Suíte Francesa – Ed. Companhia das Letras
Irène Nemirovsky
Deixando de ser francesa – uma inútil tentativa de reconstruir a identidade
Claudia Costin *
Li, com entusiasmo febril, a Suíte Francesa, de Irène Nemirovsky. Não conseguia abandonar a obra para ler os textos fundamentais para minha atualização em políticas públicas, gestão e Educação no Brasil, que se empilharam em minha mesa de cabeceira aguardando o fim desta paixão literária. Não conseguia parar de ler.
O entusiasmo se explicava por muitos motivos. Atraiu-me o nome da escritora – o mesmo de dona Paulina, hoje falecida, com quem negociara o acervo de obras dos modernistas brasileiros que agora se encontra exposto na Estação Pinacoteca para visitação semanal de centenas de crianças, jovens e adultos. Foi o suficiente para me fazer comprar o livro. Mas, o interesse se tornou maior quando entendi que havia uma história por trás do livro. Explico: Irène Nemirovski foi uma excelente escritora francesa, judia russa de Kiev, que, aos 26 anos já surpreendia seus editores por um texto que não permitia adivinhar tratar-se de alguém residente há apenas 10 anos na França. No entanto, já escritora consagrada, assimilada e incorporada à vida social do país, teve que se retirar para Issy-L´Évêque, e entregar suas duas filhas aos cuidados da família da babá, enquanto acabava de escrever sua última obra – concluída três dias antes de ser deportada ao campo de concentração. Suas filhas salvas por esta alma generosa, receberam da babá os manuscritos, a herança da mãe. Acabada a guerra, órfãs, conseguiram, com o auxílio de intelectuais franceses, publicar a Suíte Francesa. Devolver sua mãe à França e ao mundo.
A obra contém duas partes. A primeira, Tempestade em Junho, apresenta imagens e personagens imaginados, do que ficou conhecido como a “débacle”, a grande fuga em que milhares de franceses, poucos dias antes da derrota militar e da assinatura do armistício com a Alemanha, fugiram para o Sul, abandonando suas casas e, dependendo da classe social, levando objetos diferentes para as estradas. A descrição dos objetos compõe os traços de personalidade dos personagens. Na segunda, retoma alguns deles, agora na forma de romance, para mostrar como se dava a convivência dos moradores dos vilarejos com os soldados alemães e registra a gênese do fenômeno da colaboração, que, de certa maneira, se constituiu como um estigma na alma francesa, até hoje não resolvido.
As duas histórias, a da obra e a da autora, fizeram-me pensar em como tentamos, por vezes, apagar elementos da nossa identidade para reconstruí-la em novas bases. Isto está na base da assimilação, da tentativa aparentemente saudável de afastar a fonte do sofrimento e garantir, ao menos às novas gerações, uma vida menos dolorosa. Mas isso equivale a perder a alma, a nossa história pessoal, composta de um mosaico de componentes, não pode ser reinventada sem um sofrimento ainda maior – nem sempre consciente, mas que vem nos momentos mais inesperados nos assombrar, como um espectro. Freud descreve bem este processo em seu magnífico Cinco Lições de Psicanálise, quando se refere a conteúdos que afastamos da consciência para não nos causar sofrimento, comparando-os a uma pessoa desagradável e inoportuna que expulsamos de uma sala de conferências para que não mais nos perturbe e ela, então, passa, do lado de fora, a bater insistentemente na porta e, perturba ainda mais a palestra. A parte de fora da sala seria para o fundador da Psicanálise, o inconsciente. Pois é exatamente para lá que enviamos também identidades negadas.
Mas, o mais curioso é que Irène nunca negou ser judia (embora seu marido, num momento de desespero por não ter notícias e preocupado com sua frágil saúde, informou ao Embaixador da Alemanha que sua esposa “fala dos judeus sem nenhuma ternura” e, católica, fora educada por pais “que não professavam nenhuma religião”. Mesmo assim, em entrevista a L´Universe Israélite em 1935, Mme. Némirovsky dizia ter orgulho de ser judia e se defendia dos que lhe atribuíam ódio a seu próprio povo, dizendo que o que havia descrito na sua obra de estréia, David Golder, eram os judeus cosmopolitas (e não os franceses estabelecidos há muito no país) que haviam substituído sentimentos humanos por amor ao dinheiro.
O que mais me comoveu, no entanto, não foi a luta interna da escritora, mas o fato de que esta sociedade que lera seus livros escritos em perfeito francês, negou-lhe a cidadania francesa e, de alguma maneira, sob o olhar do marechal Pétain, acompanhou sua deportação para Auschwitz. Culpa dos franceses? Não, certamente, mas da ocupação alemã, junto com o governo de Vichy.
Rememorar esta e outras histórias não significa olhar para trás como prisioneiros psicológicos do sofrimento passado, e sim, no sentido contrário, permitir a construção de um futuro livre, não ambíguo em que se pode conviver com identidades herdadas e adicionadas, convivendo bem com a diversidade externa, presente na comunidade em que se reside, e os traços aparentemente dissonantes que compõem a complexidade da nossa alma.
* Claudia Costin é vice-presidente da Fundação Victor Civita. Foi Ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e Secretária da Cultura do Estado de São Paulo. (Publicado originalmente na Revista Shalom – nº 418 – www.comshalom.com.br) e publicado aqui com a devida autorização.
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