“As Invasões Bárbaras”,
do canadense Denys Arcand, é considerado um dos
melhores filmes da carreira do diretor, que ficou conhecido
do público brasileiro por seu trabalho mais famoso, “O
Declínio do Império Americano”. Os
personagens de O Declínio, de 1986, voltam para
o reencontro do protagonista Rémy (Rémy Girard),
professor universitário que se encontra gravemente
doente. Internado num hospital de corredores superlotados,
ele vive o inferno da assistência pública — o
que deflagra a crítica demolidora de Arcand contra
as instituições. Não restará pedra
sobre pedra na certeira ironia dirigida impiedosamente
contra o Estado, a polícia, a Igreja e a família,
esta representada pelos parentes do professor que se organizam
para lhe dar maior conforto, já que sua morte parece
inevitável. O filme é, basicamente, a construção
da cerimônia do adeus deste intelectual cínico,
que flertou com todas as mulheres e todos os ideais da
revolução esquerdista do século 20.
A certa altura ele se pergunta, com seus amigos, se houve
algum "ismo" em que não se engajaram,
passando pelo marxismo, leninismo, maoísmo, trotskismo,
entre outros. "Só faltou o cretinismo",
lembra alguém. Outra relação abordada
em “As Invasões” é a do filho
de Rémy, Stéphane (Stéphane Rousseau),
com o professor. Stéphane é o tipo do especulador
financeiro que fez fortuna e simboliza o capitalismo triunfante
e sem fronteiras que vingou logo após a queda do
Muro de Berlim. Com seu dinheiro farto, compra tudo e todos
para dar conforto aos últimos dias do pai. Inclusive
uma velha amiga de infância, agora junkie, que traz
heroína para aliviar as fortes dores de Rémy.
Mergulhando assim na amoralidade, o filme poderia cair
num cinismo mais desenfreado. A grande sacada é que
não o faz, criando janelas com o mais saboroso humor — os
diálogos são uma preciosidade — e uma
emoção profunda em muitas cenas desse pai
que está se despedindo da vida junto a seus amigos,
seu filho, sua ex-mulher (Dorotée Berryman) e suas
duas amantes favoritas.
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