Visão Judaica - Edição N° 24
:.Por que o judaísmo sobreviveu através dos tempos? .:

 

Por: Sergio Feldman

Um dilema perpassa a existência do Judaísmo e sua sobrevivência através dos tempos. Como entender e explicar a sua incomum resistência e sua capacidade de sobreviver a tantas e tão acirradas perseguições? Uma das explicações mais usuais seria que o Judaísmo é divinamente escolhido e que o pacto de D-us com seu povo, o faz ser uma religião sui generis, se tornando única e “eleita”, obtendo desta relação privilegiada, as energias mentais e espirituais para superar todas as adversidades. Uma predestinação divina que acabou por gerar uma certa superioridade. Pessoalmente não creio e nunca acreditei em superioridade de nenhum tipo. O último que pregou superioridade, matou cerca de seis e meio milhões de judeus, e muitos mais milhões de seres humanos, em uma guerra violenta e desumana. Não creio que nenhum ser humano possa ser superior, ou melhor, do que outro, mesmo sendo diferente em alguns ou em muitos aspectos de sua cultura ou estilo de vida.
Outra explicação nos é oferecida pela historiografia e pelo pensamento marxista. Karl Marx, na sua obra “A questão judaica”, de maneira pouco precisa, ignora toda a questão espiritual e ética, define que “o judaísmo não tem se conservado apesar da história, mas por intermédio desta”. Marx acredita que a sociedade discriminou os judeus, mas que a função dos judeus, foi a de um “povo classe”, o que os fez ser separados do resto da população. Isso os manteve como um grupo separado e segregado. Afirma que o fim do capitalismo aceleraria o desaparecimento da “questão judaica”. De maneira simplista, podemos afirmar que Marx minimiza a problemática, ao reduzir a sobrevivência do Judaísmo a uma questão de estruturas sócio-econômicas. Tentaremos enveredar por outra linha reflexiva e utilizar outros critérios: a explicação metafísica nos parece muito etérea, e a visão dialética se reduz a um materialismo, muito simplista e superficial.
Nossa explicação admite que não há uma razão única e absoluta para essa questão. Há diversas razões e há certa variedade de interpretações. Uma destas será por nós sugerida, a guisa de reflexão.
A capacidade judaica de se transformar e de evoluir nas suas “formas”, sem alterar o seu “conteúdo” global e nem sua “essência”, seria a parte fundamental desse enigma da sobrevivência do Judaísmo, ao nosso ver. Os judeus e o Judaísmo foram seguidamente confrontados com inimigos que ora tentavam destruir os judeus (Amalek, o simbólico Haman ou o genocida Hitler) e ora tentavam seduzir o Judaísmo com valores e saberes de outras culturas. Um destes casos de encontro seria o Helenismo, cultura avançada e repleta de refinados saberes e de imenso valor. O encontro do Judaísmo e do Helenismo alternou confrontos tensos e trocas culturais preciosas. O confronto está retratado na luta dos Macabeus (ou Hashmoneus) contra a dinastia selêucida no século II a. E.C. Esse confronto foi retratado no livro dos Macabeus e relatado de maneira simbólica na festa de Chanucá. Os reis selêucidas tentam impor a helenização aos judeus de Israel, mas encontraram na família dos Hashmoneus, uma resistência armada. Após uma prolongada guerra de guerrilhas, sob a liderança de Iehudá HaMacabi (Judá o Macabeu), acabam por vencer e expulsar os sírios selêucidas e restaurar o culto no Templo e a liberdade religiosa. A estória de Chanucá acaba aqui, mas a história prossegue adiante. Os reis da dinastia hashmonéia acabarão por se tornar reis ao modelo helenístico. Alexandre Yanai, rei hashmoneu chega a converter a força alguns dos povos conquistados, se esquecendo que a revolta dos Macabeus se decretara em nome