Por: Benjamim Kessel
De Jerusalém — "Bem vindos a bordo do vôo 484 com
destino a Minsk, Bielo-Rússia", foi a frase que ouvimos logo
que embarcamos, no dia 1º/4/2004, na aeronave da Beliova Airlines. Éramos
16 bachurim (rapazes) de diversas yeshivot (escola de estudos rabínicos)
de Israel com o objetivo de organizar, oportunizar, fortificar e celebrar
Pêssach (páscoa) nesse país, outrora comunista, que anseia
por judaísmo e onde o movimento Chabad começou há aproximadamente
250 anos.
Nunca pensamos que o anúncio de "afivelar os cintos e ficar atentos
aos sinais luminosos“ seria tão importante. Na hipótese
de não seguirmos essa instrução, não somente
nós, como também toda a nossa poltrona entraria em movimento — não
havia sequer um assento em boas condições. Entretanto, mesmo
assim o vôo estava lotado, refeição casher (conforme
as leis dietéticas judaicas) foi servida e após quatro horas
aterrissamos na capital bielo-russa.
Em terra, e embora ansiosos para conhecer e realizar a missão que
o Rebe nos imbuiu, tivemos de esperar 5 horas para que os vistos fossem emitidos,
já que computador é uma ferramenta de luxo no aeroporto. Além
disso, há uma quota de alimentos que cada passageiro pode carregar
consigo ao entrar no país. É evidente que estávamos
muito além do permitido, não só porque trazíamos
alimentos para os sedarim (ceias da páscoa), para abastecer os membros
da comunidade local, como também para toda a nossa estada no país.
Isso também porque o restaurante e o supermercado mais próximos
da cidade são em Haifa.
Três dias mais tarde e após sermos muito bem recepcionados pela
grande coletividade judaica de Minsk fomos divididos em grupos de três,
com a finalidade de vivermos o exílio judaico do Egito em pequeninas
cidades da Bielo-Rússia.
Após cinco horas de van, em uma estrada, pasmem, asfaltada, um colega
russo, um sul-africano e eu chegamos na cidade de Mozir, no dia 14 de Nissan.
Orientados para nos dirigirmos diretamente ao hotel, aliás, de última
geração (a passada), fomos para o local onde realizaríamos
o seder (ceia) — o saguão alugado de uma escola — para
nos encontrarmos com o chefe da congregação local.
A essas alturas, estávamos na véspera do primeiro seder e ainda
nos restava organizar tudo. Na correria habitual do pré-pêssach,
quando chega o momento de acender as velas, mais precisamente 19h30, horário
local, parece que tudo se acalma e a santidade paira no ar.
A saída das três primeiras estrelas médias seria às
21h30, horário a partir do qual se pode começar a leitura da
Hagadá (relato da história da Páscoa). Ocorre que as
90 pessoas presentes certamente não conseguiriam esperar tanto para
se deliciar com a comida vinda diretamente da Terra Santa.
Sendo assim, e após diversas discussões rabínicas engendradas
ainda em Israel, sobre a possibilidade de alteração da ordem
do seder, diante de tal especial ocasião servimos primeiro a refeição
e depois procedemos a leitura da Hagadá. Entre os presentes, de 20
a 25 jovens, aproximadamente 30 pessoas de meia-idade e 40 de idade um pouco
mais avançada, dentre os quais se misturavam famílias, casais
e solteiros.
Após o haficoman, isso quer dizer um pouco antes da meia-noite, caminhamos
uns trinta minutos em direção ao hotel, onde realizamos o nosso
seder, pois no seder coletivo não tivemos tempo nem de recitar o Ma
Nishtaná. Um jovem da comunidade nos acompanhou no trajeto e nós
o convidamos para o segundo seder, que faríamos no quarto do hotel.
Na manhã do dia seguinte, fomos procurar um local para cumprir a mitsvá (preceito)
de
purificação na mikve (banho ritual) antes do shacharit (oração
matinal). Embora estivéssemos na primavera, na Rússia esse
período é mais frio do que o inverno curitibano. Mesmo assim,
e quase congelando, entramos em um rio e foi um dos mergulhos mais rápidos
das nossas vidas.
A noite, o seder privativo foi muito especial, na companhia do jovem da noite
anterior e de mais quatro amigos.
De volta para Minsk, há um costume Chabad de alegrar a comunidade
com danças e músicas nos dois últimos dias de Iom Tov
(dia santo). Para isso, o Sheliach (emissário) do Rebe no país
contratou oito seguranças para nos acompanhar, enquanto passávamos
pelos lugares mais freqüentados da cidade. Dançávamos
e cantávamos canções em russo, enfatizando o monoteísmo
e orgulhando-nos do fato de sermos judeus. A presença dos seguranças
mantinha afastados os vários skinheads que moram na cidade e que nos
olhavam com ódio e vontade de nos liquidar.
Depois de Pêssach, fomos conhecer um pouco mais a famosa região
da Bielo-Rússia. Dentre as cidades pelas quais passamos, tivemos a
oportunidade de conhecer Liozna, onde o Admo'r Ha Zaken viveu. E o coração
palpitou de alegria quando nos vimos diante da cidade de Lubavitch. Embora
pequena de tamanho, aproximadamente trinta casas, enorme e rica em ensinamentos
e onde cresceu o movimento do qual todos fazemos parte (Chabad-Lubavitch).
Infelizmente não há judeus que lá habitam e as casas
dos Admo'r Ha Tzemach Tzedek, Admo'r Ha Marash e Admo'r Ha Rashab foram transformadas
em museu. Além disso, fomos visitar o cemitério onde o terceiro
e quarto Rebes de Chabad estão enterrados, na companhia de seus filhos.
Felizes, emocionados e com várias fotos dos momentos vivenciados,
nos dirigimos de volta para Minsk.
Lá, pedimos autorização para o rabino para entrarmos
em contato com a civilização através do equipamento,
para nós usual e ordinário, o telefone. Além disso,
fomos fazer umas comprinhas em uma feira da região, aproveitando o
fato de um dólar perfazer a quantia de 2.100 rublos.
No vôo de volta a Eretz Israel, quando o piloto anunciou "Bruchim
Habaim" (sejam bem vindos) a Tel Aviv, onde a temperatura estava na
faixa de 25°C, sentimos o calor não só material como, e
principalmente, espiritual.
Esperamos ter cumprido, com sucesso, a missão que o Rebe nos imbuiu,
proporcionando a várias pessoas um Pêssach casher e sameach
(alegre) e fortificando o judaísmo local. Aproximando e apalpando
o exílio, desta vez não do Egito, e sim da galut, de todo o
povo judeu. E que seja breve!
Essa experiência pode e deve se estender a cada judeu, eis que não
precisa ser bachur yeshiva, nem viajar a Bielo-Rússia, para cumprir
essa missão de aproximar o coração de cada alma judaica
para a sua Fonte, a Torá!
Mashiach Agora!
* Benjamim Kessel é um jovem curitibano que vive em Israel e estuda
numa Yeshivá (escola de estudfos rabínicos) em Jerusalém.