Visão Judaica - Edição N° 25
:. Edificando nosso lar - O poder feminino.:

 

Por: Tila Dubrawsky

Uma mulher “feminista” indaga a um rabino renomado de barba longa e chapéu preto, o que é que a esposa dele faz. O rabino responde que ela cuida de um lar para oito crianças carentes, dedicando-se inteiramente às suas necessidades, preenchendo para elas o papel de mãe, conselheira, professora e assistente social. A mulher fica impressionada. Finalmente ela encontra uma esposa de rabino que foge do estereotipo, que não é “presa” em casa, que tem uma carreira.
A conversa continua e a mulher percebe que as oito crianças são do rabino e sua esposa e o lar que ela cuida é o seu próprio. Ela fica indignada. Sente-se iludida. O rabino ouve e sorri. Ele diz: “Enquanto pensa que minha esposa dirige um lar para outros, está tudo bem, você a admira. Já quando sabe que o lar que ela administra é o seu próprio, sua estima por ela diminui. Isso é lógico?”
Edificar um lar e ser mãe é uma carreira digna de louvor. Trazer filhos ao mundo e educá-los para serem sãos, íntegros e bem equilibrados de corpo e espírito é contribuir concretamente e positivamente para o bem da humanidade. E quer saber de uma coisa? Satisfaz de verdade a nossa necessidade e desejo de realizar algo importante nesta vida.
Não confundamos a edificação de um lar com o governo de uma casa. Enquanto dá para contratar ajuda para limpar e arrumar uma casa, fazer um lar significa determinar o ambiente, impulso e caráter da casa e é um desafio que cada indivíduo tem que enfrentar pessoalmente. Uma mulher pode querer ou precisar ter uma carreira fora de casa, isso não é problema. No entanto ela tem que saber que o sucesso do seu lar vai depender do quanto do seu potencial ela investir dentro de seu lar.
Biná yeteira nitna baisha. (Nida 45 b). Nossos sábios dizem que mulheres foram dotadas com mais compreensão. Esta qualidade lhes dá a habilidade de conectar idéias e tecer valores abstratos e princípios espirituais dentro da palpável textura do ambiente do lar. Sem minimizar o papel do marido em cultivar o judaísmo no lar, é a mulher, a akeret habayit (alicerce do lar) que nutre e molda esta atmosfera no dia-a-dia.
O estudo da Torá é um grande estímulo; desperta o nosso amor e reverência inatos para D-us e nos lembra do verdadeiro propósito da vida. Mas ainda precisaremos de muito Siatá Dishmaya (ajuda de Hashem- D-us) na edificação do nosso lar. “Im Hashem lo yivene bayit, shav amlu bonav bo” - “A não ser que o Eterno edifique a casa, trabalham em vão os que a querem construir”. (Salmos: 127:1). A Tefilá - oração é um potente meio de nos conectar com D-us e coroar os nossos esforços com as Suas bênçãos.
Tefilá é chamado de serviço do coração, pois não significa a mera leitura de um texto, mas a expressão da profunda e sincera ligação da pessoa com o seu Criador. Ambos, homens e mulheres têm a obrigação de rezar. A mulher já não necessita rezar com Minyan ou em horário fixo, mas, ela tem que louvar, agradecer e suplicar a D-us, diariamente. As mulheres judias desde os tempos primordiais apreciavam o valor da oração. Elas rezavam em silêncio, mas sabiam que suas palavras e suas lágrimas estavam sendo ouvidas e percebidas nitidamente por D-us.
A matriarca Lea conseguiu mudar a sua sorte através da oração. Sabendo que ela teria que casar com o perverso Esaú, ela foi determinada em mudar o seu destino. Ela rezou e chorou a D-us durante anos até que o decreto foi anulado, e então, ela até precedeu a sua irmã Rachel em casar com Jacob. Quando nasceram as tribos, Lea dava os nomes aos seus filhos em homenagem e gratidão ao progresso que ela sentiu no seu relacionamento com o seu marido. O seu quarto filho ela chamou de Yehuda, declarando: “Esta vez louvarei com gratidão ao Eterno.” Ninguém havia ainda agradecido a D-us com tanta intensidade como Lea fez naquele momento. (Berachot 7b). Ela sabia reconhecer a bondade Divina nos acontecimentos de sua vida.
A profetisa Chana (mãe do profeta Samuel) no momento de derramar o seu coração perante D-us, no Seu Tabernáculo, por sua aflição em não ter sido abençoada com filhos, (Haftará do primeiro dia de Rosh Hashaná) ensinou muito às futuras gerações de homens e mulheres sobre a dimensão interior da oração inspirando a maneira que fazemos a Amidá (parte principal das três rezas diárias) até hoje.
O Rabi Yossef Yitschok Schneerson, sexto líder de Chabad, comenta nas suas escritas: “Minhag Nashim Torá” - as tradições e costumes das mulheres judias fazem parte da Torá. As súplicas e preces silenciosas que as mulheres oferecem: antes e depois de acenderem as velas de Shabat - que Hashem ilumine os seus lares com a luz da verdadeira Shalom Bayit (harmonia doméstica) e Nachat de seus filhos, antes e depois de separarem a chala (uma porção da massa ao preparar o pão) - que o Todo Poderoso concede ao seu marido e filhos amplo sustento, permitindo que apóiem sábios de Torá e doem tsedacá generosamente, antes e depois da imersão na Mikve - que Hashem lhes conceda filhos bons e sadios que cresçam e se tornem observantes de Torá e mitsvot - todos estes costumes e suplicas - são Torá!
Quando eu era criança eu não conseguia entender porque minha mãe demorava tanto com seus olhos cobertos murmurando suas preces ao acender suas velas de Shabat. Aguardava pacientemente para lhe dar um carinhoso “Shabat Shalom” depois que descobria sua face. Muitas vezes via lágrimas nos seus olhos.
Sei que quando me casei, apesar de já ter acendido uma vela para Shabat como solteira, o momento das velas de Shabat começou a ser ainda mais importante e precioso. Era natural aproveitar esta hora de audiência especial com D-us para agradecer, compartilhar e pedir, assim como tinha visto a minha mãe fazer. Gradativa e profundamente descobri “o segredo” das velas de Shabat.
Quando nossas filhas cresceram e começaram a acompanhar a recepção ao dia santificado foi a vez delas especularem o que mamãe tanto tinha para comunicar a D-us. Hoje, nada me dá mais satisfação do que observá-las, agora, graças a D-us, casadas, acendendo as suas velas de Shabat e se prolongando em doce comunhão com o Criador do mundo, da mesma forma que as gerações justas das mulheres judias que nos antecederam faziam.

Esta coluna é dedicada lilui nishma —- para a ascensão da alma da minha avó, Ienta Braina bat Meshulam Zussia.

* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky, diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó, coordenadora de programas educacionais e culturais, orientadora de pureza e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas as idades.

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