Três jovens brasileiros, gaúchos, conversando
em uma esquina, foram súbita e violentamente atacados
a socos, pontapés e facadas por um grupo de jovens igualmente
brasileiros, em Porto Alegre. Dois do primeiro grupo usavam
kipá, exteriorizando sua identidade judaica na rua,
fato normal num país democrático. Os do segundo
grupo já tinham ficha na polícia, reincidentes
em agressões, neonazistas militantes, no feitio skinheads.
O caminho de semelhante agressão já é conhecido.
Faz-se sempre com intensa e cega doutrinação,
envolvendo preferencialmente jovens sem perspectivas, mais
facilmente manipuláveis, direcionando-os para uma escalada.
Começam, mas não se limitam aos judeus. Vale
lembrar que em São Paulo, em 1991, houve uma onda de
ataques a judeus, negros e nordestinos, gerando mobilização
da sociedade civil. De lá para cá, talvez andemos
anestesiados pela brutalidade de uma violência cotidiana,
e embora apareçam manifestações de repúdio
de um conselho do governo federal aqui, do governo estadual
e municipal ali, a sociedade cicatriza a ferida bem mais rápido
que a recuperação dos jovens. Um foi ferido no
abdômen, teve a bondade divina a permitir que a musculatura
desviasse a lâmina da faca. O amigo que não é judeu
foi ferido no rim, baço e diafragma, continuou a ser
espancado enquanto sangrava no chão; precisa ainda que
todos façam votos de boa recuperação.
O alerta precisa ser ouvido pelo que é. Em que pese
a ação imediata da polícia, que teve na
coordenação do delegado Paulo César Jardim
a eficácia de prender os criminosos, de alguma forma
o Brasil tem permitido que ainda se desenvolvam aqui grupos
com semelhante perfil, ao arrepio da lei, indicando que há,
de alguma forma, uma mentalidade complacente esparsa pela sociedade.
Vale traçar um paralelo com o caso da discriminação
em campo sofrida pelo jogador Grafite. Foi interessante observar
que, muitos que jamais se manifestaram com relação
ao evidente e inaceitável racismo à brasileira,
subitamente eram os mais indignados. A forma como se frisava
que o agressor — que de fato não merece qualquer
atenuante — era argentino, chamava a atenção.
Ora, para além da campanha anti-racista iniciada na
Europa por marcas poderosas e que vinha chegando por aqui,
pesa a ridícula rixa com a Argentina.
Tendo acompanhado ambos os casos à distância,
por não estar no Brasil, portanto dependendo do noticiário
na internet, no episódio Grafite chamou a atenção
um tom xenófobo: “Eles pensam que podem vir ao
Brasil e fazer o que querem”, assim como o acompanhamento
da prisão do jogador, subitamente alçado a celebridade
nos pampas de sua terra, afora as agressões dos torcedores
em campo estendidas ao Brasil.
Há uma “consistência cultural” nas
atitudes e no campo fértil para a xenofobia. Assim,
por exemplo, no Brasil, nos casos de violência doméstica,
por mais terrível que seja o havido, prevalece o dito “em
briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.
Ou seja, enquanto as coisas são “entre nós”,
deixamos por isso mesmo, e o racismo pode comemorar séculos.
Mas que não venha o estrangeiro (ainda mais argentino),
daí não deixamos barato!
Um nacionalismo exacerbado, tosco e ignorante é a base
psico-político-cultural para toda manifestação
de xenofobia e formas contemporâneas de intolerância.
No caso brasileiro, por muitas conveniências históricas
pronunciadas ou não, construiu-se uma imagem de quem é “o
brasileiro”, que dificilmente encontra expressão
na realidade. Mas quem procura se enquadrar a ela reage toda
vez que percebe o gosto e o cheiro da diversidade. Sendo um
racismo de base sutil e volátil — como gases invisíveis,
porém efetivos, que podem provocar explosões
desastrosas —, fermenta dentro de uma intolerância
insidiosa e disfarçada, ao mesmo tempo em que colabora
para disseminá-la. Engolfa as melhores possibilidades
democráticas do Brasil, antes da agressão certeira
que faz às identidades individuais e coletivas.
O ataque que os dois jovens gaúchos judeus e seu amigo
sofreram quase os matou, mas é anterior a eles. É,
sobretudo, o ódio ao próprio Brasil e suas possibilidades
democráticas, ao que somos e ao que temos como maior
valor.
* Roseli Fischmann é professora do Programa de Pós-Graduação
em Educação da USP e Visiting Scholar da Harvard
University.