Na edição passada, refletimos sobre as duas versões da criação da mulher. Constatamos a existência de uma versão que concebe uma relação de relativa igualdade de valor e direitos entre os dois sexos, e outra que reordena a sociedade sob o patriarcalismo e a sujeição da mulher ao homem.
Neste mês seguiremos refletindo sobre os primeiros capítulos do livro do Gênesis, mas tecendo análises sobre o denominado Pecado Original. Este, não é um conceito judaico e não possui, no Judaísmo, um grau de importância igual ao que possui no Cristianismo. A queda do Homem e da Mulher na visão judaica é um mito das origens, que direciona o ser humano a refletir sobre suas origens, sobre a “razão de ser” da condição humana, da vida e da morte que nos delimitam nesta dimensão, e que nos levam a certa angústia de “ser”, de “ter”, de “não poder” em muitos e diversos níveis.
A queda é um processo de identidade do ser humano. Não pode ser vista como pecado e ser enfocada apenas pela ótica da desobediência da mulher e do castigo divino. Essa interpretação simplifica e reduz um texto sutil, denso e profundo a apenas um narrativa de erro e castigo. Façamos então nossa análise.
Não fomos castigados com o trabalho. O Homem trabalhava no Gan Éden (Jardim do Éden). Isto consta do cap. 2, versículo 15, no qual se diz que o Homem “cuidava e lavrava” o Éden. Após a queda ele segue trabalhando, mas não o faz num local tão verdejante e irrigado, mas sim num local desértico e repleto de espinhos e cardos (cap. 3, versículos 17 a 19). O que muda são as condições de trabalho, que se degradam, mas não o fato de trabalhar em si. Fica muito mais difícil de trabalhar. Seria como viver nas difíceis condições do Oriente Médio, à margem dos desertos e com escassez de água. Um retrato da realidade e das tradições históricas da região.
A árvore da qual não podia se colher o fruto, seria qual? Na tradição medieval se discutiu qual seria o fruto. Debateu-se: seria o figo? Ou a uva? Ou a maçã? No final da polêmica se optou pela maçã, numa alusão a sua cor avermelhada, pois neste período a queda e a desobediência estavam direcionadas para a concepção do Pecado Original. Isso não tem fundamento no texto bíblico. A maçã levou a culpa.
As árvores seriam duas: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Nada com maçã e nem com pecado. Eram arvores das quais não se podia colher e nem comer os frutos. O leitor atento do texto vai perceber que há uma clara indução de D-us para que o homem comesse do fruto da arvore do conhecimento do bem e do mal. Sendo o Eterno onisciente (tudo sabe) e onipresente (está em todos os lugares), como não impediu o gesto? Ao ser advertido por D-us, de não comer dos frutos, o Homem e a Mulher estavam sendo induzidos a fazê-lo, por D-us. Explicarei.
O casal primordial era pré-humano, visto não ser dotado nem de consciência e nem de ética. Estavam apenas alguns “centímetros” acima do reino animal. Não discerniam entre o que era certo e o que era errado, entre o que era bem e o que era mal. Ainda não haviam adquirido a plenitude de sua condição humana: não eram dotados do discernimento, da ética e dos valores que nos fazem humanos. Isso, só podiam adquirir ao “comer” do fruto proibido: poderiam entender e diferença entre o bem e o mal, poderiam dotar-se do livre arbítrio e ser responsáveis diante do Criador, por seus atos. Enfim se tornariam humanos.
Esta situação e condição são semelhantes àquelas de pais diante de seus filhos. Não os criam para ficar sob seu controle e custódia pelo resto da vida. Os filhos têm que aprender a discernir sobre o certo e o errado e adquirir autonomia. Saem do “ninho quente” do lar (ou seja o Éden) aonde não tinham tantas responsabilidades e viviam nas melhores condições, para cultivar campos de pedras e espinhos e se tornar autônomos e responsáveis. Todos nós temos que nos afirmar e sair dos “cordões umbilicais”, lares aconchegantes, espécies de “Jardins de Éden” e entrar no mundo para transformá-lo num novo Jardim do Éden. D-us nos deu o fruto do conhecimento do bem e do mal para aprender a discernir e se humanizar.
Duas concepções de história se formam a partir deste episódio. Uma judaica e outra cristã. As duas se ampliam e bifurcam, havendo uma diversidade de interpretações. Faremos uma generalização jornalística de um tema complexo.
Na concepção de História pagã, o mundo estava acoplado à natureza. Os deuses eram elementos da natureza e o ciclo natural do ano se fechava em si mesmo e se repetia num mesmo nível e na superfície. Um círculo que se repetia: cada estação era um momento deste circulo e o tempo cíclico se voltava a si mesmo. O Homem estava inserido natureza, sendo parte dela e os seus deuses eram elementos naturais (animismo).
As concepções de história judaica e cristã elaboram uma nova dimensão de história. Transcendem a natureza, e concebem um D-us, criador da natureza e não parte dela. Rompe o círculo contínuo e o ciclo da natureza que se repete ano a ano. Inicia um processo que roda em torno dos anos, mas não em círculos, e sim em uma espiral que parte de baixo para cima, em níveis que se elevam. O momento da queda é o início. A partir deste fato, o homem inicia sua ascensão de volta ao Paraíso (Gan Éden). O início e o final se encontram no momento da Redenção.