da liberdade religiosa. Na seqüência, ocorre o inevitável: as culturas se encontram e se influenciam mutuamente. O Judaísmo e Helenismo se aproximam e trocam saberes e valores. Um exemplo é a tradução da Torá (Pentateuco ou Lei ou cinco livros de Moisés) à língua grega, em projeto patrocinado pelo rei Ptolomeu do Egito. Isso aproximou os gregos da Torá e os judeus helenizados ao Judaísmo, já que não sabiam mais o hebraico. A cidade de Alexandria é o grande foco deste encontro, ora tenso e violento, ora enriquecedor. Já no primeiro século a. E. C., Filon de Alexandria, sábio judeu, conciliou as idéias metafísicas de Platão com a Torá e os Profetas. O Judaísmo progrediu e ampliou seus horizontes: enfrentou as críticas e teve que ser repensado: assim adquiriu consistência e coerência. Isso seguirá através dos séculos, quando sábios judeus medievais, tentaram dialogar com a filosofia grega e comprovar a verdade de suas crenças através de postulados filosóficos. Isso não foi feito de maneira fácil: as duas correntes culturais/espirituais eram antagônicas e por vezes a contradição entre a filosofia grega e a religião judaica era aparentemente irreconciliável. As alas anacrônicas do Judaísmo fugiram deste debate tentando ensimesmar o Judaísmo em um casulo: isolar para não contaminar a fé pura e verdadeira com as “impurezas” dos filósofos gregos. Isso se repetiu por toda a História Judaica: são ciclos de abertura e fechamento que se repetem, dependendo do momento e das condições. O fechamento sempre trouxe atraso, fraqueza e cegueira espiritual. Um exemplo disto foi a revolta de 66 – 70 d. E. C. na qual os judeus tiveram que enfrentar os inimigos romanos. Diante da inevitável derrota e da possibilidade de se render aos romanos, os radicais zelotes prevalecem e levam a luta até seu final trágico. Divide-se o poder em lutas fratricidas e mantém-se a luta até a destruição do Segundo Templo. No dizer de Simon Dubnow, um autor já considerado superado, mas sempre referenciado por pesquisadores, a divisão e o radicalismo foram fatais para a derrota dos judeus e para a destruição de Jerusalém e do Templo: “em vez de aliarem-se todos este partidos em uma luta contra o inimigo comum, travaram um combate violento entre si mesmos” (História Judaica, cap. 20, p. 232). Nem se uniram e nem se renderam: se autodestruíram e facilitaram a vitória romana e a destruição da cidade, do Templo e o massacre do povo.
Outro exemplo marcante vem de uma grande e celebrada personagem, o renomado e genial filósofo, médico e rabino medieval Maimônides (também conhecido como Rambam). Apesar de sua genialidade, de seu Judaísmo refinado e erudito, foi criticado por inúmeros rabinos de sua geração e de outras posteriores. Por que? Maimônides seguiu a senda de Fílon de Alexandria e de Saadia Gaon, fazendo uma sofisticada síntese entre o Judaísmo e a filosofia grega, tentando conciliar as contradições. Alguns anos após a sua morte surge a polêmica fomentada por rabinos tradicionalistas que consideravam a sua síntese como perniciosa e herética. Sua obra “Guia dos Perplexos” foi proibida e exorcizada, por se tratar da lavra de um “livre pensador”. Os rabinos liderados pelo rabi Salomão de Montpellier, denunciaram as obras de Maimônides à Inquisição. Como o Santo Ofício da Inquisição não tratava de judeus, mas sim de heréticos, utilizaram-se de uma repulsiva acusação, de que se tratava de uma heresia judaica e deveria ser debelada para que não contaminasse os cristãos e originasse uma heresia semelhante no seio da Cristandade (Dubnow, História Judaica, cap. 29, p. 347). Em 1232, sob a supervisão de rabinos judeus, os freis dominicanos coletaram e queimaram em Montpellier, uma