A Liga Árabe fez um gol na América do Sul
Por: Andres Oppenheimer

A primeira conferência sul-americana árabe terminou no Brasil com ganhos muito duvidosos: aprovou uma declaração que pode ser lida como uma justificativa tácita do terrorismo e importou as tensões políticas do Oriente Médio para a América Latina, onde judeus e árabes têm convivido em harmonia durante séculos.

Supunha-se que o resultado tivesse sido diferente. Em janeiro, quando demos a conhecer nesta coluna o primeiro rascunho da proposta declaração da conferência e alertamos que continha parágrafos propostos pela Liga Árabe que representavam um respaldo tácito ao terrorismo, funcionários brasileiros me disseram que não permitiriam que a dita linguagem permanecesse na declaração final.

Segundo asseguraram-me, a conferência, que contou com 34 chanceleres e vários chefes de Estado, se propunha promover relações econômicas e comerciais entre ambas as regiões. E o Brasil também queria aproveitar a ocasião para reforçar sua campanha diplomática para obter um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, me disseram.

Bom, adivinhem o que aconteceu? Depois de dois dias de reuniões em Brasília, nos quais os líderes sul-americanos falaram principalmente sobre comércio e os líderes árabes falaram principalmente sobre Israel, aprovou-se uma declaração final altamente politizada que apenas dilui um pouco os horrores do rascunho inicial. A declaração final parece um catálogo unidimensional das queixas árabes contra Israel e pode-se interpreta-la como uma justificação da violência contra civis.

Ainda que a declaração contenha uma condenação ao terrorismo em geral, reconhece “o direito dos estados e povos em resistir à ocupação estrangeira, de acordo com os princípios de legalidade internacional e de conformidade com o direito internacional humanitário”.

O problema é que “o direito de resistir à ocupação estrangeira” é a muleta que usam os extremistas árabes para fazer explodir bombas nas ruas mais movimentadas do Iraque ou ônibus escolares cheios de crianças em Tel Aviv. Também tem sido usada pelos narcoguerrilheiros na Colômbia para lançar carros-bomba nas ruas de Bogotá e pelos terroristas que fizeram explodir um avião comercial da Cubana de Aviación em 1976.

Questionado sobre se a Declaração de Brasília não representava um respaldo a certas formas de terrorismo, o chanceler brasileiro Celso Amorim respondeu aos repórteres que o apoio da conferência ao “direito de resistir à ocupação estrangeira” está balanceado na mesma frase pelo requerimento de respeitar o direito humanitário internacional. ''Cada um poderá ler da maneira que o entenda'', disse Amorim.

Esse é, precisamente, o problema, dizem os críticos. Numa entrevista telefônica, a partir de Brasília, onde esteve observando a conferência, o diretor do Centro Wiesenthal para América Latina, Sérgio Widder, me disse que “o fato do próprio ministro das Relações Exteriores do Brasil legitimar essa ambigüidade, dizendo que qualquer um pode ler a declaração final como queira, abre a porta para que os grupos terroristas se sintam apoiados pela comunidade da América do Sul”.

“É uma grande decepção”', declarou Dina Siegel Vann, diretora para a América Latina do Comitê Judaico Americano, um grupo de direitos humanos com sede em Nova York. “Foi uma excelente oportunidade para que os países sul-americanos e árabes tratassem dos problemas comuns de desenvolvimento e foi utilizada para avançar agendas políticas que nada têm a ver com a América Latina”.

Assim mesmo, a declaração final da conferência pede às Nações Unidas que convoque uma conferencia internacional “para estudar” o terrorismo e “define” o terrorismo.

Essa terminologia preocupa os grupos de direitos humanos, porque sugere que poderia existir algo assim como um terrorismo “bom”. A rigor, o terrorismo é a matança de civis a qualquer pretexto político, não importa qual seja.
Minha conclusão: o impacto mais daninho desta primeira conferência sul-americana árabe é que trouxe à América Latina o conflito do Oriente Médio. Até agora, os ao redor de 450 mil judeus e 17 milhões de árabes que vivem na região conviveram numa exemplar harmonia, em parte graças ao entendimento de que o lugar para dirimir os conflitos do Oriente Médio são as Nações Unidas e o próprio Oriente Médio.

Minutos após o término da conferência, a Confederação Israelita do Brasil condenou o encontro por haver “importado para nossa região uma guerra que não é nossa” e por “justificar” o terrorismo. Assim mesmo, assinalou que a Declaração de Brasília não fala de democracia, nem de direitos humanos, nem dos direitos das mulheres “que são sistematicamente violados” pela maior parte dos países árabes participantes.

Isso será só o princípio, já que as organizações árabes não vão tardar em responder. O Brasil organizou esta conferência com o nobre propósito de aumentar o comércio com o mundo árabe, mas fizeram-lhe um gol na mesa de negociações e agora colocou a região numa embrulhada que antes não havia.

* Andres Oppenheimer é colunista de assuntos exteriores e membro da equipe de jornalistas do jornal The Miami Herald que ganhou em 1987 o Prêmio Pulitzer. Ele também ganhou o Prêmio Ortega y Gasset em 1993, em 1999 o Prêmio Maria Moors Cabot e o prêmio rei da Espanha em 2001. Ele é o autor dos livros Castro's Final Hour; Bordering on Chaos, sobre a crise do México; Crônicas de heróis e bandidos e Olhos vendados. Oppenheimer publica sua coluna “Informe Oppenheimer” todas os domingos e quintas-feiras nos jornais The Miami Herald e El Nuevo Heraldo, de Miami.
Publicado em 12 de maio de 2005