Bandeiras sobre a multidão (Um olhar sobre a viagem da delegação brasileira a 18ª Marcha da Vida em Auschwitz-Birkenau - 2005)
Por: Israel Blajberg

Muszeum Martiriologyszne Majdanek. Não é preciso saber polonês para entender. Estamos no campo onde o nazista Koch e sua mulher, Elza, tinham abajures de pele humana na casa onde moravam dentro de Majdanek agora transformada em Museu do Martírio. A forca em Nuremberg foi o destino do monstro.
Armênia, Ruanda, Biafra... Desde que Abel levantou a mão contra Caim, o mundo não teve mais paz. Cada vez que uma bala perdida mata uma criança, ou que um skinhead ataca um diferente, os espectros malditos de Hitler e seus asseclas lançam uma gargalhada sinistra no Inferno de Dante.

A Marcha da Vida é um programa educativo pela Polônia tão sofrida. A noite de Varsóvia é fria e escura. Não se dorme mais de 5 horas. Atravessamos a Polônia de Norte a Sul para poder ver tudo. Não se pode esquecer. A maioria, são jovens.

O ônibus chega a Umshlagplatz. As almas doloridas conhecem a praça onde os SS arrebanhavam nossos irmãos e irmãs para embarcá-los nos trens da morte. Como poderiam imaginar? Afinal era uma das nações mais “civilizadas” da Terra...
A Alemanha nazista iludia suas vítimas assim como os terroristas do 11 de Setembro. Soilent Green, décadas depois mostrava Los Angeles em 2050 sem água e sem comida, onde o governo convidava candidatos a uma morte sem dor. A única alimentação era a proteína esverdeada fornecida ao povão. No final, a revelação: Soilent Green is people... Nada mais que as carnes trituradas dos suicidas.

Os nazistas foram mais longe. Das vitimas só restavam as cinzas. Ficção científica macabra assim só foi possível depois de Auschwitz.

Estamos agora percorrendo ruas vazias. A cada esquina, uma pedra relembra os Heróis do Gueto. Derech HaGvurim (Caminho dos Heróis). Saindo da UmshlagPlatz passamos pela Mila 18 e por uma esquina emblemática, onde a Rua Mordechai Anielewicz, o comandante da ZOB 1, cruza a Avenida de Jan Pavel II, o Papa.

São bairros novos, construídos sobre os terrenos onde um dia existiu o Ghetto de Varsóvia. Os alemães arrasaram tudo. Apenas 3 prédios e 2 pequenos pedaços de muro restaram. Havia 300 mil judeus em Varsóvia, numero que chegou a 600 mil com as deportações. Todos num espaço equivalente ao da Praça XI a Candelária, em pleno Centro de Varsóvia.
As árvores tornam a noite de Varsóvia mais escura. O grupo chega a uma grande praça onde o monumento de Rappaport presta a última homenagem aos heróicos combatentes do ghetto.

Nuvens de chumbo tangidas pelo vento desenham recortes fantasmagóricos no céu iluminado por uma lua fria. Uma sensação de vazio e solidão preenche a praça. Estamos sozinhos no meio do quadrado imenso perdidos em nossos pensamentos. Quase ninguém fala. Acendem-se velas. Recita-se o Kaddish 2.

As almas de Anielewicz e seus irmãos de armas estão por ali, eternizados que foram no bronze. Olham ao longe resolutos, cabeça levantada, desafiantes. Nas mãos, facas e granadas. Os minutos parecem não querer passar. Talvez algo vá acontecer. Talvez. Era o que eles sentiam, há exatos 62 anos. Os vultos parecem querer sair do metal para a luta, sem nada temer, quase com os próprios corpos.

Amanhã é domingo, 8 de maio de 2005. Dia das Mães. 60 Anos do Dia da Vitória. 62 anos da morte de Mordechai Anieleiwcz, o Comandante da Revolta.

Poucas vezes na história houve exemplos de tamanho heroísmo, desde que Spartacus se levantou contra o império. As mais aguerridas legiões da Roma pagã, a Xª e a XVª foram mandadas com as melhores armas da época, infantaria, balistas, arqueiros, 10 catapultas pesadas para cada legião. A SS veio com tanques e artilharia. Mas todos eles passaram e nós ficamos.

O verde-amarelo das bandeiras que conduzimos nos lembram daqueles outros heróis enlouquecidos de esperança. Tiradentes e Zumbi dos Palmares assim como Anielewicz confiavam que chegaria a Liberdade, ainda que tardia 3.

O guia bate palmas convocando o grupo para o ônibus. Vamos ao hotel jantar com as outras delegações. O monumento fica para trás. Atravessando a praça, um turbilhão de sons vindos do passado martela os tímpanos. Explosões, gritos, prédios desabando. A porta do ônibus se fecha hermeticamente e voltamos ao presente. Um bonde passa ao lado. Procuramos identificar rostos conhecidos. A linha é a mesma onde outrora passaram os trens da morte.

O hotel está apinhado de gente jovem. Sorrisos inocentes. Danças na rua. Deixamo-nos levar pela massa humana nos corredores. Bandeiras se levantam sobre a multidão por toda a parte aonde vamos. O calor reanima a alma. Vencemos. Nem as legiões romanas nem as SS puderam declarar vitória. Vencemos todas as guerras a muito custo e aqui estamos na noite de Varsóvia.

Notas:
1. ZOB – Zsydowska Organizaczia Bojowa – Organização Judaica Combatente
2. Oração In Memoriam
3. Libertas Quae Sera Tamem

* Israel Blajberg integrou a equipe que levantou informações acerca dos Heróis Brasileiros Judeus da II Guerra Mundial e participou da delegação brasileira que viajou para a 18ª Marcha da Vida, em Auschwitz-Birkenau, deste ano. iblaj@telecom.uff.br