Introdução: Liberdade(s)
Contamos 7 semanas de Pêssach, a saída da escravidão do
Egito para a liberdade até Shavuot, que celebra o recebimento da Torá,
complementando o processo de libertação.
Mas a Torá não apresenta leis e mitzvot que cerceariam a liberdade?
Primeiro: Torá não significa lei e sim orientação – uma
luz sobre o caminho que devemos seguir.
Em segundo lugar, em Shavuot recebemos Asseret haDibrot, o Decálogo,
mal traduzido por 10 mandamentos – na verdade, são 10 palavras
(Logus), falas, enunciações. Não contêm obrigações
e proibições? Sim. Todavia seriam mais bem entendidas como limites
da liberdade de um que termina quando começa a do outro, condição
sine qua non para quem vive em sociedade. O cerne do judaísmo está na
Torá e seu núcleo é o Decálogo. Documento algum
exerceu maior influência na vida religiosa e moral da humanidade, incomparável
em brevidade e clareza.
Povo Eleito
Dado seu caráter de universalidade, por que foi revelada ao povo de
Israel? E por que ficou este estigmatizado como Eleito? Midrashim buscam explicar
de forma poética. Indo ao texto bíblico, vemos sutilezas de significado,
semântico e simbólico. Em Êx 19: 5,6 lemos: Se ouvirdes
minha voz atentamente e guardardes minha aliança, sereis para mim o
tesouro de todos os povos (...) um reino de sacerdotes e um povo santo.
Primeiro lembremos que, invertendo processos eleiToráis, vemos um povo
que é eleito por D-us. O judaísmo na Torá é uma
teocracia: o povo é guiado por D-us (seu contato direto foi no Monte
Sinai) e através de líderes intermediários, começando
com Moisés. Sem uma estrutura governamental concreta e com o livre arbítrio,
esta teocracia possibilitaria a vivência da anarquia (em seu sentido
político original) tão desejável quanto temida; tanto
que o próprio povo apela à concretude de um Bezerro de Ouro e
posteriormente pede um rei humano, contrariamente à proposta divina.
A primeira palavra grifada se estabelece condições. Estas, posto
que aparentemente muito simples (ouvir a palavra divina e manter o pacto) mostram-se,
através da história, difíceis de serem seguidas (comprovando
a necessidade psicológica humana de complicar...).
O versículo diz: “Sereis para mim o tesouro de todos os povos
e um povo santo”. É interessante que não é dito
que será “meu povo eleito” – isto assim ficou interpretado,
com conseqüências mais sombrias e trágicas do que positivas.
Segulá, além de tesouro como foi traduzido, significa característica,
propriedade, virtude, vocábulo do hebraico bíblico derivado do
acádico sugulu (gado, rebanho, plebe) e do aramaico segulta (bens, propriedades,
riqueza). Povo, expresso por gói no original, significa nação
e, ironicamente: gentio, não judeu (!) Santo, em hebraico kadosh, contém
sentidos de consagrado, dedicado, distinto moralmente, elevado eticamente.
Não é, portanto, uma vantagem, uma regalia, um sectarismo de
predileção, mas implica uma missão, um compromisso ético,
uma responsabilidade quanto a seu comportamento moral diante dos outros povos.
Carrega os estigmas de todos os escolhidos, sejam governantes, filhos, amigos:
têm uma responsabilidade imensa, como a inveja que despertam e o patrulhamento
que sofrem...
Unidade e União
A Torá, ao descrever os acampamentos judaicos no deserto diz: eles acamparam;
na chegada ao Sinai, diz Israel acampou em frente ao Monte (Ex.19: 2). Rashi
explica que onde eles acampavam havia sempre alguma perturbação
no meio do povo; no Sinai, reinou uma profunda paz, como se fossem uma pessoa,
com um sentimento em uníssono, formando uma unidade.
Lembremos que aos israelitas, ao saírem do Egito, agregou-se um erev
rav, uma grande mistura de gente, que costumava causar distúrbio em
momentos difíceis; um tipo que encontramos no seio do povo através
dos tempos, desde os que sugeriram o Bezerro e trocar o maná pela comida
do Egito; os que preferem a riqueza para o corpo à custa da escravidão
da alma, que nunca poderão alcançar a emancipação.
Segundo a Cabalá, todas as almas judaicas, incluindo as que não
haviam nascido, estavam presentes no momento do recebimento da Torá,
significando que as futuras gerações estariam comprometidas com
sua observância e englobando o conceito polêmico de alma judaica.
Fica a mensagem da unidade na diversidade (esta, característica do povo
de Israel e do ser humano em geral) como o caminho para a paz.
E o tempo da espera?
D-us só julgou o povo apto a receber a Torá no 3º mês
após a saída do Egito e rabinos relacionaram este tempo com os
3 meses que uma pessoa convertida deve esperar para se casar com um judeu.
O Midrash Ialkut 271 divide ba-hodesh = no mês, em 2 palavras: chegou
o mês; como hodesh deriva de hadash (novo) era o tempo de ser um povo
novo em todos os sentidos, após receber a Torá.
Outro tempo marcado é o mencionado na Introdução, as 7
semanas de Pêssach a Shavuot. Contar ou medir visa a que algo cuja quantidade é variável
corresponda a um número ou medida exatos. Contar os dias do Ômer
parece sem sentido já que o ser humano não tem controle nem influência
sobre o tempo. Mas, o homem pode preencher o seu tempo de forma proveitosa
ou desperdiçá-lo. E a mesma unidade de tempo pode significar
muito para uns e ser insignificante para outros. É ai que se encontra
o sentido especial da contagem dos dias até o recebimento da Torá,
cuja ‘medida é mais longa que a terra e mais larga que o oceano
e contém a infinita sabedoria de D-us. A Torá foi dada a criaturas
finitas. Um ser assim, limitado pelo tempo, pode apreciar um presente tão
ilimitado como a Torá? Para preparar o homem, D-us ordenou que se contassem
os dias até recebê-la, a fim de entender a excepcional dimensão
do tempo. Assim, mesmo que o tempo seja fixo e tenha uma única medida,
se o homem mediu-o em função das realizações no
domínio da Torá e das Mitzvot, que são infinitas e eternas,
consegue-se não só esticar o tempo como transformá-lo
em algo eterno.
*Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Hebraico,
Literaturas e Cultura Judaica-USP, professora adjunta, fundadora
e ex-diretora do Programa de Estudos Judaico