Por: Nahum Sirotsky
De Israel — Não leio árabe. Mas confio nas minhas fontes
que sabem a língua e conhecem o Oriente Médio. E não
tenho intenção alguma de sequer insinuar onde vivem, suas origens.
Só posso dizer que nunca me mentiram. O Último Segundo foi
o primeiro no mundo, por exemplo, a informar que haviam encontrado e preso
Saddam Hussein. Cerca de 20 minutos antes da mídia americana. Em inúmeros
casos passo a frente. Apenas que Último Segundo do IG é portal
brasileiro, em português. Os coleguinhas da grande mídia internacional,
sim, são ouvidos. Reclamei deste fato aqui mesmo várias vezes.
E antes, em minha carreira, por ignorarem os muitos grandes repórteres
de nossa imprensa. Complexo de inferioridade até hoje não superado.
Mas acho que chega de conversa fiada. E aí vai.
Uma fonte diz que o “Al-Sharq Al-Awat”, jornal da Arábia
Saudita, teria publicado que o Irã concentrou tropas na fronteira
com o Iraque. Não é tropa em posição ofensiva.
A hipótese lógica, nas circunstâncias, é a de
que eles pretenderiam estar perto de um conflito interno no Iraque, provável
em seguida à assunção do poder pelo Conselho Iraquiano
de Governo no fim do mês. Não vi a mesma informação
em nenhuma outra fonte. Mas é séria demais para ser ignorada.
Michael Massing, que citei há dias, analista da mídia americana
que terá um livro seu publicado em breve, chamado “Agora Eles
Nos Contam”, insiste em que eram duvidosas as informações
sobre a destruição maciça do arsenal de Saddam. Ele
escreve citando “Plano de Ataque”, de Bob Woodward, que narra
o processo de decisões que levou à guerra, com afirmações
de três fontes, dizendo confidencialmente que as informações
da CIA e da Casa Branca não eram tão conclusivas quanto se
fazia crer. “O Washington Post”, seu jornal, teria divulgado
a nota sem maior destaque, propositalmente.
Bob Woodward e seu colega de então, Bernstein, dois jovens e inexperientes
repórteres que ficaram ricos e entraram para a história americana
como aqueles que forçaram Nixon, o presidente, a renunciar pelo que
revelaram sobre ele. Quem tem idade terá visto “Todos os Homens
do Presidente”, filme inspirado nos repórteres e na reportagem.
As relações entre Washington e Teerã não são
das melhores.
O presidente iraniano, Khatami expressou sua decepção com França,
Alemanha e Itália por nada fazerem para aliviar as pressões
de Washington sobre o seu país, que desconfia que o Irã está perto
de ser uma potencia atômica. Isso seria inaceitável, pois disputaria
a influência americana na região de maior importância
para o mundo industrializado por ser a grande fonte de petróleo. O
Irã é uma teocracia xiita, a seita predominante no Iraque,
o que pode implodir numa guerra interna entre seitas e etnias.
O Conselho de Governo, presidido por um sunita secular, está tão
confiante de que não haverá o estouro que anunciou que vai
assumir a responsabilidade por Saddam Hussein, o ex-ditador iraquiano que
os americanos guardam num local secreto. Teme-se que se tente soltá-lo.
Os americanos já disseram que entregarão Saddam ao Iraque para
ser julgado quando se convencerem de que não haverá risco de
ele ser liberado ou assassinado. Não será no fim de junho.
Isso acontecerá depois que forem atestados os poderes do Conselho
ao assumir a administração do país.
No Iraque de hoje é grande o desemprego e a reconstrução
se faz em passo de cágado. A situação só aumenta
os inimigos e a resistência às forças estrangeiras. Há 1.320
anos que sunitas e xiitas se desentendem. A ala radical sunita quer o poder
e impor um regime puritano muçulmano. Eles eram o Taleban. Os xiitas
querem uma teocracia na qual dominem, como no Irã. Os curdos querem
uma região ou país próprio.
Os iraquianos se vingam. Fizeram explodir um oleoduto, interrompendo
o fluxo de petróleo para exportação. Abalando os nervos já tensos
do mercado importador.
Do Iraque, fica a impressão de alivio com a queda de Saddam e desencanto
com os Coligados, os anglo-saxões e aliados que não substituíram
o regime deposto: cruel, corrupto e, nepotista por um sistema e não
projetou em fatos o futuro melhor, a democracia prometida. E os segmentos
extremistas do Islã, expressão que se traduz por submissão,
aproveitam-se para promover suas visões de mundo melhor sob as leis
religiosas. Estes segmentos estão tentando ocupar o vazio deixado
pela derrota do sonho comunista em todos os cantos do nosso mundo. O Islã é a
religião que mais cresce nos Estados Unidos e na Europa. É igualitária
e faz da caridade uma obrigação.
A história das revoluções, com suas propostas de mudanças
radicais na vida social, de igualdade, liberdade e fraternidade, sempre começaram
sacrificando as liberdades justificando – se como sendo necessário
poder absoluto para a impor a igualdade. Todas fracassaram. E sempre foram
elevados os custos em sofrimento humano. Num certo momento o objetivo central é segurar
o poder. E os sonhos criados nas massas passam a ser subversivos.
No caso do Iraque talvez restem como precedentes a Comunidade Internacional,
oposição determinada contra tiranos que, tendo o poder, julguem-se
livres para sacrificarem seus povos. E o direito e obrigação
de defendê-los. Quer se queira ou não, as ciências e tecnologias
estão criando um mundo só que terá de ser reconhecido
e cuidado por todos. A alternativa é impensável.
* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último
Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização
do autor.