Recentemente a
Cúpula da Liga Árabe concluiu suas
deliberações. Havia esperanças otimistas,
até mesmo mencionadas aqui anteriormente, de que o encontro
refletisse as mudanças que ocorreram no Oriente Médio
desde o início da guerra do Iraque. As decisões
da Cúpula, no entanto, mostram que as antecipações
para a região se mantém longe de serem completadas.
Não houve novidades em dois dos principais temas: o processo
de paz entre árabes e palestinos e Israel, e a reforma
democrática em estados árabes. As decisões
perderam um pouco sua força pela ausência da quase
metade dos chefes de Estado dos 22 países membros.
Os líderes árabes presentes, contudo, preferiram
ater-se à iniciativa de paz saudita, apresentada na Cúpula
de Beirute em 2002, ou ao “Mapa da Estrada”, mas
evitaram qualquer mecanismo para implementar a iniciativa de
paz. Israel, como era de se esperar, foi amplamente condenado
pela demolição de casas e mortes em Rafah, mas
pela primeira vez na história os líderes árabes
também condenaram a morte de civis, quaisquer que sejam
eles. Embora não tivessem citado especificamente, parece óbvio
que incluem os civis israelenses e uma condenação
aos extremistas palestinos. A questão de Rafah, em Gaza,
aliás, é tema de assunto bem documentado nesta
edição de Visão Judaica.
Ainda sobre a Cúpula Árabe, o processo de paz no
Oriente Médio parece ser indissociável da democratização
das nações árabes. Uma solução
global para paz no conflito do Oriente Médio depende da
vontade expressa desses países evoluírem suas sociedades.
Mas essas perspectivas foram tratadas de forma muito superficial,
pois não existe até o momento um interesse político
nesse sentido . Pelo contrário, Israel continua sendo
o foco do ódio para esses países que se comportam
como se tivessem um “espinho na garganta” a incomodá-los.
A sociedade democrática israelense, com suas eleições
livres, a tolerância religiosa, a igualdade de direitos
civis, a independência da mulher, entre outros, é vista
como algo nefasto para as ditaduras e monarquias árabes,
ameaçando a estabilidade dos governantes e o praticamente
feudal modus vivendi da região. O tema foi abordado com
muita propriedade pela jornalista espanhola Pilar Rahola em Curitiba,
no dia 20/5 para atentos ouvintes. Um bom resumo das palestras
que ela fez também está na edição
do jornal Visão Judaica deste mês, para análise
e reflexão dos leitores.
Mudando de assunto, a agência de notícias Reuters
há poucos dias repercutiu as declarações
do Papa João Paulo II pedindo perdão pela Inquisição,
processo pelo qual a Igreja Católica, séculos atrás,
torturou e matou pessoas classificadas como hereges, bruxas,
além da queima livros. O Papa pediu desculpas numa carta,
lida durante entrevista coletiva sobre um novo livro a respeito
da Inquisição, criada pelo Papa Gregório
IX em 1233. Na carta, o Papa diz que o pedido de perdão
era tanto pelos dramas ligados à Inquisição,
tanto quanto pelas feridas à memória coletiva,
que se seguiram. Não passou despercebido o fato de não
terem sido mencionados os judeus, vítimas maiores da Inquisição,
especialmente na Península Ibérica. Não
se sabe se a omissão foi da agência Reuters — meses
atrás ela “esqueceu” de citar os judeus como
vítimas do terrorismo palestino numa lista de piores atentados
no mundo —, notória por criticar Israel, ou se foi
o Vaticano. Nesse caso, isso contrasta em muito com a atitude
do Papa João Paulo II. Em maio, por exemplo, ele enviou
carta ao rabino Riccardo Di Segni, por ocasião do centenário
da Sinagoga de Roma (veja também nesta edição
de VJ) cumprimentando a comunidade judaica.
Visão Judaica passa a contar a partir deste número
com a colaboração das ilustrações
do artista-plástico Marco Alzamora. Boa leitura.
.