Visão Judaica - Edição N° 25
:. Fim do mês angustiante .:

 

Por: Nahum Sirotsky

De Israel — Não leio árabe. Mas confio nas minhas fontes que sabem a língua e conhecem o Oriente Médio. E não tenho intenção alguma de sequer insinuar onde vivem, suas origens. Só posso dizer que nunca me mentiram. O Último Segundo foi o primeiro no mundo, por exemplo, a informar que haviam encontrado e preso Saddam Hussein. Cerca de 20 minutos antes da mídia americana. Em inúmeros casos passo a frente. Apenas que Último Segundo do IG é portal brasileiro, em português. Os coleguinhas da grande mídia internacional, sim, são ouvidos. Reclamei deste fato aqui mesmo várias vezes. E antes, em minha carreira, por ignorarem os muitos grandes repórteres de nossa imprensa. Complexo de inferioridade até hoje não superado. Mas acho que chega de conversa fiada. E aí vai.
Uma fonte diz que o “Al-Sharq Al-Awat”, jornal da Arábia Saudita, teria publicado que o Irã concentrou tropas na fronteira com o Iraque. Não é tropa em posição ofensiva. A hipótese lógica, nas circunstâncias, é a de que eles pretenderiam estar perto de um conflito interno no Iraque, provável em seguida à assunção do poder pelo Conselho Iraquiano de Governo no fim do mês. Não vi a mesma informação em nenhuma outra fonte. Mas é séria demais para ser ignorada. Michael Massing, que citei há dias, analista da mídia americana que terá um livro seu publicado em breve, chamado “Agora Eles Nos Contam”, insiste em que eram duvidosas as informações sobre a destruição maciça do arsenal de Saddam. Ele escreve citando “Plano de Ataque”, de Bob Woodward, que narra o processo de decisões que levou à guerra, com afirmações de três fontes, dizendo confidencialmente que as informações da CIA e da Casa Branca não eram tão conclusivas quanto se fazia crer. “O Washington Post”, seu jornal, teria divulgado a nota sem maior destaque, propositalmente.
Bob Woodward e seu colega de então, Bernstein, dois jovens e inexperientes repórteres que ficaram ricos e entraram para a história americana como aqueles que forçaram Nixon, o presidente, a renunciar pelo que revelaram sobre ele. Quem tem idade terá visto “Todos os Homens do Presidente”, filme inspirado nos repórteres e na reportagem. As relações entre Washington e Teerã não são das melhores.
O presidente iraniano, Khatami expressou sua decepção com França, Alemanha e Itália por nada fazerem para aliviar as pressões de Washington sobre o seu país, que desconfia que o Irã está perto de ser uma potencia atômica. Isso seria inaceitável, pois disputaria a influência americana na região de maior importância para o mundo industrializado por ser a grande fonte de petróleo. O Irã é uma teocracia xiita, a seita predominante no Iraque, o que pode implodir numa guerra interna entre seitas e etnias.
O Conselho de Governo, presidido por um sunita secular, está tão confiante de que não haverá o estouro que anunciou que vai assumir a responsabilidade por Saddam Hussein, o ex-ditador iraquiano que os americanos guardam num local secreto. Teme-se que se tente soltá-lo. Os americanos já disseram que entregarão Saddam ao Iraque para ser julgado quando se convencerem de que não haverá risco de ele ser liberado ou assassinado. Não será no fim de junho. Isso acontecerá depois que forem atestados os poderes do Conselho ao assumir a administração do país.
No Iraque de hoje é grande o desemprego e a reconstrução se faz em passo de cágado. A situação só aumenta os inimigos e a resistência às forças estrangeiras. Há 1.320 anos que sunitas e xiitas se desentendem. A ala radical sunita quer o poder e impor um regime puritano muçulmano. Eles eram o Taleban. Os xiitas querem uma teocracia na qual dominem, como no Irã. Os curdos querem uma região ou país próprio.

Os iraquianos se vingam. Fizeram explodir um oleoduto, interrompendo o fluxo de petróleo para exportação. Abalando os nervos já tensos do mercado importador.
Do Iraque, fica a impressão de alivio com a queda de Saddam e desencanto com os Coligados, os anglo-saxões e aliados que não substituíram o regime deposto: cruel, corrupto e, nepotista por um sistema e não projetou em fatos o futuro melhor, a democracia prometida. E os segmentos extremistas do Islã, expressão que se traduz por submissão, aproveitam-se para promover suas visões de mundo melhor sob as leis religiosas. Estes segmentos estão tentando ocupar o vazio deixado pela derrota do sonho comunista em todos os cantos do nosso mundo. O Islã é a religião que mais cresce nos Estados Unidos e na Europa. É igualitária e faz da caridade uma obrigação.
A história das revoluções, com suas propostas de mudanças radicais na vida social, de igualdade, liberdade e fraternidade, sempre começaram sacrificando as liberdades justificando – se como sendo necessário poder absoluto para a impor a igualdade. Todas fracassaram. E sempre foram elevados os custos em sofrimento humano. Num certo momento o objetivo central é segurar o poder. E os sonhos criados nas massas passam a ser subversivos.
No caso do Iraque talvez restem como precedentes a Comunidade Internacional, oposição determinada contra tiranos que, tendo o poder, julguem-se livres para sacrificarem seus povos. E o direito e obrigação de defendê-los. Quer se queira ou não, as ciências e tecnologias estão criando um mundo só que terá de ser reconhecido e cuidado por todos. A alternativa é impensável.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.


 


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