“Temo que Ali Lmrabet não é mais que um
anti-semita disfarçado, e seu discurso, uma linguagem
venenosa vertida na bebida dos bem-pensantes ingênuos.
E este é o jornalista que tanto sofreu pela liberdade?
Me dá mais medo ainda que os integristas marroquinos
que são nossos vizinhos”.
1) Vejo na televisão um documentário interessante
sobre Auschwitz. Não é o melhor nem o documentário
que causa mais impacto que há sobre a Shoá. A
apresentadora, uma atriz, que na entrevista coletiva prévia,
segundo li, comparou os campos de extermínio nazistas
com a Faixa de Gaza (uma simplificação que já tinha
afetado o anti-semita stalinista Saramago), introduz um elemento
teatral que quase faz com que o espectador veja uma continuação
pareça uma peça falsamente dramática.
Transmitido pela TVE1, em sua rede de maior audiência,
o documentário, tal como se anuncia, tem uma duração
de 110 minutos, mas é certo que houve 45 minutos mais
de publicidade, com seções de 15 minutos ou mais
de anúncios que interrompiam a tragédia, até que
o espectador visse o Holocausto de Auschwitz, o maior crime
da humanidade, como um espetáculo histórico sem
vinculação com ele próprio, nem com o
presente, nem com a comoção moral que carrega,
assemelhando-se ao estilo dos documentários plácidos
e inócuos sobre a Armada Invencível, Waterloo
ou os Sioux, por exemplo. Entristeço-me, porque penso,
e sei realmente, que o anti-semitismo escorre por todas as
fendas, porque hoje está muito vivo na Europa. E então
vem o artigo de Lmrabet.
2) Leio, pois, um texto, para chamá-lo de alguma coisa,
do jornalista marroquino Ali Lmrabet publicado no caderno Culturas,
do jornal La Vanguardia faz algumas semanas. O titulo: “O
judeu Zaabul”. Parece-me um texto desnecessário,
não transmite nada, a anedota que relata é banal
ou estúpida, narrativamente é pobre, e seu final
insultantemente tendencioso para qualquer europeu democrata.
E então compreendo: Lmrabet é anti-semita. Ou
melhor, ele não se tem por tal, ou melhor, ele acredito
que é o contrário, ou melhor ele se acredita
realmente um progressista porque passou um ano ou mais no cárcere
do rei marroquino (Marrocos é um país com nenhuma
democracia, salvo a formal, e um islamismo crescente a marchas
forçadas, cujos frutos em Madrid os conhecemos demasiado
bem2). Inclusive eu somei minha voz a favor deste Lmrabet,
fetiche dos pregadores da liberdade no Marrocos (um país
islâmico), mas o que me revelou definitivamente o fundo
real deste jornalista é o texto de Culturas. E não
porque seja um texto ruim, que o é, mas porque tem muitíssima
intenção dentro dele.
3) Enjoa o tópico que Lmrabet se refere ao judeu como
usurário, enjoa a maneira depreciativa de falar do judeu,
e enjoa a comiseração que todo árabe ou
magrebí tem de si mesmo na hora de enfrentar ou se comparar
com os judeus, enjoa a mentira de frases como esta, em seu
artigo (digo-o sem provocação): “Não
se tratava de anti-semitismo, uma marca que nunca teve cabimento
nesse mundo fechado e inóspito”. Mas o que quer
dizer, e como se atreve a dizê-lo? Que nunca houve anti-semitismo,
quando é justamente o que tem havido e crescido ali,
especialmente desde que o Marrocos é um país
independente, e sobretudo à raiz da Guerra dos Seis
Dias? E como interpretar esse final tão mal-intencionado
ou perverso: “Os judeus marroquinos abandonavam massivamente
o país para uma terra prometida situada na outra ponta
do Mediterrâneo”. Por acaso este jornalista, mestre
em lástimas dos incautos da esquerda com seu discurso
de campeão da liberdade de expressão, não
sabe, ou não quer saber que as comunidades judaicas
foram pressionadas, atemorizadas, com alguns de seus membros
assassinados na rua por ser judeus, expropriados e marginalizados
como cidadãos de segunda classe, por uma monarquia e
uma sociedade que ainda hoje estão muito distantes de
ser garantias das liberdades? Temo que Ali Lmrabet não
seja mais que um anti-semita disfarçado, e seu discurso,
uma linguagem venenosa vertida na bebida dos bem-pensantes
ingênuos. E este é o jornalista que tanto sofreu
pela liberdade? Dá mais medo ainda que os integristas
marroquinos que são nossos vizinhos.
Notas:
1 – TVE – Televisão Espanhola, rede oficial.
2 — O autor se refere ao atentado a bomba de 11 de março
na estação ferroviária de Atocha, porto
de Madrid, onde morreram centenas de pessoas, e cujos responsáveis
foram integristas islâmicos marroquinos.
* Adolfo García Ortega é um dos mais conhecidos
editores e escritores espanhóis da atualidade, e vive
em desde Barcelona. Publicado no site http://www.infomedio.org
em 11/4/2005. Traduzido por Szyja Lorber para o jornal Visão
Judaica.