A dádiva da dúvida
(Tishá BeAv na ótica da pergunta)
Por: Sérgio Feldman *

Entre o vazio e a certeza me deparo cada dia com pessoas ora esvaziadas de sentido, ora dotadas de certezas. Cansei de deparar-me com o vazio ou confrontar-me com verdades absolutas. É onipresente tanto uma quanto a outra: as pessoas não se perguntam mais, não se lançam na dúvida. Uns fogem e se alienam e outros se abrigam no guarda chuva do Absoluto e correto. Estou exausto de saberes consumados, unilaterais e completos. A posse da verdade absoluta nos coloca em estado de cegueira, de silêncio interno e de ausência de dúvidas. O ser fenece e se perde neste torpor de achar que descobriu o segredo do universo, o sentido da vida e da razão absoluta de sua existência.
Obrigado pela dúvida. Abençoada a pergunta. Iluminada seja a busca conseqüente da falta de certeza.
O Judaísmo nasce e sobrevive em função de negar e criticar. A cega obediência é a posse da resposta e da verdade. A meu ver isto é a perda e a ausência da essência do que é “ser judeu”. Ser judeu é sempre pensar, ter dúvidas e questionar.
Analisemos alguns pressupostos simples de uma complexa questão. Os modelos judaicos são diversificados, mas sempre diferenciados da média social: ora somos iconoclastas como Abraão, que destruiu os ídolos da casa de seu pai Terach; ora nos percebemos como inconformados e rebeldes tal qual Jacob que tenta reaver a primogenitura perdida na saída do ventre materno; ora agimos como sonhadores e analistas da realidade a maneira de José. Por vezes os modelos são realçados pelos defeitos, que nos mostram como “não fazer”: Sansão era mulherengo, ousado para lutar e descuidado nas suas ações; Jefté sacrificou a própria filha, num gesto pagão e contrário aos valores judaicos; Saul ora corajoso, ora enciumado, ora raivoso. Não há personagens sem uma coloração forte nos modelos judaicos tanto os bíblicos quanto os subseqüentes.
Abraão questiona até o projeto divino de destruição de Sodoma e o extermínio de sua população “pecadora” e depravada. Trava um diálogo aparentemente cordial com D-us aonde regateia valores: “[...] e se houvesse cinqüenta Justos, D-us destruiria os Justos junto com os ímpios?” “E se houvesse quarenta? E se fossem trinta, os justos de Sodoma?” “Havendo pelo menos vinte, o Misericordioso D-us destruiria os justos junto com os “pecadores”?” E culmina convencendo o Eterno, de que se houvessem dez homens de boa índole e espírito bondoso e justo, a cidade salvar-se-ia. A relação de Abraão com D-us é uma mútua análise: D-us o está testando e vendo se ele é digno de sua escolha; já o bondoso e justo Patriarca, o aparentemente submisso Abraão analisa respeitosa e humildemente, seu Senhor e avalia seus gestos. E D-us revela ao seu primeiro fiel a sua face misericordiosa e justa. Um simples caso de polêmica, dúvida e questionamento, mesmo sendo respeitoso. Um paradigma se criou e estabeleceu: a dúvida e a pergunta são criativas e geram crescimento e busca.
As dúvidas permearam as relações de D-us com todos os Profetas. Uns questionavam o porquê de sua escolha para a missão profética; já outros, as decisões de D-us e Suas ordens. Jonas fugiu e foi engolido por um peixe enorme. Jeremias se lamentava e sofria por sua missão de avisar que Jerusalém seria destruída. Tudo em altas e sonoras queixas e críticas. Nada conformistas e tampouco sem críticas. Cumpriram sua funções, mas não deixaram de tecer considerações. Os sábios através dos tempos mostraram um imenso respeito pela Lei Revelada e pelo D-us único e Eterno. Isso não os impediu de ampliar e expandir sua Lei, tendo eixos centrais sólidos e inabaláveis (monoteísmo, negação da idolatria, justiça), mas derivando e ampliando seus eixos secundários de maneira crítica, criativa e ampla.

