Em carta ao rabino-chefe lembra sua histórica visita de
1989, fala da Shoá e da Nostra aetate, e condena o anti-semitismo
O Papa João Paulo II endereçou carta ao rabino-chefe
de Roma, Riccardo Di Segni, por ocasião do centenário
da Sinagoga de Roma, em 24 de maio do corrente. Com um cordial
shalom, o Papa iniciou sua correspondência, fazendo citações
inclusive em hebraico, afirmando, por exemplo: “Hinneh ma
tov u-ma na‘im, shevet akhim gam yakhad!” (Salmo 133
[132], 1) que quer dizer: “Veja como é bom, como é agradável
os irmãos conviverem juntos!”
Em outro trecho de sua extensa correspondência, João
Paulo II escreveu: “Com íntima alegria uno-me à comunidade
judaica de Roma que está em festa ao celebrar os cem anos
do Templo Maior, símbolo e recordação da milenar
presença nesta cidade do povo da Aliança do Sinai.
Há mais de dois mil anos, vossa comunidade forma parte da
vida da cidade; pode estar orgulhosa de ser a comunidade judaica
mais antiga da Europa ocidental e de ter tido uma função
relevante na difusão do judaísmo neste continente.
Portanto, a comemoração de hoje assume um significado
particular para a vida religiosa, cultural e social da capital
e não pode deixar de ter uma ressonância totalmente
especial no coração do bispo de Roma! Ao não
poder participar pessoalmente, pedi que me representasse nesta
celebração meu vigário-geral para a diocese
de Roma, o cardeal Camillo Ruini, acompanhado pelo presidente da
Comissão da Santa Sé para as Relações
com o Judaísmo, o cardeal Walter Kasper. Eles expressam
concretamente meu desejo de estar convosco neste dia”.
Dirigindo-se especialmente a rabino-chefe de Roma, o Papa declarou: “Ao
dirigir-lhe minha diferente saudação, ilustre doutor
Riccardo Di Segni, faço chegar meu cordial pensamento a
todos os membros da comunidade, a seu presidente, o engenheiro
Leone Elio Paserman, e a todos que se congregaram para testemunhar
uma vez mais a importância e o vigor da herança religiosa
que se celebra todos os sábados no Templo Maior. Quero dirigir
uma saudação particular ao grão rabino emérito,
o professor Elio Toaff, que com espírito aberto e generoso
me recebeu na sinagoga com motivo de minha visita de 13 de abril
de 1989. Aquele acontecimento ficou esculpido em minha memória
e em meu coração como um símbolo da novidade
que caracterizou nas últimas décadas as relações
entre o povo judeu e a Igreja Católica, após períodos
em ocasiões difíceis e convulsionadas... “
Ainda relembrando a histórica visita que fez à Sinagoga
de Roma, João Paulo II observou que, “percorremos
um bom caminho juntos desde aquele 13 de abril de 1986, quando
pela primeira vez o bispo de Roma vos visitou: foi o abraço
dos irmãos que se voltaram a encontrar depois de um longo
período no qual não faltaram incompreensões,
rejeições e sofrimentos. A Igreja Católica,
com o Concílio Vaticano II, convocado pelo beato João
XXIII, em particular após a declaração “Nostra
aetate” (28 de outubro de 1965), abriu-vos seus braços...
No Concílio Vaticano II, a Igreja confirmou de maneira clara
e definitiva a rejeição do anti-semitismo em todas
suas expressões. Contudo, não é suficiente
o dever de deplorar e condenar as hostilidades contra o povo judeu
que com freqüência caracterizaram a história; é necessário
fomentar também a amizade, a estima e as relações
fraternas. Estas relações amistosas, que foram reforçadas
e que cresceram após o Concílio do século
passado, unem-nos na lembrança de todas as vítimas
da Shoá, em particular, dos que em outubro de 1943 foram
arrancados se suas famílias e de sua querida comunidade
judaica romana para serem internados em Auschwitz. Que sua lembrança
seja uma benção e nos leve a atuar como irmãos...
A percorrer com a ajuda do céu este caminho de fraternidade,
a Igreja não duvidou em “deplorar as faltas de seus
filhos e de suas filhas de toda época”, e com um ato
de arrependimento (teshuvá) pediu perdão por suas
responsabilidades que podem estar de qualquer maneira relacionadas
com as pragas do antijudaísmo e do anti-semitismo (ibidem).
Durante o grande Jubileu invocamos a misericórdia de D-us,
na Basílica sagrada em memória de Pedro em Roma,
e em Jerusalém, a cidade amada por todos os judeus, coração
dessa Terra que é santa para todos nós. O sucessor
de Pedro subiu como peregrino às montanhas de Galiléia,
rendeu homenagem às vítimas da Shoá em Yad
Vashem, rezou junto a vós no monte de Sião, aos pés
do lugar santo...
Falando sobre a Paz, o Papa disse: “Temos de percorrer ainda
muito caminho: o D-us da justiça e da paz, da misericórdia
e da reconciliação, chama-nos a colaborar sem reservas
em nosso mundo contemporâneo, dilacerado por confrontos e
inimizades. Se soubermos unir nossos corações e nossas
mãos para responder ao chamado divino, a luz do Eterno se
aproximará para iluminar todos os povos, mostrando-nos os
caminhos da paz, ‘Shalom’. Quiséramos percorrê-los
com um só coração”.
E sobre a perspectiva de um trabalho conjunto em prol da valorização
da vida e da ajuda aos menos favorecidos, acrescentou: “Podemos
fazer muito juntos, não só em Jerusalém e
na Terra de Israel, mas também aqui, em Roma: a favor dos
que sofrem a nosso lado por causa da marginalização,
dos imigrantes, dos estrangeiros, dos fracos e indigentes. Compartilhando
os valores pela defesa da vida e da dignidade de toda pessoa humana,
poderemos fazer que cresça nossa cooperação
fraterna...”
A carta entregue ao rabino Segni pelos representantes do Pontífice
e do Vaticano é datada de 22 de maio de 2004 e assinada
por Ioannes Paulus II. (Tradução realizada por Zenit).