Uma trégua que já nasceu morta

A trégua foi efêmera e frustrante. Nem se chegou a tomar consciência de sua existência e já tinha acabado. Nem sequer surpreendeu a ninguém porque toda população israelense já esperava e vaticinava. Três foguetes Kassam caíram no Negev, um deles atingindo uma casa que por sorte, ou talvez por prudência, estava desabitada. Então, o que fazer agora?
Sempre há a possibilidade de fazer de conta que não foi nada. É como a síndrome da mulher maltratada que volta ao lar para dar uma nova chance, apesar das repetidas experiências que lhe indicam que não tem sentido isso. O Hamas anuncia que continua comprometido com a trégua, mesmo depois das bombas, como quem diz: "Não fui eu".
Acreditamos que para Israel não interessa quem foi nem como se chama. Se foi o Hamas ou a Jihad Islâmica, ou os batalhões das carmelitas descalças, é um problema interno palestino. O que fica claro, entretanto, é que um acordo indireto com o Hamas para Israel não vale nada, seja porque ele mesmo não quer cumpri-lo, ou porque é incapaz de comprometer-se e fazer as outras organizações também acatarem.
Israel está agora nas condições necessárias para criar a situação que lhe convém e que precisa para sua segurança e o progresso das verdadeiras negociações. A situação referida é a de uma indiscutível vitória militar. Teria sido melhor e preferível chegar a isso após a libertação de Guilad Shalit. Mas parece que não se pode esperar mais. As vitórias militares mais contundentes foram sempre obtidas por Israel depois de um período de contenção.
Assim foi na Guerra dos Seis Dias em 1967, após tensas três semanas durante as quais se procurou uma solução diplomática pacífica até esgotar todas as instâncias. Antes da operação "Muro de Defesa'', que assinalou o início da vitória na segunda intifada, houve por parte de Israel um período de contenção, a despeito dos cruéis atentados, como o da danceteria Delfinarium em Tel Aviv, período que terminou depois do massacre no Hotel Park de Natania, durante o seder de Pêssach. Em ambos os casos — e os exemplos não terminam aí — ao brindar uma oportunidade à opção negociadora, diplomática e pacífica, Israel ganhou o direito — primeiro ante si próprio e também diante da opinião pública mundial — de responder com força, decisão e persistência às agressões externas. Assim é agora também. Não há razão alguma para esperar até o próximo foguete ocasione vítimas. É preciso agir.
Agir necessariamente não significa entrar em Gaza com a infantaria apoiada por blindados e enfrentar os equipados efetivos do Hamas nas estreitas ruelas dos campos de refugiados. O Hamas provavelmente esteja esperando uma incursão desse tipo. Agir significa aplicar um plano que debilite o Hamas como governo, que não deixe nenhum resquício de esperança de melhora até que cumpra com os requisitos que lhe são exigidos pela comunidade internacional, e legitime a existência de Israel para poder legitimar-se a si próprio como governo.
O que não se pode é ficar fazendo acordos com quem se sabe de antemão não serão cumpridos. Firmar acordos de paz natimortos pode ser interpretado pelo inimigo como tentativa de sobreviver politicamente. O ideal, claro, seria chegar a um verdadeiro e duradouro acordo de paz, mas até agora, o outro lado só mostrou engodos.  

                                                                                                A Redação