O Judaísmo teve momentos mais e menos criativos. Em épocas de opressão e perseguição tivemos de nos fechar e proteger. Nestes contextos, a abertura e a dissidência podiam ser um fator de desagregação e fraqueza diante de um inimigo hostil. Ainda assim não nos bastamos na observância da Lei revelada (Torá). No segundo século da Era Comum foi coletada e ordenada a Mishná ou Lei Oral, que é uma conseqüência do constante debate e polêmica no seio do Judaísmo. Trazia debates de alguns séculos e ampliações e reflexões novas que partiam da Lei Revelada (Torá), mas ampliavam sua visão e perspectiva. Nos séculos seguintes vieram as duas Guemarot (uma Guemará em Israel e outra na Babilônia). Uma enorme massa de saberes e uma ampla discussão de “jurisprudência” que parte daquela que seria para nós uma espécie de “Constituição” (ou seja, a Torá) e sem contradizê-la na essência, a amplia e adapta a novas realidades.
O Judaísmo só sobrevive por que é dinâmico, e por vezes crítico, e sempre analisa a realidade sem negá-la, mas não aceitando a manipulação do Homem. Há uma perspectiva humanista nesta concepção: a religião serve a D-us, mas esta direcionada para servir ao Homem. Diferencia-se da opressão da verdade única de uma Igreja medieval despótica e monárquica. As divergências entre sábios estão nas entrelinhas da Mishná e da Guemará que registram as opiniões que venceram o debate por maioria de votos, mas também registram as opiniões da minoria, pois nelas há gotas preciosas de sabedoria e de verdade. Não há verdades únicas e absolutas na Lei Oral Judaica.
Provocaria meus leitores. Alguém já leu uma pagina da Mishná? Sabe que por vezes há duas e até três opiniões respondendo uma pergunta? Isto por que a pergunta tem mais valor que a resposta. A dúvida enriquece e ilumina e a certeza absoluta te faz cego e pobre de espírito. A dúvida nos fez vítimas de rancor e de ódio pela sociedade não judaica. Vamos observar a razão do ódio antijudaico sob uma ótica das idéias.
Negamos a idolatria e o politeísmo num mundo de ídolos e uma profusão de deuses de caráter animista. Propusemos um D-us espiritual e sem imagem num mundo materialista. Propusemos-nos a sonhar com a Redenção universal e a justiça para todo o gênero humano, mas a sociedade nos viu como misantropos (aqueles que odeiam o gênero humano). Fomos tachados de deicidas e aliados do demônio, por não sermos passíveis de uma fácil catequização e conversão. Como éramos o Povo que recebeu a Revelação original, através dos Patriarcas, Moisés e dos Profetas, fomos considerados o entrave da Redenção messiânica por não aceitarmos as crenças da Cristandade. Assim sofremos o martírio, a discriminação e a violência por séculos, encarnando o papel que os primitivos cristãos tiveram durante cerca de dois séculos e meio.
Os papéis se inverteram. O sofrimento de Jesus e o martírio dos cristãos primitivos durou por cerca de dois séculos e meio. Cessam com o Édito de Milão (313) a partir do qual os judeus são cerceados em seus direitos e começam a ser discriminados. Por alguns séculos os judeus são tolerados sob a condição de que um dia se converterão e serão “a abertura da segunda vinda de Cristo”. Como isto não ocorreu no Ano Mil, os judeus passam a ser vistos como satânicos e misantropos. A baixa Idade Média será uma era de profundo trauma na memória judaica. O fato de não se converter e resistir se tornou o motivo desta perseguição, sob uma ótica parcial, mas importante. Num mundo cristão não preenchemos as expectativas de um imaginário coletivo que queria definir nossa crença e nosso papel na história.
Assim pagamos um elevado preço por pensar e ser diferentes. A nossa diversidade cultural e nossa identidade coletiva foi uma marca visível e marcante em nossas vidas. Fomos marcados como gado: roupas e insígnias; espaços proibidos; excluídos ora de funções econômicas, ora de funções políticas, ora de atuações sociais. Não éramos vistos como humanos, dignos e confiáveis. Éramos deicidas e conspirávamos contra o bem-estar comum da sociedade que nos circundava. Tudo por pensar, agir e refletir a realidade de maneira diferente. Ou seja: nossa identidade sempre foi pensar e ser diferentes. Saber divergir, saber ter uma opinião.
E hoje?

CONCLUSÕES
Cadê a nossa crítica? Onde foi parar a nossa diversidade? Qual é a nossa atitude judaica e universal na realidade interna (comunidade) e externa (Brasil e/ou Mundo)? Não sabemos fazer perguntas e nos satisfazemos com respostas do tipo “Fantástico” ou “Jornal Nacional”. Inseridos na sociedade de consumo optamos por abandonar a ética e a filosofia judaica por serem complicadas e imbricadas em profundas reflexões e questionamentos. Optamos por digerir uma dose elevada de Shopping Centers e de cultura de massa. Bem mais palatável e fácil: pouco conteúdo e muita forma.
Para concluir, diria o Livro do Eclesiastes (cap.1: vers. 2): “Vaidade de vaidades [...] Tudo é vaidade”.
Estamos ocos, envolvidos na frivolidade de valores consumistas e gastando uma “nota” no analista e em antidepressivos, pois se não pensamos em algo consistente, o vácuo da vida gera depressão e vazio. “Sem lenço e sem documento”, dizia Caetano Veloso na sua musica “Alegria, alegria”, lançada num festival dos anos sessenta. Estamos sem lenço para chorar em Tishá Beav e sem identidade para nos encontrarmos e reconhecermos quem somos e o que queremos para definir o sentido de nossas vidas.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.