9 de Av e Sefarad
Por: Jane Bichmacher de Glasman *

Dias de Jejum e Luto1
Quatro vezes por ano se requer dos judeus que jejuem desde o amanhecer até que apareçam as primeiras estrelas: Assará BeTevet, Taanit Ester, Shivá Assar beTamuz e Tsom Guedaliá. Chama-se a estes dias de Taanit Tsibur (jejum público). A diferença destes dos jejuns de Tishá beAv, é que os últimos duram desde o entardecer até o entardecer seguinte. Se qualquer um dos jejuns cai no Shabat é adiado até o dia seguinte, excetuando-se Iom Kipur, que não se adia, e Taanit Ester, que se adianta para quinta-feira (se adiado cairia em Purim e luto e alegrias não devem entremear-se).
O cumprimento dos jejuns pelo povo de Israel serve a 3 propósitos: teshuvá (arrependimento), bakashá (pedido especial ou súplica privada ou pública) e avelut (luto privado ou público).

9 de av (tishá be-av)2
É a data mais sombria do calendário judaico. Nela se registram vários fatos trágicos como: o decreto pelo qual os israelitas deveriam vagar pelo deserto por um período de 40 anos; a destruição do Primeiro e do Segundo Templos; a queda da fortaleza de Betar; a queda de Bar Kohbá e o massacre de sua gente; o sítio de Jerusalém por Adriano; a assinatura do édito de expulsão dos judeus da Inglaterra em 1290 e a assinatura do decreto de expulsão dos judeus da Espanha em 1492.
Neste dia jejuamos não somente para recordar os tristes fatos do passado como também para testemunhar a unidade do povo judeu no presente, sua vontade de existência e fé em seu destino.
Em Tishá beAv lemos a Meguilat Eihá (Lamentações), escrita pelo profeta Jeremias que presenciou a destruição do Primeiro Templo, de noite, à luz de uma lúgubre vela, e na manhã seguinte. A congregação se senta no solo ou em bancos baixos e não se usam nem os tefilim nem o talit. Depois da leitura de Eihá, se cantam as Kinot (súplicas). Estas são poemas de lamentos e elegias escritas por poetas de várias épocas que foram testemunhas de desastres para o povo judeu. As kinot variam de comunidade em comunidade, porém geralmente terminam com shirei Tsion (Sionidas), poemas dedicados ao Monte Sagrado do Templo - Monte Sião. Uma das mais famosas, não por acaso, é o poema “Tsion halo tishali” de Iehudá haLevi.