pilha de exemplares do “Guia dos Perplexos”, obra mestre de Maimônides. Judeus usando da Inquisição para queimar livros judaicos é o auge da intolerância, contra a síntese do Judaísmo e dae filosofia grega. Por sinal tivemos a queima de livros judaicos inspiradas neste gesto através da Idade Média e na década de 1930, sob a égide do Nazismo. Que belos exemplos deram os sábios anti-Rambam! O pensamento de Maimônides sobreviveu a seus perseguidores. Algumas de suas idéias estão inseridas no livro de orações: Igdal e Ani Maamin, são dois exemplos da perenidade de sua reflexão filosófica judaica. Em seu contexto histórico foi a capacidade de adaptação do judaísmo que permitiu sua sobrevivência. Queimaram os livros de Rambam, mas não suas idéias e nem sua abertura de horizontes.
Outro exemplo foi o genial rabi Israel ben Eliezer, também denominado Baal Shem Tov. Fundador do Chassidismo, do qual veio a se derivar o atual Beit Chabad. Um grande e inspirado rabino, repleto de uma sensibilidade ímpar e de compreensão da realidade dos seus irmãos judeus da Polônia, e que realizou uma revolução espiritual e social no Judaísmo de sua época. Ciente da crise que tomava o universo social dos judeus poloneses por causa dos massacres promovidos pelos cossacos em 1648/1651, tratou de propor uma nova forma e uma nova concepção de Judaísmo. As massas judaicas atingidas pela violenta destruição de suas comunidades em meados do século XVII sofrerão seus efeitos por mais de três séculos. A pauperização das massas se reflete no empobrecimento cultural e no esvaziamento do saber judaico. A miséria se espelha na ignorância que fazia com que os judeus não conseguissem estudar a Torá e o Talmud. Baal Shem Tov encontrou formas de permitir a estes judeus, famintos e ignorantes, seguirem sendo judeus, mesmo sem poderem ser sábios e sequer letrados. Através do Chassidismo, criou maneiras de ser judeu praticando a oração, a dança, a música, como opções para se aproximarem da divindade, mesmo sendo pobres e ignorantes. Genial e sensível líder espiritual, Baal Shem Tov e seus seguidores foram condenados e perseguidos pelos rabinistas liderados pelo sábio Elias, o Gaon de Vilna. Este grupo coletou e incinerou as obras dos chassidim (Dubnow, cap. 35, p. 441/442). Outra vez uma rigidez e uma cegueira dirigida por sábios judeus contra as inovações e as adaptações do Judaísmo à realidade. A capacidade de se adaptar mostra a grandeza de Maimônides e de Baal Shem Tov: mudar para sobreviver, mas sem perder a essência.
Hoje muitos se dizem herdeiros de Maimônides e de Baal Shem Tov, só que agem da mesma forma que seus detratores de então. A diversidade e a evolução só podem fortalecer o judaísmo. A capacidade de se adaptar e evoluir serviu para sedimentar o Judaísmo e ampliar seu universo. O fechamento em guetos espirituais nunca nos ofereceu novos horizontes, só cegueira e intolerância. Temos que aprender a criar novas “formas” nos “conteúdos” tradicionais. Ser judeu não é ser cegamente obediente a normas e comportamentos de nossos antepassados, mas sim ser inseridos no mundo, na realidade e na contemporaneidade e encontrar no Judaísmo as forças espirituais para analisar e criticar este mundo. Isolar-se e negar o mundo seria uma falsa solução. Dialogando com o mundo o Judaísmo sobreviveu e conseguiu sua identidade de religião, cultura e nacionalidade. Oxalá possamos ser dignos herdeiros de Maimônides, Baal Shem Tov, Iochanan Ben Zakai e muitos outros visionários que não permitiram o engessamento ritualístico e legalista do Judaísmo e possibilitaram sua adaptação a novos tempos e a realidades diversas.

*Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.



 

 

Voltar