Visão Judaica - Edição N° 25
:.A Paz, a Cúpula árabe, a Inquisição e o Papa .:

 

Recentemente a Cúpula da Liga Árabe concluiu suas deliberações. Havia esperanças otimistas, até mesmo mencionadas aqui anteriormente, de que o encontro refletisse as mudanças que ocorreram no Oriente Médio desde o início da guerra do Iraque. As decisões da Cúpula, no entanto, mostram que as antecipações para a região se mantém longe de serem completadas. Não houve novidades em dois dos principais temas: o processo de paz entre árabes e palestinos e Israel, e a reforma democrática em estados árabes. As decisões perderam um pouco sua força pela ausência da quase metade dos chefes de Estado dos 22 países membros.
Os líderes árabes presentes, contudo, preferiram ater-se à iniciativa de paz saudita, apresentada na Cúpula de Beirute em 2002, ou ao “Mapa da Estrada”, mas evitaram qualquer mecanismo para implementar a iniciativa de paz. Israel, como era de se esperar, foi amplamente condenado pela demolição de casas e mortes em Rafah, mas pela primeira vez na história os líderes árabes também condenaram a morte de civis, quaisquer que sejam eles. Embora não tivessem citado especificamente, parece óbvio que incluem os civis israelenses e uma condenação aos extremistas palestinos. A questão de Rafah, em Gaza, aliás, é tema de assunto bem documentado nesta edição de Visão Judaica.
Ainda sobre a Cúpula Árabe, o processo de paz no Oriente Médio parece ser indissociável da democratização das nações árabes. Uma solução global para paz no conflito do Oriente Médio depende da vontade expressa desses países evoluírem suas sociedades. Mas essas perspectivas foram tratadas de forma muito superficial, pois não existe até o momento um interesse político nesse sentido . Pelo contrário, Israel continua sendo o foco do ódio para esses países que se comportam como se tivessem um “espinho na garganta” a incomodá-los. A sociedade democrática israelense, com suas eleições livres, a tolerância religiosa, a igualdade de direitos civis, a independência da mulher, entre outros, é vista como algo nefasto para as ditaduras e monarquias árabes, ameaçando a estabilidade dos governantes e o praticamente feudal modus vivendi da região. O tema foi abordado com muita propriedade pela jornalista espanhola Pilar Rahola em Curitiba, no dia 20/5 para atentos ouvintes. Um bom resumo das palestras que ela fez também está na edição do jornal Visão Judaica deste mês, para análise e reflexão dos leitores.
Mudando de assunto, a agência de notícias Reuters há poucos dias repercutiu as declarações do Papa João Paulo II pedindo perdão pela Inquisição, processo pelo qual a Igreja Católica, séculos atrás, torturou e matou pessoas classificadas como hereges, bruxas, além da queima livros. O Papa pediu desculpas numa carta, lida durante entrevista coletiva sobre um novo livro a respeito da Inquisição, criada pelo Papa Gregório IX em 1233. Na carta, o Papa diz que o pedido de perdão era tanto pelos dramas ligados à Inquisição, tanto quanto pelas feridas à memória coletiva, que se seguiram. Não passou despercebido o fato de não terem sido mencionados os judeus, vítimas maiores da Inquisição, especialmente na Península Ibérica. Não se sabe se a omissão foi da agência Reuters — meses atrás ela “esqueceu” de citar os judeus como vítimas do terrorismo palestino numa lista de piores atentados no mundo —, notória por criticar Israel, ou se foi o Vaticano. Nesse caso, isso contrasta em muito com a atitude do Papa João Paulo II. Em maio, por exemplo, ele enviou carta ao rabino Riccardo Di Segni, por ocasião do centenário da Sinagoga de Roma (veja também nesta edição de VJ) cumprimentando a comunidade judaica.
Visão Judaica passa a contar a partir deste número com a colaboração das ilustrações do artista-plástico Marco Alzamora. Boa leitura.


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