Em 1891, o barão Maurice de Hirsh, com a colaboração
dos banqueiros e filantropos Rotschild, Goldsmid, Cassel, Macatta,
Goldshimidt, Reinach, Cohen e Philipson fundou a Jewish Colonization
Association ou Ica e ajudou a transferir para o Rio Grande
do Sul judeus que sofriam com as perseguições
por religião e raça, principalmente da Rússia
Czarista. O barão Hirsh adquiriu terras em Philipson
no município de Santa Maria da Boca do Monte e em Quatro
Irmãos, situada onde hoje estão Erechim e Getulio
Vargas. Os grupos coletivos começaram a chegar ao Estado
em 1904 para a Colônia de Philipson (Clarinha Clock – Rio
Grande, um século de História).
E porque o nome Philipson?
Franz Philipson (1852-1929), banqueiro e homem público
a partir de 1866 viveu em Bruxelas, onde fundou um banco e
trabalhou ativamente nos negócios da comunidade judaica.
Rabino e erudito, instalou várias conferências
rabínicas e organizou a realizada em Leipzig.
Seu pai, Ludwig Philipson publicou uma tradução
alemã da Bíblia com comentário e ilustrações
(1839-1853). Fundou em 1837 o Alguemeine Zeitung des Judentum.
Em 1855 fundou o Instituto para Literatura Judaica (Enciclopédia
Judaica 1967, 3º, pág. 969). Em sua homenagem foi
dada à Colônia o nome de Philipson.
A Federação Israelita do Rio Grande do Sul comemorou
o Centenário da Imigração com muito destaque.
1) Houve concerto do Centenário sob a regência
de Isaac Karabitchewshy com a presença do governador
Germano Rigotto, o ministro Tarso Genro, representando o presidente
Lula e o ministro Olívio Dutra, o prefeito de Porto
Alegre, senadores, deputados, vereadores além de público
numeroso.
2) Um monumento comemorativo do centenário foi construído
no bairro Bom Fim espelhando o orgulho e a homenagem da comunidade
judaica pela contribuição dos imigrantes à sociedade
gaúcha e brasileira.
Na ocasião, a presidente da Federação
Israelita do Rio Grande do Sul, Matilde Groisman Gus pronunciou
discurso, do qual transcrevemos alguns trechos:
“
A comunidade judaica é uma minoria inserida e integrada
na sociedade brasileira. Com tradição e cultura
características desenvolvidas durante mais de dois mil
anos.
Como conseqüência das dificuldades econômicas
da Europa, no início do século passado e das
perseguições religiosas e sociais sofridas em
seus países de origem, muitos judeus vieram para o Brasil
em busca de uma vida melhor, onde poderiam usufruir a liberdade
religiosa, preconizada já na Constituição
de 1824.
Os primeiros imigrantes, basicamente de origem askenazi, cerca
de 37 famílias, vieram principalmente da Bessarabia.
Mais tarde chegaram judeus vindos da Rússia, Polônia,
Alemanha, Argentina, Egito e outros países.
Os imigrantes foram generosamente acolhidos pelo povo do Rio
Grande do Sul. A maioria era formada por artesãos que
deveriam se formar agricultores de acordo com o projeto de
colonização da Ica. Receberam lotes de 25 a 30
hectares, pequenas casas de madeira, instrumentos agrícolas
e sementes com financiamento a longo prazo. Mas o desconhecimento
da língua portuguesa, a falta de familiaridade com o
cultivo da terra e o fato de serem essencialmente urbanos,
foram fatores que dificultaram sua fixação na
terra. Além disso, havia falta de escolas e hospitais,
precariedade de saneamento e condições de higiene”.
