Fazer prosélitos não é uma prática
que possa ser atribuída a todos os cristãos.
Atribuir o proselitismo a todos seria uma injustiça.
Muitas igrejas têm atuado em favor da aproximação
séria e respeitosa aos judeus e ao judaísmo.
Nos últimos 40 anos houve considerável progresso
nessas relações, fazendo bem a ambas comunidades.
No entanto há cristãos que são contrários
ao esforço dessas igrejas e comunidades judaicas de
boa vontade. Preferem o proselitismo. Negam-se ao diálogo
dedicando-se freneticamente à conversão de judeus,
prática desrespeitosa e politicamente incorreta.
Angariar adeptos é missão fundamental e necessária
para muitas igrejas que, no seu fundamentalismo e na sua pobre
teologia, se espalham em busca de cristãos de outras
igrejas, oferecendo a “única salvação” – o
que fazem como fossem detentores desse poder divino. Para esses
cristãos, a ação missionária é como
preencher um álbum de figurinhas: quanto mais páginas
completar, maior a possibilidade de se salvar. Ah! Existem
figurinhas carimbadas. Estas valem mais. São os judeus.
Uma figurinha dessa qualidade garante duplo prêmio: salvação
e apressamento da vinda do messias cristão.
Lançar as redes em busca de novos convertidos ao cristianismo
não é de hoje. Por muito tempo os cristãos
tiveram essa prática. Mesmo nas igrejas mais tradicionais
e que oficialmente abandonaram essa prática – e
a desencorajam - ainda resta, no fundo, um velado proselitismo
em muitos dos seus membros.
A busca de “convertidos” se faz na seara do outro,
seja cristão ou não. Há missionários
batendo em portas, fazendo panfletagem em praças públicas,
presídios, hospitais, cemitérios, exatamente
onde podem contar com a fragilidade das pessoas e oferecer
um pretenso consolo e obviamente, salvação.
Não é de se estranhar. Tudo está fundamentado
na Bíblia, pois quando se lê as Escrituras de
forma literal, fazer prosélitos torna-se um mandamento
divino. Portanto, há no missionário uma certeza
e uma determinação cega quanto à necessidade
de converter todos aqueles que não aceitam seu salvador,
e que se diga, à sua moda. Para esses militantes da
salvação só a sua igreja é a verdadeira
igreja instituída, pois todas, ou quase todas, no seu
entender, estão corrompidas.
O fundamentalismo desconhece contexto. Toma a Bíblia
como uma manual de sobrevivência na selva de pecados
que é o mundo, e que, só será livre do
pecado quando o demônio for vencido. Para isso é necessário
que ocorra a segunda vinda do Messias Salvador, quando ele
vencerá o demônio e arrebatará os eleitos.
Também, com base numa sui generis teologia bíblica,
acreditam que a vinda do salvador depende da conversão
dos judeus. Assim, é preciso que a Casa de Israel esteja
restaurada, isto é, que a Terra de Israel esteja sobre
o controle judaico e que os judeus estejam convertidos ao cristianismo.
Nisto se apóiam muitos evangélicos dos Estados
Unidos. Como exemplo, temos a Southern Baptist Convention,
que, ao mesmo tempo em que é favorável ao apoio
americano a Israel, encoraja 15 milhões de membros para
que se dediquem evangelizar judeus. Além desses há ainda
mais de mil diferentes grupos missionários que dispõem
de US$ 250 milhões anualmente. Estes grupos patrocinam
centenas de missionários em tempo integral, bem como
programas de rádio e TV, e já criaram mais de
400 “sinagogas messiânicas”, que se esforçam
em parecer judaicas, mas, na verdade, são igrejas cristãs.
Se compararmos o número de missionários com o
de judeus no mundo, chegamos a conta de mais de dois, talvez
três, missionários para cada judeu.
Nesta mesma lógica, temos no Brasil cristãos
que têm os judeus em alta conta e simpatia. Menos políticos
e mais fracos em poder de mobilização, usam táticas
mais modestas. A aproximação se faz em momentos
festivos, nas visitas às sinagogas, aos clubes e associações,
em datas significativas da vida judaica, boas ocasiões
para abrir portas para futuras investidas. Promovem eventos
que visam atrair judeus onde exageram nas manifestações
de carinho e sensibilidade por todas as injustiças cometidas
contra o povo de D’us. Raramente, ou nunca, tocam na
questão política do Oriente Médio. No
entanto, estes modestos missionários, pensam e objetivam
o mesmo que seus irmãos da Southern Baptist Convention
e outros similares.
No Brasil, diferente dos Estados Unidos, a maiorias das comunidades
messiânicas não têm a mesma sofisticação.
Normalmente se reúnem em igrejas como as outras, embora,
nas orações e nas músicas, manifestem
entusiasticamente simpatia pelo povo judeu. Apóiam a
vinda de “rabinos” para pregarem em seus púlpitos
e em locais pretensamente neutros, como ocorreu numa universidade
de Curitiba, com a organização do Curso de Teologia
e de seu Diretório Acadêmico.
No Brasil são poucas são as comunidades messiânicas
que se apresentam como “judaicas”. Todavia, há algumas
que possuem igrejas revestidas de sinagoga, que usam terminologias
hebraicas, que guardam o sábado e seus líderes
usam vestes ortodoxas. Procuram atrair judeus desgarrados das
tradições e da comunidade, convencendo-os de
que não é preciso deixar de ser judeu para ser
cristão, e que está é uma condição
privilegiada do novo convertido - contrariando a lei física
de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Não se pode descartar que, no esforço de conversão
dos judeus (e mulçumanos) ao cristianismo e de outros
cristãos às suas igrejas, está implícito
um forte preconceito. O grande investimento e a gigantesca
mobilização missionária se dá por
conta do sentimento de superioridade que esses grupos têm
diante de outros. Sentimento este, caracterizado pela manifesta
certeza de “serem os salvos” e legítimos
missionários do Senhor. Logo, os “outros”,
objeto do proselitismo, são inferiores, não possuem
a mesma distinção diante de D’us, e por
isso devem ceder à revelação messiânica
proposta por essa “elite cristã”.
Não se pode proibir a ação proselitista.
A atividade religiosa no Brasil é livre e o proselitismo
também. No entanto, deve-se refletir sobre as causas
que levam alguns judeus serem atraídos ao cristianismo.
Certamente, os atraídos, não são judeus
ligados às suas comunidades, que conservam suas tradições,
que conhecem a sua religião, etc. São aqueles
afastados por razões diversas; são aqueles que
nasceram judeus, mas que nunca estiveram em contato com as
tradições e com a comunidade.
Enfim, não basta alertar sobre a insistente ação
dos missionários. Não basta dizer que o lobo
está lá fora e que é preciso ter cuidado.
O lobo pode estar dentro de casa, travestido de amigo, comovendo
a todos com ternos sentimentos ou, o que é pior, pode
estar disfarçado na omissão, na falta de cuidado
com a educação, com a guarda das tradições,
na falta de trato com as pessoas, no próprio fechamento
da comunidade. A melhor guarda contra o proselitismo cristão é fortalecimento
dos laços comunitários, a valorização
da identidade e do comprometimento com as causas judaicas e
humanitárias, valores que sempre identificaram os judeus
ao longo dos séculos.
* Estevão Santana, formado em filosofia, é teólogo
cristã