Condoleeza vem cobrar
Por: Nahum Sirotsky

De Israel — A secretária de Estado, Condoleeza Rice, está vindo a Israel e Palestina nos dias 18 e 19. Curiosamente, ao que se anuncia o primeiro-ministro Sharon e Abu Mazen, presidente da Autoridade Palestina, tem encontro marcado para Jerusalém, um dia depois. Nada mais lógico imaginar que está vindo para reafirmar pessoalmente, em nome do presidente Bush, que a reunião do israelense com o palestino tem de ser bem sucedida como planejado.

Não se conhecem os detalhes do decidido em Washington, durante as visitas de Sharon e, posteriormente Abu Mazen, ao presidente Bush. Mas o líder palestino adiou as eleições para o seu parlamento que seriam em julho. Não marcou nova data. Terá sido das coisas decididas na Casa Branca? O presidente da Autoridade Palestina aceitou o risco de irritar a liderança da oposição fundamentalista islâmica. O Hamas, a principal e mais influente no meio do povo, contava eleger fortíssima bancada. Seria um desastre para o plano Sharon de retirar colonos israelenses da Faixa de Gaza e de segmentos da Cisjordânia. É muito determinada a oposição de setores israelenses a tal decisão. Manifestações ocorrem diariamente. Alegam os oposicionistas que a retirada de Gaza só facilitará infiltrações de grupos fundamentalistas islâmicos. Não levará a mais segurança.

Vive o país uma fase de relativa tranqüilidade. O Hamas assumiu com Abu Mazen respeitar um cessar-fogo em troca de concessões que nunca foram reveladas. Não incluíam adiar eleições que tendem a aumentar o poder político do grupo fundamentalista que até o momento não declarou aceitar a existência do estado judeu. Um cessar-fogo não é garantia de acordo. O Jihad, um grupo menor, nem cessar-fogo admitiu. E, ao que se sabe, vem tentando infiltrações que têm sido impedidas pelos serviços de segurança israelense. Uma grande bancada do Hamas, em eleições que estavam previstas para julho, poderia ser um gigantesco obstáculo à retirada prevista para a segunda quinzena de agosto.

Condoleeza Rice não vem fazer carinho. Vem dizer, certamente, que a Casa Branca quer o que Sharon e Abu Mazen terão prometido. Nas relações internacionais existem sempre o que se divulga e o que se decide a portas fechadas. É o equivalente ao que se diz dos políticos de que têm eles a cara pública e a privada, sempre duas. No final das contas é a privada que acaba se revelando como mais verdadeira. Como os entendimentos mais decisivos na história dos países.
A sra. Rice tem as mãos cheias de problemas e tarefas. Ela sairá dos encontros com Sharon e Abu Mazen em Jerusalém e Ramala para a reunião de Bruxelas, dia depois. A agenda e demais detalhes da reunião na capital belga, que é a da Europa, foram detalhadas em reunião no Cairo, no dia dois passado. Estados Unidos, Egito, Japão, Rússia, Nações Unidas e União Européia ouviram a delegação iraquiana. A conferência de Bruxelas deve reunir 80 países e organizações internacionais diversas para ouvirem a exposição do atual governo iraquiano interino sobre seus planos e projetos até a realização das eleições que devem eleger um Parlamento do qual sairá, esperançosamente, o primeiro governo a administrar o Iraque pelos próximos quatro ou mais anos. O governo atual dirá da ajuda e apoio internacional de que carece.

Em dois meses, ou cerca de, o Iraque vai realizar o julgamento de Saddam Hussein e sua gente. Saddam será acusado até de genocídio, Será um julgamento demorado. Um processo para demonstrar aos povos que os americanos derrubaram um perigoso criminoso. Um julgamento que pode instabilizar ainda mais o Oriente Médio agitado por idéias antitotalitárias que, espera o Ocidente, fluam para sistemas seculares democráticos e havendo riscos do oposto. Imprevisível...
Não faltam desafios para Condoleeza. Aqui e pelo mundo.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.