guerra. A própria dinâmica do mundo árabe abria uma guerra de desgaste com Israel, mas não ficava claro se havia intenções de uma conflagração global. O fustigar da Síria de Hafez El Assad aos kibutzim do norte israelense com mísseis katiusha é interpretado hoje como parte de sua competição com o Egito de Gamal Abed El Nasser pela hegemonia pan-árabe.
Israel de toda forma, não podia ficar de braços cruzados, mas deu um passo a mais aproximando provocativamente seus tratores na fronteira, de modo de atrair mais fogo e justificar uma eventual invasão – vista, recalcado seja, como defensiva.
Ante estas provocações israelenses, Assad pediu ajuda a Nasser, com quem tinha um pacto de mútua defesa. O líder egípcio tomou medidas ressoantes, a mais forte delas, o fechamento do estreito de Tiran, no Mar Vermelho, por onde saíam os navios comerciais israelenses ao Oriente a partir do porto de Eilat.
Alguns historiadores sustentam que isso teve por objetivo somente acalmar a histeria síria, sem intenções bélicas posteriores, e reafirmar a liderança de Nasser no terreno pan-árabe. Outros historiadores discutem: a medida foi uma ameaça de morte por asfixia contra Israel e não é razoável pensar que a Nasser escapasse o detalhe, dizem.
De qualquer modo, quando os israelenses viram os estreitos fechados e ouviram a retórica bélica de Nasser, segundo a qual era a hora final de Israel, os traumas do passado se puseram em marcha na sociedade israelense, que pedia ação imediata.
Assim, o então primeiro ministro e ministro da Defesa, Levy Eshkol, levou duas semanas mais para decidir. Reuniu os generais, fez perguntas difíceis, do tipo que os atuais detentores desses cargos não fizeram, antes da última guerra no Líbano.
A opinião pública pressionou assustada, reclamando na rua a nomeação do herói Moshé Dayan à frente do Ministério da Defesa. Vários partidos ameaçaram retirar-se da coalizão se Israel não passasse à ofensiva.
Levy Eshkol decidiu então fazer um discurso à nação, para acalmar a ansiedade popular e pedir paciência. O discurso foi escrito a mão, de modo apurado e com rasuras. Tampouco era a letra do orador, que se viu em dificuldades para ler ao vivo a mensagem. As manchetes do dia seguinte o destruíram: Levy Eshkol havia gaguejado, preso de pânico. Sua sorte ficou selada, Moshé Dayan foi nomeado ministro de Defesa e, à vitória dos Seis Dias seguiu-se a euforia.
De mortos ambulantes, os israelenses passaram a sentir-se invencíveis, abençoados, iluminados, purificados. Ninguém pode culpá-los de andar assim, em massa e vestidos de branco, até o Muro das Lamentações libertado, depois de séculos de não poder vê-lo.
Não estava ali o problema, ou não foi o problema maior, mas no que viria depois.

* Marcelo Kisilevski é jornalista e educador. Nasceu em Buenos Aires, Argentina, e desde 1992 vive em Israel. É licenciado em Ciências da Comunicação com orientação em jornalismo. Em Buenos Aires foi Secretário de Redação do periódico Nueva Sión. Em Israel é editor do magazine (e-zine) na internet do Departamento de Hagshamá, e correspondente free-lance de diversos meios de comunicação na América Latina. Entre outros, foi correspondente do Clarín de Buenos Aires. Como educador dá cursos no Machón Le Madrichei do Departamento de Educação da Agência Judaica. Trabalha como guia e docente no Yad Vashem (Museu do Holocausto) em Jerusalém. Dedica-se também à tradução (hebraico-castelhano, inglês-castelhano) e ao ensino do idioma. Texto publicado originalmente em Povesham.com