A primeira conferência sul-americana árabe terminou
no Brasil com ganhos muito duvidosos: aprovou uma declaração
que pode ser lida como uma justificativa tácita do terrorismo
e importou as tensões políticas do Oriente Médio
para a América Latina, onde judeus e árabes têm
convivido em harmonia durante séculos.
Supunha-se que o resultado tivesse sido diferente. Em janeiro,
quando demos a conhecer nesta coluna o primeiro rascunho da
proposta declaração da conferência e alertamos
que continha parágrafos propostos pela Liga Árabe
que representavam um respaldo tácito ao terrorismo,
funcionários brasileiros me disseram que não
permitiriam que a dita linguagem permanecesse na declaração
final.
Segundo asseguraram-me, a conferência, que contou com
34 chanceleres e vários chefes de Estado, se propunha
promover relações econômicas e comerciais
entre ambas as regiões. E o Brasil também queria
aproveitar a ocasião para reforçar sua campanha
diplomática para obter um assento permanente no Conselho
de Segurança das Nações Unidas, me disseram.
Bom, adivinhem o que aconteceu? Depois de dois dias de reuniões
em Brasília, nos quais os líderes sul-americanos
falaram principalmente sobre comércio e os líderes árabes
falaram principalmente sobre Israel, aprovou-se uma declaração
final altamente politizada que apenas dilui um pouco os horrores
do rascunho inicial. A declaração final parece
um catálogo unidimensional das queixas árabes
contra Israel e pode-se interpreta-la como uma justificação
da violência contra civis.
Ainda que a declaração contenha uma condenação
ao terrorismo em geral, reconhece “o direito dos estados
e povos em resistir à ocupação estrangeira,
de acordo com os princípios de legalidade internacional
e de conformidade com o direito internacional humanitário”.
O problema é que “o direito de resistir à ocupação
estrangeira” é a muleta que usam os extremistas árabes
para fazer explodir bombas nas ruas mais movimentadas do Iraque
ou ônibus escolares cheios de crianças em Tel
Aviv. Também tem sido usada pelos narcoguerrilheiros
na Colômbia para lançar carros-bomba nas ruas
de Bogotá e pelos terroristas que fizeram explodir um
avião comercial da Cubana de Aviación em 1976.
Questionado sobre se a Declaração de Brasília
não representava um respaldo a certas formas de terrorismo,
o chanceler brasileiro Celso Amorim respondeu aos repórteres
que o apoio da conferência ao “direito de resistir à ocupação
estrangeira” está balanceado na mesma frase pelo
requerimento de respeitar o direito humanitário internacional.
''Cada um poderá ler da maneira que o entenda'', disse
Amorim.
Esse é, precisamente, o problema, dizem os críticos.
Numa entrevista telefônica, a partir de Brasília,
onde esteve observando a conferência, o diretor do Centro
Wiesenthal para América Latina, Sérgio Widder,
me disse que “o fato do próprio ministro das Relações
Exteriores do Brasil legitimar essa ambigüidade, dizendo
que qualquer um pode ler a declaração final como
queira, abre a porta para que os grupos terroristas se sintam
apoiados pela comunidade da América do Sul”.
“É
uma grande decepção”', declarou Dina Siegel
Vann, diretora para a América Latina do Comitê Judaico
Americano, um grupo de direitos humanos com sede em Nova York. “Foi
uma excelente oportunidade para que os países sul-americanos
e árabes tratassem dos problemas comuns de desenvolvimento
e foi utilizada para avançar agendas políticas
que nada têm a ver com a América Latina”.
Assim mesmo, a declaração final da conferência
pede às Nações Unidas que convoque uma
conferencia internacional “para estudar” o terrorismo
e “define” o terrorismo.
Essa terminologia preocupa os grupos de direitos humanos, porque
sugere que poderia existir algo assim como um terrorismo “bom”.
A rigor, o terrorismo é a matança de civis a
qualquer pretexto político, não importa qual
seja.
Minha conclusão: o impacto mais daninho desta primeira
conferência sul-americana árabe é que trouxe à América
Latina o conflito do Oriente Médio. Até agora,
os ao redor de 450 mil judeus e 17 milhões de árabes
que vivem na região conviveram numa exemplar harmonia,
em parte graças ao entendimento de que o lugar para
dirimir os conflitos do Oriente Médio são as
Nações Unidas e o próprio Oriente Médio.
Minutos após o término da conferência,
a Confederação Israelita do Brasil condenou o
encontro por haver “importado para nossa região
uma guerra que não é nossa” e por “justificar” o
terrorismo. Assim mesmo, assinalou que a Declaração
de Brasília não fala de democracia, nem de direitos
humanos, nem dos direitos das mulheres “que são
sistematicamente violados” pela maior parte dos países árabes
participantes.
Isso será só o princípio, já que
as organizações árabes não vão
tardar em responder. O Brasil organizou esta conferência
com o nobre propósito de aumentar o comércio
com o mundo árabe, mas fizeram-lhe um gol na mesa de
negociações e agora colocou a região numa
embrulhada que antes não havia.
* Andres Oppenheimer é colunista de assuntos exteriores
e membro da equipe de jornalistas do jornal The Miami Herald
que ganhou em 1987 o Prêmio Pulitzer. Ele também
ganhou o Prêmio Ortega y Gasset em 1993, em 1999 o Prêmio
Maria Moors Cabot e o prêmio rei da Espanha em 2001.
Ele é o autor dos livros Castro's Final Hour; Bordering
on Chaos, sobre a crise do México; Crônicas de
heróis e bandidos e Olhos vendados. Oppenheimer publica
sua coluna “Informe Oppenheimer” todas os domingos
e quintas-feiras nos jornais The Miami Herald e El Nuevo Heraldo,
de Miami.
Publicado em 12 de maio de 2005