Dando um tempo... 1 
Por: Jane Bichmacher de Glasman


Introdução: judaísmo e tempo atemporalParafraseando a analogia do Salmo 90: "Mil anos a teus olhos são como o dia de ontem", a história de um povo corresponde a um instante na eternidade do mundo. Apesar do relato histórico do povo judeu apresentar sentido tão cósmico, nossa milenar continuidade cultural-religiosa talvez seja a mais extensa que qualquer grupo étnico-religioso tenha alcançado.
Para o judeu consciente de sua história, o passado parece tão real quanto o presente, concebidos como intrinsecamente ligado um ao outro, dotados do mesmo propósito moral.
No sentido espiritual, o tempo conservou-se atemporal! Depois das concepções sobre Messias, Ressurreição, Juízo Final, terem firmado raízes no solo parcialmente místico da crença judaica no período pós-bíblico, também o futuro ligou-se ao passado e ao presente, ficando sintetizados numa certeza histórica indivisível: para o povo de Israel, a vida assume um objetivo grandioso bem delineado, como a planta de um projeto arquitetônico.
Poder-se-ia concluir que, ao aprender presumidas "verdades absolutas", a religião judaica estivesse condenada a um estado de permanente imobilidade e estagnação. Na realidade, ao mesmo tempo em que o povo apegava-se às principais doutrinas, princípios, atitudes e práticas tradicionais, a evolução histórica era contínua, ajustando-se às novas circunstâncias, às influências culturais do ambiente em geral e do espírito da época; em fase alguma da história judaica a religião permaneceu estática.Tempo e simbologiaO tempo é freqüentemente simbolizado pela Rosácea, pela Roda com seu movimento giratório pelos doze signos do Zodíaco, descrevendo o ciclo da vida, em suma, por figuras circulares. O centro do círculo seria o aspecto imóvel do ser, o eixo que possibilita o movimento dos seres, embora se oponha a este como a eternidade opõe-se ao tempo, que explica a definição agostiniana do tempo: imagem móvel da imóvel eternidade. Todo movimento toma forma circular que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai sob a possibilidade de uma medida: a do tempo. Para tentar exorcizar a angústia e o efêmero, a relojoaria moderna, inconscientemente, deu uma forma quadrada ao relógio, simbolizando a ilusão humana de poder escapar à roda inexorável e de dominar a terra, impondo-lhe a sua medida. O quadrado simboliza o espaço, a terra, a matéria. Essa passagem simbólica do temporal ao espacial não chega a suprimir a rotação em um sentido ou outro, mas oculta o efêmero para indicar tão somente o instante presente no espaço.          
O tempo simboliza um limite na duração e a distinção do mundo do Além, da eternidade. O tempo humano é finito e o tempo divino infinito, ou melhor, é a negação do tempo, o ilimitado. Portanto, não há entre eles nenhuma medida comum possível.Erev, Shabat, Rosh Hashaná – tempo judaico e descansoÉ interessante observar que todo marcador temporal judaico é iniciado pelo descanso. O relato bíblico da Criação: “Vaiehi erev vaiehi boker” (anoiteceu e amanheceu) determinou o início dos dias, na erev (véspera, tarde, anoitecer): o dia começa com o descanso da noite. Isto gerou também o “efeito Orloff”: em hebraico, hoje à noite é amanhã!Os meses e os anos do calendário judaico são determinados pelos ciclos da lua e do sol. Os meses seguem o ciclo lunar, do Molad (nascimento, lua nova) até o novilúnio seguinte.
A tradição judaica reconhece numerosas afinidades entre a lua e Israel. Assim como o Sol representa a potência material reconhecida por todos, a Lua, brilho tênue no reino da noite, representa Israel, humilhada entre as nações na noite do exílio. A influência discreta da lua simboliza o caminhar das idéias do judaísmo. Outro exemplo: o desaparecimento e depois reaparição da lua representam a eternidade de Israel, apesar das vicissitudes.Rosh Hashaná, o ano novo judaico desde o período talmúdico, corresponde ao período (no hemisfério norte) do fim do ciclo agrícola anual – o tempo do descanso da terra, para que se reinicie revigorado. E a semana judaica também pressupõe um “tempo” para descanso, uma pausa, para que se inicie a seguinte com um novo vigor, físico e espiritual.Para concluir, outra estorieta da Guemará: Porque foi o homem criado no sexto dia? Para ensinar que se um dia ele for muito soberbo, lhe seja relembrado: “A pulga veio antes de você na criação. (Sanhedrin, 38 a) Ou seja, ao mesmo tempo em que o Shabat dá ao homem sua exata dimensão, ensina-lhe a repensar a dimensão do tempo...”.Nota:
1. Trecho do artigo: Shabat – dando um tempo, Eitan SP, 2002 http://www.eitansp.org.br/ (Materiais: Apostila de Shabat)*Jane Bichmacher de Glasman é doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica da USP, professora, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos UERJ.