Fazer prosélitos
Por: Estevão Santana*


Fazer prosélitos não é uma prática que possa ser atribuída a todos os cristãos. Atribuir o proselitismo a todos seria uma injustiça. Muitas igrejas têm atuado em favor da aproximação séria e respeitosa aos judeus e ao judaísmo. Nos últimos 40 anos houve considerável progresso nessas relações, fazendo bem a ambas comunidades. No entanto há cristãos que são contrários ao esforço dessas igrejas e comunidades judaicas de boa vontade. Preferem o proselitismo. Negam-se ao diálogo dedicando-se freneticamente à conversão de judeus, prática desrespeitosa e politicamente incorreta.

Angariar adeptos é missão fundamental e necessária para muitas igrejas que, no seu fundamentalismo e na sua pobre teologia, se espalham em busca de cristãos de outras igrejas, oferecendo a “única salvação” – o que fazem como fossem detentores desse poder divino. Para esses cristãos, a ação missionária é como preencher um álbum de figurinhas: quanto mais páginas completar, maior a possibilidade de se salvar. Ah! Existem figurinhas carimbadas. Estas valem mais. São os judeus. Uma figurinha dessa qualidade garante duplo prêmio: salvação e apressamento da vinda do messias cristão.

Lançar as redes em busca de novos convertidos ao cristianismo não é de hoje. Por muito tempo os cristãos tiveram essa prática. Mesmo nas igrejas mais tradicionais e que oficialmente abandonaram essa prática – e a desencorajam - ainda resta, no fundo, um velado proselitismo em muitos dos seus membros.

A busca de “convertidos” se faz na seara do outro, seja cristão ou não. Há missionários batendo em portas, fazendo panfletagem em praças públicas, presídios, hospitais, cemitérios, exatamente onde podem contar com a fragilidade das pessoas e oferecer um pretenso consolo e obviamente, salvação.

Não é de se estranhar. Tudo está fundamentado na Bíblia, pois quando se lê as Escrituras de forma literal, fazer prosélitos torna-se um mandamento divino. Portanto, há no missionário uma certeza e uma determinação cega quanto à necessidade de converter todos aqueles que não aceitam seu salvador, e que se diga, à sua moda. Para esses militantes da salvação só a sua igreja é a verdadeira igreja instituída, pois todas, ou quase todas, no seu entender, estão corrompidas.

O fundamentalismo desconhece contexto. Toma a Bíblia como uma manual de sobrevivência na selva de pecados que é o mundo, e que, só será livre do pecado quando o demônio for vencido. Para isso é necessário que ocorra a segunda vinda do Messias Salvador, quando ele vencerá o demônio e arrebatará os eleitos.

Também, com base numa sui generis teologia bíblica, acreditam que a vinda do salvador depende da conversão dos judeus. Assim, é preciso que a Casa de Israel esteja restaurada, isto é, que a Terra de Israel esteja sobre o controle judaico e que os judeus estejam convertidos ao cristianismo. Nisto se apóiam muitos evangélicos dos Estados Unidos. Como exemplo, temos a Southern Baptist Convention, que, ao mesmo tempo em que é favorável ao apoio americano a Israel, encoraja 15 milhões de membros para que se dediquem evangelizar judeus. Além desses há ainda mais de mil diferentes grupos missionários que dispõem de US$ 250 milhões anualmente. Estes grupos patrocinam centenas de missionários em tempo integral, bem como programas de rádio e TV, e já criaram mais de 400 “sinagogas messiânicas”, que se esforçam em parecer judaicas, mas, na verdade, são igrejas cristãs. Se compararmos o número de missionários com o de judeus no mundo, chegamos a conta de mais de dois, talvez três, missionários para cada judeu.

Nesta mesma lógica, temos no Brasil cristãos que têm os judeus em alta conta e simpatia. Menos políticos e mais fracos em poder de mobilização, usam táticas mais modestas. A aproximação se faz em momentos festivos, nas visitas às sinagogas, aos clubes e associações, em datas significativas da vida judaica, boas ocasiões para abrir portas para futuras investidas. Promovem eventos que visam atrair judeus onde exageram nas manifestações de carinho e sensibilidade por todas as injustiças cometidas contra o povo de D’us. Raramente, ou nunca, tocam na questão política do Oriente Médio. No entanto, estes modestos missionários, pensam e objetivam o mesmo que seus irmãos da Southern Baptist Convention e outros similares.

No Brasil, diferente dos Estados Unidos, a maiorias das comunidades messiânicas não têm a mesma sofisticação. Normalmente se reúnem em igrejas como as outras, embora, nas orações e nas músicas, manifestem entusiasticamente simpatia pelo povo judeu. Apóiam a vinda de “rabinos” para pregarem em seus púlpitos e em locais pretensamente neutros, como ocorreu numa universidade de Curitiba, com a organização do Curso de Teologia e de seu Diretório Acadêmico.

No Brasil são poucas são as comunidades messiânicas que se apresentam como “judaicas”. Todavia, há algumas que possuem igrejas revestidas de sinagoga, que usam terminologias hebraicas, que guardam o sábado e seus líderes usam vestes ortodoxas. Procuram atrair judeus desgarrados das tradições e da comunidade, convencendo-os de que não é preciso deixar de ser judeu para ser cristão, e que está é uma condição privilegiada do novo convertido - contrariando a lei física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.

Não se pode descartar que, no esforço de conversão dos judeus (e mulçumanos) ao cristianismo e de outros cristãos às suas igrejas, está implícito um forte preconceito. O grande investimento e a gigantesca mobilização missionária se dá por conta do sentimento de superioridade que esses grupos têm diante de outros. Sentimento este, caracterizado pela manifesta certeza de “serem os salvos” e legítimos missionários do Senhor. Logo, os “outros”, objeto do proselitismo, são inferiores, não possuem a mesma distinção diante de D’us, e por isso devem ceder à revelação messiânica proposta por essa “elite cristã”.

Não se pode proibir a ação proselitista. A atividade religiosa no Brasil é livre e o proselitismo também. No entanto, deve-se refletir sobre as causas que levam alguns judeus serem atraídos ao cristianismo. Certamente, os atraídos, não são judeus ligados às suas comunidades, que conservam suas tradições, que conhecem a sua religião, etc. São aqueles afastados por razões diversas; são aqueles que nasceram judeus, mas que nunca estiveram em contato com as tradições e com a comunidade.

Enfim, não basta alertar sobre a insistente ação dos missionários. Não basta dizer que o lobo está lá fora e que é preciso ter cuidado. O lobo pode estar dentro de casa, travestido de amigo, comovendo a todos com ternos sentimentos ou, o que é pior, pode estar disfarçado na omissão, na falta de cuidado com a educação, com a guarda das tradições, na falta de trato com as pessoas, no próprio fechamento da comunidade. A melhor guarda contra o proselitismo cristão é fortalecimento dos laços comunitários, a valorização da identidade e do comprometimento com as causas judaicas e humanitárias, valores que sempre identificaram os judeus ao longo dos séculos.

* Estevão Santana, formado em filosofia, é teólogo cristã