O novo papa Bento XVI e os judeus

Joseph Ratzinger, o sucessor de João Paulo II foi escolhido em 19/4. Os judeus não podem nunca ignorar o anúncio de um novo papa. Muito da história judaica dos dois últimos milênios foi afetada, freqüentemente de maneira negativa, pelas políticas e atitudes de quem senta no trono de São Pedro. O papado representa o ponto máximo das relações judaico-católicas, mas o papa Bento XVI já deixou patente seu interesse em levar adiante o legado de João Paulo II na conciliação com os judeus.

Como europeu e alemão, parece ser grande a sensibilidade do novo papa aos horrores cometidos contra os judeus na Europa no século 20. Como cardeal, escreveu que em decorrência da Shoá “nasceu uma nova visão do relacionamento entre a Igreja e Israel: a esperança sincera de ultrapassar qualquer tipo de anti-judaísmo e de iniciar um diálogo construtivo baseado no conhecimento mútuo e na reconciliação”.

Ele já mencionou também que no desenrolar da Cristandade aparecem muitas atitudes anti-semitas que “através da história suscitaram deploráveis atos de violência”. E reconheceu que muitos cristãos não opuseram resistência à Shoá, “devido a uma herança de anti-semitismo presente em seus corações”.

A reconciliação de João Paulo II com os judeus foi profunda e multifacetada. Hoje, se sabe que Bento XVI, então cardeal Ratzinger, o auxiliou nisso. Eles entenderam que após o aviltamento dos judeus pela Igreja durante séculos, qualquer mudança requeria decisões e declarações demonstrando de fato o respeito aos judeus e ao judaísmo. E sabiam que as posições doutrinárias eram fundamentais para uma mudança institucional.

Há todas as razões para crer que o novo papa continuará sustentando a reconciliação.

Joseph Ratzinger, 78 anos, era o decano dos cardeais, e foi considerado "braço direito" de João Paulo II nas questões doutrinárias. Adotou o nome de Bento XVI (ou Benedito XVI). A escolha do nome marca o espírito de continuidade que Ratzinger pretende dar aos trabalhos de internacionalização e rigidez moral do pontificado anterior. O cardeal alemão foi, durante 23 anos, o guardião da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, órgão que ficou no lugar do antigo tribunal da Inquisição. Ratzinger é o oitavo papa alemão.

A imprensa européia anunciou a eleição do cardeal alemão, mas logo em seguida, mencionou o seu passado no movimento juvenil hitlerista e no exército nazista, o que gerou preocupações, até que se esclarecesse que era obrigatório o ingresso na juventude hitlerista. E se fiucasse sabendo da oposição de seu pai aos nazistas, as intenções de ser seminarista que o ajudaram a escapar da juventude hitlerista, e mais tarde, como desertou.

Em Israel, várias autoridades religiosas judaicas, assim como a imprensa israelense, manifestaram sua satisfação com a eleição do Papa Bento XVI, destacando seus laços com os judeus e suas opiniões contra o anti-semitismo. Em Israel ele é conhecido por ser um amigo do povo judeu. “Rezo e espero que siga os passos de João Paulo II", declarou à rádio o rabino de Tel Aviv, Meir Lau, ex-grande rabino de Israel. "Estive com ele pela última vez em Nova York e nessa ocasião condenou energicamente o anti-semitismo", acrescentou.

Os jornais israelenses de todas as tendências destacaram este último ponto e recordaram que o cardeal Ratzinger viajou várias vezes a Israel, em particular quando foram estabelecidas as relações diplomáticas entre o Estado Hebreu e o Vaticano, em 1994. "O novo Papa deve continuar a aproximação com Israel e os judeus", destacou o jornal Haaretz, lembrando que Bento XVI visitou várias vezes o país, em especial para estabelecer relações diplomáticas entre Israel e o Vaticano.

Numa entrevista concedida ao mesmo jornal, o presidente do Congresso Judaico Mundial, a maior organização judaica do mundo, Israel Singer, destacou que o novo Papa "estabeleceu as bases de uma nova teologia, que permitiu transformar em 20 anos 2.000 anos de relações entre judeus e cristãos".

" A eleição do cardeal Joseph Ratzinger como novo Papa é uma boa notícia para Israel e o povo judeu. É um sinal de que a aproximação iniciada por João Paulo II vai continuar", afirmou o jornal Jerusalem Post. O Yediot Aharonot também registrou que o novo Papa havia sido recrutado à força na juventude hitlerista e, em seguida, no Exército alemão, do qual desertou.

O presidente de Israel Moshe Katzav manifestou a esperança no fortalecimento da aproximação entre a Santa Sé e o judaísmo. "Esperamos que o novo Papa continue atuando a favor da aproximação entre o Estado de Israel e o Vaticano, assim como entre a Igreja Católica e o povo judeu", disse por sua vez o ministro das Relações Exteriores, Sylvan Shalom. A Liga Anti-Difamação (ADL), principal organização judaica mundial pelos direitos civis também saudou em um comunicado a eleição de Bento XVI.

O antigo rabino-chefe de Roma, Elio Toaff, crê que “as premissas são, sem dúvida boas, agora há que ver como se desenvolvem. Mas a julgar por suas palavras, o Papa Ratzinger fará muito bem”.

