Visão Judaica - Edição N° 25
:. Não tema o medo repentino (Provérbios 3:25).:

Por:
Sami Goldstein *

Com a insistência do povo e a permissão de D-us, Moisés envia doze espiões, um de cada tribo, para investigar a terra de Canaã. Eles retornam após 40 dias, trazendo consigo frutas de proporções gigantescas. Quando dez dos doze espiões afirmam que os moradores daquela terra são tão enormes quanto aquelas frutas, o povo de Israel perde a coragem. Calev e Josué – os únicos espiões a favor da invasão – tentam levantar a moral do povo, mas este, contudo, decide que a terra não vale o risco e, com isso, decidem retornar ao Egito, uma vez que lá, pelo menos, tinham peixes, frutas e legumes de graça (belo argumento, não?). Moisés ora a D-us para que não os aniquile e é decretado que toda aquela geração perambule por 40 anos pelo deserto (1 ano para cada dia da viagem dos espiões), até que ninguém que tenha ouvido a difamação da terra sobreviva.
Uma narrativa realmente fantástica. No entanto, uma pergunta me intriga: de quem foi a culpa? Dos espiões? Acaso não era sua missão contar com detalhes tudo o que haviam visto? Por que a Torá os condena, bem como toda aquela geração, a tão severa punição? O povo, então, é culpado pela discussão gerada? Dificilmente, pois, como já vimos desde a saída do Egito, não houve praticamente qualquer momento sem contestações ou até mesmo rebeliões. Portanto, voltamos à questão inicial: qual foi o erro que sentenciou aquela geração a não entrar na Terra Prometida?
A resposta é bem simples: medo! A falha dos espiões não foi contar o que testemunharam: esta era sua tarefa. “Não poderemos contra aquele povo” (Números 37:31) – acrescentaram, entretanto: este foi o problema! Antes mesmo de partir para a conquista, deram-se por derrotados. O povo que, por sua vez, havia presenciado inigualáveis maravilhas até então, deixou-se dominar pelo temor de uma nova situação.
Por que tantas vezes estamos prestes a conquistar a tão almejada vitória e acabamos falhando? O que faz isto acontecer? Será que temos medo de vencer? Vencer e atingir metas pessoais ou satisfazer e incorporar exigências e ideais externos, subjugando-nos? Este hipotético medo de “vencer” é bem claro no nosso dia-a-dia. Quantas vezes entramos em “batalhas” com a certeza da derrota? Muitas vezes desistimos de projetos por acreditarmos não sermos capazes de levá-los a cabo com sucesso, não é mesmo?
Acredito que todos já tenham ouvido falar de Stephen Hawking, conhecido como o “Einstein” de nossos tempos. Em meados de 1970, quando estava prestes a completar seu doutorado em Física, o cientista – já então portador de uma doença que ia paralisando seus movimentos – escutou um médico dizer que tinha apenas dois anos de vida. Eu imagino (ou melhor, nem imagino!) o súbito MEDO (com letras bem maiúsculas) que passou por sua cabeça naquele instante! Porém, ele tomou uma atitude: “então posso tentar entender o universo, porque não vou mais precisar pensar em coisas como aposentadoria e contas a pagar”, resolveu. Como a doença progredia rapidamente, foi obrigado a criar fórmulas simples para explicar – no menor espaço de tempo possível – tudo aquilo que pensava.
Dois anos e meio se passaram, 20 anos... E Hawking continua vivo. É capaz de comunicar suas idéias abstratas por meio de um pequeno computador acoplado à sua cadeira de rodas e que possui apenas 500 palavras. E, ainda por cima, escreveu o clássico “Uma Breve História do Tempo”. A doença, o medo, em vez de conduzi-lo à invalidez total, forçaram-no a descobrir uma nova maneira de raciocínio.
Meu amigo, nossa vida é uma constante jornada na qual somos obrigados a carregar nossos temores pessoais na bagagem. E, nesta viagem, somos compelidos a optar: ou dominamos nosso medo ou ele nos domina! Não há outra escolha. Devemos enfrentar todas as situações com a cabeça erguida e espírito cheio de vigor. Ser judeu é ter o slogan “se quiserdes, isto não será uma lenda” (Theodor Herzl) sempre diante de nossos olhos. Afinal, foi assim que chegamos até aqui, não?
E com isso eu concluo (só para não perder o costume): por falar em Josué, sua mensagem no eloqüente discurso após o falecimento de Moisés – quando o povo perdeu seu líder máximo e sentia-se órfão – vale até hoje para nós: “ninguém te poderá resistir todos os dias de tua vida. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei e não te desampararei. Apenas seja corajoso e forte, pois D-us estará contigo por onde quer que andares” (Josué 1:5,9).
Portanto, um bom medo a todos!

* Sami Goldstein é professor e líder espiritual da Sinagoga “Francisco Frischmann”, de Curitiba

 

 

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