Shavuot: repensando a tradição
Por: Sérgio Feldman


Às vezes a gente se pergunta se somos seguidores da Lei de Moisés. Obviamente sim. Moisés seria a fonte de todo o Judaísmo, seja ele ortodoxo, conservador ou reformista. Da Lei de Moisés ou Torá (Pentateuco) deriva toda a legislação judaica posterior. Surge a dúvida: seguimos a Torá, “ao pé da letra?” Parece-me que não. Nem os judeus mais ortodoxos poderiam seguir a Torá em nossos dias, pois para praticar a 613 mitzvot (preceitos) haveria a necessidade da existência do templo de Jerusalém.

Em 1995/96 estive em Israel, num programa de alto nível, promovido pela Agência Judaica e realizado junto ao Lookstein Center, na Universidade de Bar Ilan. Estava, junto com a minha esposa Iara, estudando no programa, dentro de um grupo composto por diversos professores e até alguns rabinos (2). A maioria dos componentes era de judeus ortodoxos. Tive a oportunidade rara de aprender muita coisa, pois se tratava de gente de alto nível. Por outro lado, tínhamos divergências ideológicas, políticas e uma aguda diversidade de interpretações.

Num passeio a Jerusalém, visitamos o museu do Templo, situado próximo do Muro das Lamentações (Kotel Hamaaravi ou Muro Ocidental), o último resquício do Templo de Jerusalém. Lá vimos objetos que simulavam os objetos rituais utilizados para fazer sacrifícios a D-us no Templo. Ouvi todas as explicações e aprendi muito. Porém me choquei com a idéia da maioria que dizia: isso é bom, pois quando vier o Messias, estaremos prontos para voltar a fazer sacrifícios no santuário. Fiquei chocado e me dei conta que a divergência era mais do que um detalhe. Sonhar com o Messias seria parte de um legado milenar do Judaísmo. Porém devemos repensar o conceito em termos da nossa evolução. O símbolo e o sonho de paz, não deve ser perdido. A busca do Milênio e da redenção, mas em uma nova leitura deste evento. Voltar a fazer sacrifícios em Jerusalém, seria uma volta ao passado, um atraso e uma maneira retrógrada de pensar. A Torá sempre foi reinterpretada e analisada de maneira a adaptá-la a novas realidades. Os sacrifícios foram substituídos pela oração e pela tzedaká (justiça social). Não consigo imaginar um sacerdote sacrificando carneiros em Jerusalém. Isso não é mais o Judaísmo. Pelo menos o que eu entendo, vivo e pratico.

Tradição é tradução. Acho que a nossa sobrevivência ocorreu pela nossa capacidade de ler, analisar e adaptar a Torá ao mundo. Não vivemos em tendas e nem somos pastores que sacrificam a D-us, em ação de graças. Somos judeus do século XXI, plenos de compreensão da palavra divina, traduzida às novas realidades e a uma concepção de mundo ampla e humanista.

Shavuot é o repensar, o refletir sobre a beleza de nossa tradição e como fazer dela a maneira de melhorar a nossa realidade, agir no mundo em prol do amor ao próximo, da paz a da fraternidade.
Chag Sameach.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.