Por: Tila Dubrawsky
Uma mulher “feminista” indaga a um rabino renomado
de barba longa e chapéu preto, o que é que a esposa
dele faz. O rabino responde que ela cuida de um lar para oito
crianças carentes, dedicando-se inteiramente às
suas necessidades, preenchendo para elas o papel de mãe,
conselheira, professora e assistente social. A mulher fica impressionada.
Finalmente ela encontra uma esposa de rabino que foge do estereotipo,
que não é “presa” em casa, que tem
uma carreira.
A conversa continua e a mulher percebe que as oito crianças
são do rabino e sua esposa e o lar que ela cuida é o
seu próprio. Ela fica indignada. Sente-se iludida. O rabino
ouve e sorri. Ele diz: “Enquanto pensa que minha esposa
dirige um lar para outros, está tudo bem, você a
admira. Já quando sabe que o lar que ela administra é o
seu próprio, sua estima por ela diminui. Isso é lógico?”
Edificar um lar e ser mãe é uma carreira digna
de louvor. Trazer filhos ao mundo e educá-los para serem
sãos, íntegros e bem equilibrados de corpo e espírito é contribuir
concretamente e positivamente para o bem da humanidade. E quer
saber de uma coisa? Satisfaz de verdade a nossa necessidade e
desejo de realizar algo importante nesta vida.
Não confundamos a edificação de um lar com
o governo de uma casa. Enquanto dá para contratar ajuda
para limpar e arrumar uma casa, fazer um lar significa determinar
o ambiente, impulso e caráter da casa e é um desafio
que cada indivíduo tem que enfrentar pessoalmente. Uma
mulher pode querer ou precisar ter uma carreira fora de casa,
isso não é problema. No entanto ela tem que saber
que o sucesso do seu lar vai depender do quanto do seu potencial
ela investir dentro de seu lar.
Biná yeteira nitna baisha. (Nida 45 b). Nossos sábios
dizem que mulheres foram dotadas com mais compreensão.
Esta qualidade lhes dá a habilidade de conectar idéias
e tecer valores abstratos e princípios espirituais dentro
da palpável textura do ambiente do lar. Sem minimizar
o papel do marido em cultivar o judaísmo no lar, é a
mulher, a akeret habayit (alicerce do lar) que nutre e molda
esta atmosfera no dia-a-dia.
O estudo da Torá é um grande estímulo; desperta
o nosso amor e reverência inatos para D-us e nos lembra
do verdadeiro propósito da vida. Mas ainda precisaremos
de muito Siatá Dishmaya (ajuda de Hashem- D-us) na edificação
do nosso lar. “Im Hashem lo yivene bayit, shav amlu bonav
bo” - “A não ser que o Eterno edifique a casa,
trabalham em vão os que a querem construir”. (Salmos:
127:1). A Tefilá - oração é um potente
meio de nos conectar com D-us e coroar os nossos esforços
com as Suas bênçãos.
Tefilá é chamado de serviço do coração,
pois não significa a mera leitura de um texto, mas a expressão
da profunda e sincera ligação da pessoa com o seu
Criador. Ambos, homens e mulheres têm a obrigação
de rezar. A mulher já não necessita rezar com Minyan
ou em horário fixo, mas, ela tem que louvar, agradecer
e suplicar a D-us, diariamente. As mulheres judias desde os tempos
primordiais apreciavam o valor da oração. Elas
rezavam em silêncio, mas sabiam que suas palavras e suas
lágrimas estavam sendo ouvidas e percebidas nitidamente
por D-us.
A matriarca Lea conseguiu mudar a sua sorte através da
oração. Sabendo que ela teria que casar com o perverso
Esaú, ela foi determinada em mudar o seu destino. Ela
rezou e chorou a D-us durante anos até que o decreto foi
anulado, e então, ela até precedeu a sua irmã Rachel
em casar com Jacob. Quando nasceram as tribos, Lea dava os nomes
aos seus filhos em homenagem e gratidão ao progresso que
ela sentiu no seu relacionamento com o seu marido. O seu quarto
filho ela chamou de Yehuda, declarando: “Esta vez louvarei
com gratidão ao Eterno.” Ninguém havia ainda
agradecido a D-us com tanta intensidade como Lea fez naquele
momento. (Berachot 7b). Ela sabia reconhecer a bondade Divina
nos acontecimentos de sua vida.
A profetisa Chana (mãe do profeta Samuel) no momento de
derramar o seu coração perante D-us, no Seu Tabernáculo,
por sua aflição em não ter sido abençoada
com filhos, (Haftará do primeiro dia de Rosh Hashaná)
ensinou muito às futuras gerações de homens
e mulheres sobre a dimensão interior da oração
inspirando a maneira que fazemos a Amidá (parte principal
das três rezas diárias) até hoje.
O Rabi Yossef Yitschok Schneerson, sexto líder de Chabad,
comenta nas suas escritas: “Minhag Nashim Torá” -
as tradições e costumes das mulheres judias fazem
parte da Torá. As súplicas e preces silenciosas
que as mulheres oferecem: antes e depois de acenderem as velas
de Shabat - que Hashem ilumine os seus lares com a luz da verdadeira
Shalom Bayit (harmonia doméstica) e Nachat de seus filhos,
antes e depois de separarem a chala (uma porção
da massa ao preparar o pão) - que o Todo Poderoso concede
ao seu marido e filhos amplo sustento, permitindo que apóiem
sábios de Torá e doem tsedacá generosamente,
antes e depois da imersão na Mikve - que Hashem lhes conceda
filhos bons e sadios que cresçam e se tornem observantes
de Torá e mitsvot - todos estes costumes e suplicas -
são Torá!
Quando eu era criança eu não conseguia entender
porque minha mãe demorava tanto com seus olhos cobertos
murmurando suas preces ao acender suas velas de Shabat. Aguardava
pacientemente para lhe dar um carinhoso “Shabat Shalom” depois
que descobria sua face. Muitas vezes via lágrimas nos
seus olhos.
Sei que quando me casei, apesar de já ter acendido uma
vela para Shabat como solteira, o momento das velas de Shabat
começou a ser ainda mais importante e precioso. Era natural
aproveitar esta hora de audiência especial com D-us para
agradecer, compartilhar e pedir, assim como tinha visto a minha
mãe fazer. Gradativa e profundamente descobri “o
segredo” das velas de Shabat.
Quando nossas filhas cresceram e começaram a acompanhar
a recepção ao dia santificado foi a vez delas especularem
o que mamãe tanto tinha para comunicar a D-us. Hoje, nada
me dá mais satisfação do que observá-las,
agora, graças a D-us, casadas, acendendo as suas velas
de Shabat e se prolongando em doce comunhão com o Criador
do mundo, da mesma forma que as gerações justas
das mulheres judias que nos antecederam faziam.
Esta coluna é dedicada lilui nishma —- para a ascensão
da alma da minha avó, Ienta Braina bat Meshulam Zussia.
* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky,
diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó, coordenadora
de programas educacionais e culturais, orientadora de pureza
e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas as idades.
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