O atual rabino de Roma, Riccardo Di Segni considera que estas palavras do novo bispo de Roma são um “sinal muito forte para os católicos de todo o mundo”. “João Paulo II revolucionou as relações entre católicos e judeus”, recorda Di Segni e os definiu “nossos amados irmãos mais velhos”.

Na mesma linha, o rabino David Rosen, responsável das relações interconfessionais do Comitê Judaico Americano, constatou em um comunicado que “o cardeal Ratzinger já mostrou um profundo compromisso para avançar nas relações judaico-cristãs, e esperamos manter nossa colaboração próxima com a Igreja”.

Infância e passado
O Papa Bento XVI teve na Baviera natal uma infância marcada pelas críticas de sua família ao nazismo. Questionado recentemente pela imprensa britânica sobre sua passagem pela juventude hitlerista, Ratzinger nunca negou seu envolvimento com a organização nazista, mas destacou que isto aconteceu contra a sua vontade.
" A juventude hitlerista foi obrigatória por decreto em 1939. Todos tinham que participar naquela época", explica Wolfgang Wippermann, professor de história contemporânea da Universidade Livre de Berlim, especialista na ditadura do III Reich.

" Ratzinger criou-se em uma família anti-nazista. Foi obrigado a se unir ao movimento durante a Segunda Guerra Mundial", declarou o rabino Marvin Hier, diretor e fundador do Centro Simon Wiesenthal, com sede em Los Angeles. Hier observou, entretanto: "Que ironia ter dois papas que estiveram em lados opostos no maior conflito mundial: João Paulo II, que foi o operário escravo a serviço dos nazistas, e o novo Papa, que foi membro da juventude hitlerista e carregou outro uniforme".

Nascido no dia 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, povoado ao sul da Baviera, Ratzinger tinha 5 anos de idade quando Adolf Hitler chegou ao poder, em 30 de janeiro de 1933. Cresceu em uma família muito católica e patriótica. Seu pai, policial, e sua mãe se opunham aos nazistas.

" Quando Hitler fracassou na tentativa de ser eleito presidente, em 1932, meu pai e minha mãe respiraram aliviados, sem por isso terem se alegrado com a vitória de Hindenburg, a quem consideravam uma barreira pouco segura contra os nazistas", escreveu Ratzinger em sua autobiografia, publicada em 2000. "Durante as reuniões, meu pai tinha que intervir diariamente contra a brutalidade dos nazistas. Percebíamos claramente suas enormes preocupações", conta o texto.

Em setembro de 1939, quando teve início a 2ª Guerra Mundial, Ratzinger tinha 12 anos. Ele havia entrado para o seminário. Os membros da juventude hitlerista tinham entre 14 e 18 anos, mas a partir dos 10 anos, meninos e meninas eram convocados. Do seminário, onde estava, Ratzinger foi inscrito, contra a sua vontade. Em suas memórias, publicadas em 1997, o hoje Papa dedicou um capítulo a sua experiência na guerra e contou como sua escola foi tomada pelos nazistas em 1941 para ser usada como hospital militar. Tinha então 14 anos.

" Vivíamos em barracas como soldados, vestíamos uniformes e basicamente devíamos cumprir com o mesmo serviço, com a diferença que assistíamos a umas poucas aulas", escreveu ele.

A unidade foi designada para a defesa de uma fábrica de motores de aviões de BMW próxima a Munique, uma estação de trens em Innsbruck, na Áustria, e uma fábrica de aviões de combate na cidade alemã de Gilching. "Em 10 de setembro de 1944, depois que alcançamos a idade militar, nos deram dispensa. Quando cheguei em casa, havia sobre a mesa panfletos convocando-nos a integrar os Serviços de Trabalho do Reich, contou.

" Uma noite nos tiraram da cama e nos alinharam meio adormecidos. Um oficial das SS nos fez dar um passo à frente cada um. Aproveitando que estávamos meio adormecidos, tratou de nos recrutar como 'voluntários' para a Waffen-SS", escreveu.

" Junto a alguns mais, tive a sorte de dizer que pretendia tornar-me sacerdote católico.

Fomos separados com desprezo, dispensados com insultos e zombarias”, recordou ele. “Mas estes insultos tinham um gosto bom, porque nos livravam da ameaça de sermos considerados voluntários, e de todas as conseqüências disto", acrescentou.

Em 20 de novembro de 1944, enquanto avançava o Exército Vermelho, aos jovens foram devolvidas suas roupas civis. Ratzinger, de 17 anos, foi enviado de regresso a sua casa nas cercanias de Traunstein, Alemanha, mas logo chamado a receber treinamento da infantaria, mas devido a uma doença, conseguiu se eximir da maior parte das responsabilidades militares.

Em dezembro de 1944 foi chamado às armas pela Landsturm, uma força que recrutava a jovens e velhos para uma última defesa desesperada. Quando os Aliados se aproximavam, no fim de abril de 1945, Ratzinger tinha 18 anos e desertou do Exército. Ao chegarem a seu povoado, os aliados estabeleceram o quartel-general na casa da família de Ratzinger. Ele foi identificado como soldado e levado para um campo de prisioneiros de guerra, de onde só saiu em 19 de junho do mesmo ano.