Conversas com um soldado
Vittorio Corinaldi *

A realidade israelense é objeto de não poucas polêmicas na imprensa e na opinião pública mundiais. E posições de direita ou de esquerda se contrapõem, emitindo julgamentos categóricos quanto à ocupação de territórios, tratamento de populações civis, direitos humanos, segurança e sobrevivência nacional, etc.
Quase sempre tais opiniões partem de ambientes que pouco conhecem da verdadeira natureza do conflito: nada sabem das reais dimensões geográficas deste país; nada sabem da complicada estrutura social e dos complexos relacionamentos que se verificam entre judeus e palestinos na intricada malha geopolítica vigente; ignoram completamente a natureza do exército de Israel, e não são cientes do caráter específico desse exército e de seu forte contingente de cidadãos civis reservistas, convocados anualmente para um inevitável período de serviço militar.
Dias atrás me vi imerso num diálogo e ulteriores reflexões sobre tudo isto, quando acompanhei meu filho de 39 anos ao lugar de seu destacamento, em posição situada nos territórios da Samária, de regresso da curta licença de seu regulamentar serviço de um mês.
A conversa com ele durante o caminho (inimaginavelmente curto desde Tel Aviv, esclareço para o leitor alheio à citada realidade geográfica) girou naturalmente sobre as tarefas que lhe cabem como soldado; sobre os conflitos de ordem prática e de consciência com que ele é obrigado a medir-se; sobre a absurda situação de um adulto pai de família que, convocado para desempenhar uma função de defesa baseada em longa especialização profissional no quadro da organização do exército, vê-se diante de uma atividade de caráter “policial” frente a civis (em sua maioria inocentes cidadãos em busca de trabalho em Israel, mas dentre os quais podem se infiltrar elementos hostis com intenções de violência e terror – como acontece com freqüência e como é fácil fazer, tendo em conta a surrealista composição de assentamentos judeus disseminados entre aldeias e cidades árabes, a pouco eficiente e às vezes desumana construção de muros e cercados que separem entre estes, a recíproca dependência das economias de ambos os lados, agora sabotada pelo perigo de exploração abusiva das possibilidades de abertura).
Vem então à tona o dilema do israelense “médio”: ele se opõe aos assentamentos de inspiração messiânico-nacionalista que deram origem a esta absurda realidade; ele abomina as manifestações de extremismo judeu que chegou ao trágico cume do assassínio de Rabin e que se produz em repetidos atos de inútil e revoltante comportamento ofensivo para os habitantes palestinos; ele condena a ação de políticos ineficientes ou desonestos, que sobrepondo interesses “táticos” politiqueiros aos verdadeiros interesses da nação, vêm há anos conduzindo o país em direção oposta à tentativa de acordos com o lado rival – única possibilidade de chegar a algum sossego nesta sofrida região; ele se revolta com atos de intolerância e injustiça voltados para civis indefesos, que forçosamente acontecem na atual situação de mútuo desgaste e desconfiança, e que não alteram a básica definição de “exército mais humano que se conhece” associada ao Tzahal.
Mas ao mesmo tempo, não pode aceitar cômodas e acadêmicas exigências de círculos da esquerda (“Esquerda Festiva” em sua maioria, e integrada infelizmente também por representantes judeus), em favor de incondicionais concessões ao lado palestino – concessões já tentadas e demonstradas inúteis, contraproducentes e perigosas.
Além disso, seria cegueira não enxergar a presente incapacidade da liderança palestina de exercer realmente sua autoridade, e a anárquica liberdade de que gozam bandos extremistas armados: liberdade que se traduz em cruéis lutas internas, mas também em atos de provocação e violência contra Israel, a que este não pode se subtrair. Nem pode ignorar ou considerar levianamente ameaças provenientes do Irã ou de círculos islâmicos fanáticos que os fomentam.
Encontro-me agora em meio à leitura de uma ampla História da Shoá recentemente publicada na Itália: nela se mostram as fontes profundas e longínquas que alimentaram o anti-semitismo nazista. Longe de estar aniquiladas, essas fontes dão insistentes sinais de reativação a serviço de novas metas contra o povo judeu e sua mais vital moderna expressão, o Estado de Israel. A renovada conclusão a que leva tal leitura é infelizmente a absoluta impossibilidade de Israel de confiar verdadeiramente em qualquer apoio externo. E, portanto a necessidade - independente das realidades políticas, militares, táticas, estratégicas ou o que for – de um Israel forte.
Podem-se apontar inúmeros aspectos em que deverá se apoiar essa força. Mas indiscutivelmente ela terá como ponto de partida o soldado-cidadão individual, consciente de seu pequeno papel no amplo quadro de uma defesa judaica ativa, que torne impossível qualquer repetição do Holocausto.
Ora, o quadro da conversa com o filho não ficaria completo, se não citasse também o aspecto de frustração que o honesto e responsável soldado de Miluím (o contingente da reserva convocado periodicamente) sente devido ao crescente número de “fugitivos do serviço”, que conseguem escapar deste sob alegações de vário tipo, gravando naturalmente sobre aqueles que atendem ao chamado.
Há que lembrar novamente que se trata de pessoas adultas, com família e obrigações de trabalho que têm que ser interrompidas com visível sacrifício. E a fuga do serviço – principalmente do setor religioso ortodoxo, mas também de setores leigos menos imbuídos da necessária motivação, é uma falha de ordem ética e moral dificilmente justificável, e um fator que poderá levar a uma oposição aberta a ações militares em áreas de falta de consenso: um fato que vem de encontro à essencial finalidade da força armada israelense.
Eis aqui uma descrição de situações banais, não julgadas através de clichês ideológicos ou idéias pré-concebidas, a que o israelense comum se vê solicitado dia-a-dia.
Seria útil que também o leitor na Golá refletisse sobre elas, e as incluísse nos seus critérios de avaliação da situação constantemente vulnerável do judeu no mundo. Mas que o fizesse sabendo que a base de qualquer solução coletiva é o indivíduo, com suas fraquezas e suas qualidades: no que se revelaria talvez o mais essencial fator de nossa vitalidade e de nossa força.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e vive em Tel Aviv, Israel.