Às vezes a gente se pergunta se somos seguidores da
Lei de Moisés. Obviamente sim. Moisés seria a
fonte de todo o Judaísmo, seja ele ortodoxo, conservador
ou reformista. Da Lei de Moisés ou Torá (Pentateuco)
deriva toda a legislação judaica posterior. Surge
a dúvida: seguimos a Torá, “ao pé da
letra?” Parece-me que não. Nem os judeus mais
ortodoxos poderiam seguir a Torá em nossos dias, pois
para praticar a 613 mitzvot (preceitos) haveria a necessidade
da existência do templo de Jerusalém.
Em 1995/96 estive em Israel, num programa de alto nível,
promovido pela Agência Judaica e realizado junto ao Lookstein
Center, na Universidade de Bar Ilan. Estava, junto com a minha
esposa Iara, estudando no programa, dentro de um grupo composto
por diversos professores e até alguns rabinos (2). A
maioria dos componentes era de judeus ortodoxos. Tive a oportunidade
rara de aprender muita coisa, pois se tratava de gente de alto
nível. Por outro lado, tínhamos divergências
ideológicas, políticas e uma aguda diversidade
de interpretações.
Num passeio a Jerusalém, visitamos o museu do Templo,
situado próximo do Muro das Lamentações
(Kotel Hamaaravi ou Muro Ocidental), o último resquício
do Templo de Jerusalém. Lá vimos objetos que
simulavam os objetos rituais utilizados para fazer sacrifícios
a D-us no Templo. Ouvi todas as explicações e
aprendi muito. Porém me choquei com a idéia da
maioria que dizia: isso é bom, pois quando vier o Messias,
estaremos prontos para voltar a fazer sacrifícios no
santuário. Fiquei chocado e me dei conta que a divergência
era mais do que um detalhe. Sonhar com o Messias seria parte
de um legado milenar do Judaísmo. Porém devemos
repensar o conceito em termos da nossa evolução.
O símbolo e o sonho de paz, não deve ser perdido.
A busca do Milênio e da redenção, mas em
uma nova leitura deste evento. Voltar a fazer sacrifícios
em Jerusalém, seria uma volta ao passado, um atraso
e uma maneira retrógrada de pensar. A Torá sempre
foi reinterpretada e analisada de maneira a adaptá-la
a novas realidades. Os sacrifícios foram substituídos
pela oração e pela tzedaká (justiça
social). Não consigo imaginar um sacerdote sacrificando
carneiros em Jerusalém. Isso não é mais
o Judaísmo. Pelo menos o que eu entendo, vivo e pratico.
Tradição é tradução. Acho
que a nossa sobrevivência ocorreu pela nossa capacidade
de ler, analisar e adaptar a Torá ao mundo. Não
vivemos em tendas e nem somos pastores que sacrificam a D-us,
em ação de graças. Somos judeus do século
XXI, plenos de compreensão da palavra divina, traduzida às
novas realidades e a uma concepção de mundo ampla
e humanista.
Shavuot é o repensar, o refletir sobre a beleza de nossa
tradição e como fazer dela a maneira de melhorar
a nossa realidade, agir no mundo em prol do amor ao próximo,
da paz a da fraternidade.
Chag Sameach.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutor em História pela UFPR.