Unindo Teerã e Tel Aviv
Por: Hossein Derakhshan



Sou um iraniano de 31 anos, ativista da internet, estabelecido no Canadá, que escreve o blog bilíngüe Editor: eu mesmo. Nesse blog escrevi sobre minha primeira visita a Israel, que empreendi para desafiar os estereótipos do Irã e de Israel.
Para mim, um iraniano educado no Irã pós-revolucionário, Israel sempre teve três grandes qualidades: desconhecido, proibido e, em conseqüência, extremamente intrigante. Foi por isso que eu finalmente decidi visitar Israel.
Mas ao contrário de todos os iranianos que visitaram Israel, decidi tornar pública a minha visita aos 20.000 leitores diários do meu blog — embora eu soubesse que não poderia voltar ao Irã novamente por isso.
Eu tinha uma missão mesmo que fizesse o risco valer a pena. Eu queria quebrar as imagens estereotipas que ambos governos usam para avançar em suas políticas.

Estereótipos — Irã
Tendo nascido e criado num ambiente religioso, a favor da revolução em Teerã, como muitos outros de minha geração, eu não sabia nada de Israel a não ser que eles “eram um grupo decadente de judeus que constantemente conspiram para matar os muçulmanos e tomar à força suas terras".
É por isso que para nós Israel nunca existiu, exceto quando as orações das sextas-feiras terminam com seus cantos de “morte a” Israel. Em todos lugares e, até mesmo nos mapas, Tel Aviv era a capital do "Regime Sionista" ou da "Palestina Ocupada".
A maioria dos iranianos ainda acredita que todas as instituições mundiais influentes são dirigidas secretamente por um pequeno grupo de sionistas judeus (o regime iraniano normalmente não faz distinções entre Judaísmo e Sionismo), que basicamente fazem o mundo funcionar. Isto inclui a CNN, o The New York Times, Hollywood, o Banco Mundial, o Human Rights Watch e as Nações Unidas.

Estereótipos — Israel
Do outro lado, eu posso imaginar como a percepção dos israelenses a respeito do Irã estava sendo formada pelo seu próprio governo, como um país grande com milhões de muçulmanos ferozes, todos se parecendo com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, dispostos em destruir Israel com armas nucleares.
Pensei que isso fosse especialmente verdadeiro para a geração mais jovem que não se lembra de que há 30 anos atrás, quando o então Xá do Irã era um aliado próximo de Israel, e os dois países trocavam dezenas de milhares de turistas todos os anos.
Obviamente, não poderiam compreender as diferenças significativas na competição de ideologias políticas e fontes rivais de poder dentro do atual sistema iraniano. Também os iranianos dificilmente sabem qualquer coisa sobre o fracionado sistema político partidário de Israel e suas mazelas internas.
Eu acreditava que os israelenses não viam nenhuma distinção entre o sr. Ahmadinejad e o ex-presidente reformista do Irã, Mohammad Khatami, da mesma forma que os iranianos não podiam diferenciar Shimon Peres de Binyamin Netanyahu.

Iranianos israelenses
Minha maior surpresa foi quando me encontrei com dois outros iranianos, completamente ao caso, no mesmo microônibus de Jerusalém para Tel Aviv. Eu não tinha a menor idéia de que Israel tem a maior proporção do mundo de iranianos em sua população, fora do próprio Irã.
Foi só assim que eu pude entender então o fato de que o presidente de Israel, Moshe Katsav e o ministro da Defesa Shaul Mofaz, apesar de suas posições de linha-dura contra o governo iraniano, são originários do Irã.
Comecei a compartilhar com os leitores do meu blog o que eu estava observando, postando entradas, fotografias, vídeos e podcasts (uma forma de publicação de programas de áudio, vídeo e/ou fotos pela Internet que permite aos utilizadores acompanhar a sua atualização).
Eu compartilhei histórias sobre:
— Uma mulher israelense que conhecia os trabalhos do poeta clássico persa Saadi, de cor;
— um professor iraniano cuja família da esposa foi morta no Holocausto;
— um ator israelense que me convidou para assistir os ensaios da peça em que ele aparecia;
— um jovem acadêmico israelense que havia estudado as idéias do aiatolá Khomeini;
— um veterano engenheiro iraniano cujo desejo maior era ver novamente o Irã:
— encontrei alguns iranianos hostis em Jerusalém, que me viram como representante de um governo do qual eles não tinham boas recordações. Mas eu também escrevi sobre um pai de família iraniano que generosamente me convidou para sua casa num subúrbio de Tel Aviv onde mora, e em troca eu o ajudei a se tornar o primeiro iraniano a escrever no blog a partir Israel.

Avaliação
A reação dos iranianos foi surpreendentemente positiva. Das várias centenas comentários que recebi de meus leitores de dentro ou fora do Irã, a maioria era inteiramente encorajadora, dizendo que acreditavam que era um bom passo para a paz e o entendimento.
Eles me convenceram a partilhar cada vez mais sobre minhas experiências, simplesmente porque nunca tinham tido uma oportunidade de ver algum vídeo ou imaginar sobre aquele país diferente do contexto de guerra e violência.
Entretanto, só alguns poucos bloggers conhecidos ousaram “linkar-se” ao material do meu blog, que já foi filtrado pelo governo iraniano, ou mencionaram a visita. Nenhum jornal ou revista fez menção no Irã a uma só palavra sobre isso — diferentemente da cobertura significativa que recebeu na mídia israelense.
Isso mostra como o grande o tabu psicológico que é Israel ainda está nas mentes de milhões de iranianos e o longo caminho que precisamos percorrer como ativistas independentes.

Conclusão
Mas isso foi só o começo. Depois da minha visita, muitos dos meus amigos iranianos me disseram que eles também querem visitar Israel.
E isso me fez pensar em organizar um grupo com turistas, de jovens iranianos, homens e mulheres que vivem fora do Irã, e estejam dispostos a correr o risco.
Eles também poderiam documentar sua viagem e contribuiriam assim para quebrar esse grande tabu como jornalistas e cidadãos.
Apesar da retórica do presidente deles, a juventude iraniana gosta de estudar, de música, livros, filmes e dançar como os outros ao redor do mundo.
Isso não está limitado aos seculares, jovens urbanos, rapazes e moças. A melhor evidência disso é que “o buscador de mártires” dos jovens iranianos fechou seu blog e também outros a favor das atividades on-line do regime, porque se preparam para os exames de entrada nas universidades.

* Hossein Derakhshan é iraniano, tem 31 anos e é ativista da internet estabelecido no Canadá, de onde escreve o blog bilíngüe Editor: eu mesmo. Em seu blog ele escreveu sobre sua primeira visita a Israel, que empreendeu para “desafiar os estereótipos do Irã e de Israel”.