Prosseguindo nas comemorações, ocorreram sessões
de homenagens no Congresso Nacional, na Assembléia Legislativa
do Rio Grande do Sul, na Câmara Municipal de Porto Alegre
e na sede do Governo estadual, o Palácio Piratini. Um
painel e uma exposição sobre a Imigração
Judaica contou com a participação do ex-ministro
do STF, Mauricio Correa, do escritor Moacyr Scliar e do psicanalista
Abrão Slavutzky. No encerramento, foi feita uma visita
ao cemitério israelita de Philipson, como homenagem
aos imigrantes que lá estão sepultados.
Nesse cemitério estão sepultados os meus dois
avós, pai do meu pai e pai da minha mãe.
Posteriormente a Ica adquiriu a fazenda Quatro Irmãos,
na região de Passo Fundo e Erechim, para onde foram
originalmente três dezenas de famílias, chegando
após, mais de 1000 pessoas.
Marcos Feldman, nascido em Quatro Irmãos em 1923, hoje
residente em São Paulo, escreveu o melhor livro que
descreve a imigração, a vida e todas as dificuldades
que passaram os judeus em Quatro Irmãos. O livro chama-se “Memórias
da Colônia de Quatro Irmãos”. Só o
prefácio de Maria Luiza Tucci Carneiro já é um
monumento e vale a pena ser descrito numa edição
da Visão Judaica.
Poucos conheciam ou sabiam quem eram os Quatro Irmãos.
Na escritura que consta no livro diz textualmente: Adquirente:
Jewish Colonization Association: A herança do conselheiro
Manoel Alves de Araújo, dr. Victor Ferreira do Amaral
e Silva e seus filhos menores Homero Ferreira do Amaral e Noêmia
Ferreira do Amaral e a mulher do mesmo dr., dona Ana Messias
Pacheco do Amaral, Manoel Severino Maia e sua mulher Clementina
Pacheco Maia, residentes na Lapa, Curitiba e Rio Negro no Estado
do Paraná. Título: Compra e venda. Escritura
Pública de 24 de novembro de 1909, lavrada em Porto
Alegre. Valor do contrato: Mil, trezentos e sete contos, quinhentos
e cinco mil e seiscentos reis (1.307.505 $ 600). Área:
9.418.715,25 m2.
Só agora ficamos sabendo que o nosso fundador da Universidade
Federal do Paraná, professor Victor Ferreira do Amaral
e Silva foi um dos proprietários de Quatro Irmãos.
Por curiosidade, fui procurar o dr. Milton Ferreira do Amaral,
médico, colega de turma do dr. Moises Paciornick e muito
meu amigo, filho do professor Victor. Estranhou a minha visita,
mas logo fui perguntando: Milton, você sabia que seu
pai era um dos donos de Quatro Irmãos no Rio Grande
do Sul?
Ele me disse: Papai sempre dizia que a família da mamãe
tinha terras no Rio Grande do Sul e ele conheceu um tal de
Yochpe.
Quando eu lhe entreguei o livro “Memórias da Colônia
de Quatro Irmãos” o dr. Milton ficou emocionado
e me disse: Moysés, este é o melhor presente
que você podia ter me dado.
Para encerrar esta novela que já é longa, vou
confessar que não sabia como papai que veio da Rússia,
e mamãe da Bessarabia se encontraram em Quatro Irmãos.
Sempre soube que os pais da minha mãe moraram em Philipson,
porém, antes vieram para Quatro Irmãos como consta
no livro. O sr. Pinkas Burkinski, que foi “Schifs Brider” de
papai, pai da saudosa sra. Ester Guelmann e avô do dr.
Jaime Guelmann, me dizia que ele fez o casamento de papai e
mamãe em Quatro Irmãos.
* Moysés Bronfmann é formado em medicina, empresário,
um dos líderes pioneiros da Comunidade Israelita do
Paraná, com intensa vida comunitária que se estendeu
por mais de meio século. Memória viva da coletividade,
participou da construção da Sinagoga Francisco
Frischmann, do Centro Israelita do Paraná (CIP), da
criação da B'nai B'rith e de grande número
das instituições comunitárias judaicas
de Curitiba.