Sefarad, Tishá beAv  e Marranismo
O nome Sefarad nos remete à Espanha onde cristãos, judeus e muçulmanos conviveram até a expulsão dos dois últimos povos, que migraram pela bacia do Mediterrâneo desde o norte da África ao sul de França, Itália, Grécia, Turquia, fugindo da Inquisição. Judeus sefaradim até hoje mantêm um dialeto, o ladino, que mistura hebraico e espanhol, com canções litúrgicas, poemas e canções de ninar. Sefarad é um paraíso perdido no inconsciente, uma metáfora do exílio, para onde se quer voltar, como um útero inalcançável que garante carinho, proteção e felicidade.
Mas devemos lembrar: a maioria das esferas da criatividade judaica na Espanha - a Halachá (jurisprudência), poesia, filosofia, exegese bíblica, gramática - iniciou-se na Babilônia e no norte da África; os judeus espanhóis as fizeram alcançar novos picos de desenvolvimento e atribuíram-lhes estilo e característica próprios.
Situamos a 'Era Dourada' dos judeus da Espanha há quase mil anos, sob o domínio muçulmano. Muitos judeus notáveis e famosos, talmudistas, poetas, filósofos e músicos floresceram naqueles dias, como Maimônides, Iehudá Halevi, Nachmânides, Ibn Ezra e Ibn Gabirol. Muitos ocuparam posições importantes nos assuntos de Estado, como conselheiros ou ministros dos governantes árabes, como Hasdai ibn Shaprut e Samuel haNagid. Estadistas e financistas judeus, bem como os mercadores e artesãos, ajudaram a desenvolver o comércio e a indústria do país. Havia famosas academias talmúdicas (Ieshivot) nas comunidades judaicas espanholas.
Mas, novamente, não esqueçamos: esta era de brilhantes êxitos culturais e intelectuais não foi totalmente “dourada”, como se supõe. O apogeu da cultura hispano–judaica coincidiu exatamente com o de um renovado fanatismo religioso muçulmano que destruiu comunidades inteiras, colocando um fim à permanência dos judeus na Espanha Andaluza. O quadro de uma tolerância absoluta e compreensão mútua na Espanha muçulmana é um mito que herdamos de historiadores judaicos do século XIX. Nas palavras do poeta Iehuda Halevi: "Haverá para nós, no Oriente ou no Ocidente, um lugar de esperança, no qual possamos acreditar?"
Na Espanha sob domínio cristão, irromperam libelos de sangue e ataques contra judeus, que tiveram de fazer a terrível opção: a cruz ou a espada. Embora muitos preferissem morrer por sua fé, outros que não tiveram a força de fazê-lo, tornaram-se cristãos apenas no nome, praticando secretamente sua fé judaica, chamados de "marranos" (porcos, em espanhol) pelos cristãos, que os desprezavam e odiavam. Líderes da Igreja começaram a vigiá-los e estabeleceram um tribunal, a Inquisição, onde os marranos suspeitos eram torturados para serem forçados a confessar sua lealdade à fé judaica. Eram queimados vivos em praça pública, para espalhar o terror entre os outros marranos. Apesar disso, eles continuaram a praticar sua fé secretamente nos porões de suas casas, casando-se entre si e permanecendo fiéis à religião de seus ancestrais.
Na primavera de 1492, pouco após os mouros serem banidos de Granada os reis Fernando e Isabel da Espanha expulsaram todos os judeus de suas terras e assim, como que por um golpe escrito, deram fim ao maior e mais distinto ajuntamento judaico na Europa. Tishá beAv de 5252, 31 de agosto de 1492 foi a última data para saírem, ou seriam convertidos a força. Sua expulsão não foi incitada somente pela voracidade da realeza, pelo nacionalismo exacerbado da população, nem por mero zelo religioso. Os motivos assentam-se sobre a disputa por poder entre clero, nobreza e a burguesia ascendente composta na maioria por judeus. Todavia, o motivo oficial foi que os judeus incentivavam os cristãos-novos a permanecer no Judaísmo, não permitindo que se tornassem bons cristãos.
Cerca de 150.000 judeus deixaram suas casas e seus pertences para trás e saíram da Espanha. Muitos encontraram refúgio no país vizinho, Portugal, mas após cinco anos foram expulsos ainda mais cruelmente daquela nação. Os marranos continuaram a levar a vida como antes, e a Inquisição teve muito que fazer nos séculos seguintes.
Mas, voltando no tempo, vemos que esta não foi a primeira conversão forçada em massa na história dos judeus de Sefarad. No século V, a Península Ibérica foi conquistada pelos visigodos, bárbaros germânicos recém cristianizados. Até o final do século VI o reino visigodo continuou a tradição de tolerância frente aos judeus, quando os visigodos passaram do cristianismo arianista para o catolicismo. Em 613 o rei Sisebuto ordenou que todos os judeus fossem batizados a força.
A conversão forçada de judeus na Espanha aconteceu em 3 outras ocasiões. Depois da disputa de Barcelona em 1263, a legislação restritiva, a agitação contínua e as provocações dos sacerdotes trouxeram sobre os judeus os pogroms de 1391, cuja conseqüência foi o contágio a partir de Sevilha para todas as comunidades judias espanholas. Muitos foram mortos, as mulheres judias raptadas e as propriedades destruídas. A situação era morte ou conversão. Depois da disputa de Tortosa, em 1413, o mesmo processo trouxe uma legislação ainda mais restritiva e a nova onda de pogroms, na metade do século XV, outra onda de conversões. A última veio depois o édito de expulsão.
A diáspora sefardita não se iniciou com a Expulsão em 1492. Teve início aproximadamente um século antes, com os massacres de 1391.
Comparando apenas sob o ponto de vista cronológico, nem sempre lembramos que, enquanto o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial foi tão devastador, especialmente nos quatro anos de extermínio maciço de judeus, a Inquisição durou séculos.
Uma nota de esperança se encaixa em Tishá beAv. Segundo o Midrash Eihá Rabá, capítulo 1, “o Messias nasceu no dia em que o Templo foi destruído”. Nem no momento mais lúgubre podemos deixar de ter esperança num futuro mais luminoso.

Notas:
1 - Trecho do livro da autora: À Luz da Menorá: Introdução ao Judaísmo.
2 - Idem

 

*Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos  da UERJ.