O Judaísmo passa a conceber o Mundo e sua história como um macrocosmo da Criação. Se o Mundo foi feito em seis dias, deverá durar por seis eras. Baseado num Salmo que diz que para D-us “um dia são mil anos”, começam a ser realizadas as mais diversas contagens para descobrir quando ocorreria o final da História. A criação da gerimatria inserida na Cabala (vertente mítica judaica) desenvolve uma contagem baseada nos valores numéricos das letras hebraicas. Trechos das Escrituras são “decodificados” e permitem cálculos e profecias. A visão judaica não dota o pecado “dito original” de muita importância: é apenas o marco inicial de um processo. Não estigmatiza o gênero humano com o mal e com a necessidade de repressão. A queda não significa para o Judaísmo, o que o Pecado Original significa para a Cristandade: a razão de ser.
O Pecado Original é um conceito cristão que adquiriu consistência com os chamados Padres da Igreja. Os mais veementes destes foram Tertuliano, Jerônimo e Crisóstomo. Enfatizaram a queda como um ato de extrema gravidade e a partir do conceito de Pecado Original direcionaram a sociedade cristã para uma radical postura: o mal impregna o gênero humano, desde Adão e Eva. A razão de ser do governo é controlar, punir e intervir na sociedade para coagir a todos a se distanciar do pecado. O Estado tem a função de coerção, punição e controle social.
A concepção filosófica que mais influenciou o Cristianismo nesse período era a neoplatônica. Um de seus aspectos mais marcantes era a teoria de que havia um antagonismo entre o espírito e a matéria. D-us era visto como espiritualidade absoluta e quando dele se distanciamos, nos aproximamos da materialidade, dos prazeres sensoriais e, portanto do pecado. Todas as coisas que geram prazer, tais como comer, beber, ter riquezas, a luxúria se igualam ao pecado. O conceito dos sete pecados capitais se origina aqui. Havia uma razão de ser: os seres humanos iniciaram sua história no pecado e só seriam redimidos por D-us, se destes se distanciassem. Tudo que era prazer começava a virar pecado.
Eva, então, torna-se a primeira pecadora e responsável pela queda, e pelas tentações carnais em que o Homem “cai”, ao vê-la e desejá-la, carnalmente. Controlar a Mulher, deter sua força de atração sob o Homem torna-se uma missão. O homem santo não pode se entregar aos prazeres mundanos e carnais. Castidade, pureza, virgindade, e distância do Mundo e de suas tentações são objetivos maiores do Cristianismo. O Pecado Original deixa de ser o conhecimento do bem e do mal para se tornar o sexo. O mal que se descobre, passa a ser a sexualidade. A repressão aos prazeres tende a ser a motivação do homem santo cristão: monges, padres e outros clérigos devem dedicar as suas vidas e seus corpos a ideais de continência, castidade e abstinência de prazeres carnais e sensoriais.
O Judaísmo não desenvolve esta vertente. Adota posturas conservadoras e controla a mulher cercando-a. Contudo, nunca impregna o gênero feminino de uma aura de malignidade, apesar de haver alguns ditos rabínicos dotados de doses, ora leves, ora exacerbadas de misoginia, ou seja, a suposição de certa “inferioridade” da mulher. Não se associa nunca a mulher ao mal e ao pecado, mesmo quando se cerceia sua presença em espaços públicos e se limita sua atuação nos ritos religiosos. Suas funções são delimitadas ao lar, a geração e criação de filhos e assim sendo cumpre sua função na família, geralmente honrada e exaltada, mesmo se limitada em certos direitos e restrita a espaços privados.
Os pecados capitais não existem no Judaísmo. Exalta-se a moderação e boas medidas. Comer e beber faz bem e deve ser feito com prazer e moderação. No Shabat e nas festas pode-se exceder um pouco, sem perder a boa medida. As exceções de Purim e Simchat Torá nas quais se bebe um “pouco demais” mostram que não há pecado em beber e comer. A sexualidade conjugal é exaltada e não seria exagero dizer que se trata de um “mitzvá” ou preceito que o homem não deixe de saciar sua esposa e cumprir seu dever conjugal. É evidente que há regras e detalhes de pureza ritual muito amplas e que delimitam excessos e perversões. Ainda assim o amor entre cônjuges nunca foi considerado como pecado ou inadequado. Rabinos não apenas podem, mas devem casar e ter família para poder liderar uma congregação com conhecimento da vida conjugal.
Eva é a mãe da Humanidade. Um tesouro para o Homem. Rabán Gamliel foi indagado pelo imperador romano se o D-us de Israel era um ladrão, pois roubara as costelas de Adão, que dormia. O rabi respondeu com sutileza: comparou D-us com um homem que entra numa casa e retira um objeto de prata e coloca em seu lugar outro melhor e feito de ouro. Então lhe respondeu que se tratava de um “ladrão” especial que levou algumas costelas e lhe deu o tesouro que era a mulher. (Talmud Bavli, Tratado Sanhedrin, 39 a).
Abençoada Eva, que na crença e na tradição, foi a primeira mulher. Graças a ela transcendemos o reino animal e discernimos entre o Bem e o Mal. Aliás, ainda é a mãe que insere através de seu ventre o Judaísmo em seus filhos, de acordo a Halachá (Lei judaica) ortodoxa. Mesmo sendo adepto da patrilinearidade (transmissão do Judaísmo pelo pai), admito que se trate de uma justa homenagem às mulheres que descendem de Eva.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.