OPA - Sur les juifs de France
Enquête sur un exodo programmé 2000-2005
Cécilia Gabizon & Johan Weisz
Ed. Grasset, 265 pp
Reginaldo De Souza *
“Proponho a todos os judeus vir para Israel, especialmente os da França que devem decidir o mais rápido possível”. Ariel Sharon – 19 de julho de 2004.
A declaração do premiê Sharon pegou de surpresa o Quai d’Orsay fazendo tremer as relações franco-israelenses e provocando mal-estar, devido à publicidade, entre as autoridades comunitárias da França no alvorecer do novo século. A Agência Judaica — braço direito do sionismo, vinha sigilosamente implementando um plano para convencer grande parte da comunidade francesa a imigrar para Israel, tendo em vista a insegurança provocada por mais uma onda de anti-semitismo, que levou o Grão-Rabino Sitruk em pronunciamento na Radio Shalom, a apelar aos judeus franceses para que, por medida de segurança, substituíssem o solidéu por um boné nas vias públicas, e à total islamização da Europa – que os iconoclastas denominam de Eurábia.
“Uma parte do nosso trabalho para combater o anti-semitismo consiste em tornar o povo judeu consciente do anti-semitismo que o cerca”, relata Tzipi Livni, então ministra da Integração e Justiça israelenses, desenhando a estrutura ideológica da operação iniciada em 2004, no sentido de convencer os judeus franceses a viverem em Israel, o que conseguem em parte, com 2.415 dos trinta mil previstos numa primeira etapa.
A Operação Sarcelles como ficou conhecida, porque teria início na cidadezinha ao norte de Paris com 58 mil habitantes, 15% dos quais sefaradís oriundos das ex-colônias no Magreb, imigrados nos anos 60, começou num domingo de abril de 2004 quando um carro, conduzindo cinco importantes personagens de considerável influência e devotados à união dos judeus em Israel, rumava para Sarcelles: Pierre Besnainou, rico empreendedor francês nascido em Tunis, em 1955 e desde os 18 anos em Paris; Menahem Gourary, na época diretor da Agência Judaica na Europa e seu secretário Olivier Rafowicz; Zeev Bielski do Likud, partido de direita então no poder em Israel e a poderosa Carole Salomon, do comitê de direção da Agência nos Estados Unidos.
Sarcelles foi um lugar de coexistência pacifica entre os judeus chegados primeiro, seguidos pelos muçulmanos do Norte da África nos anos 60 até o fim dos anos 70, quando “não se era judeu ou muçulmano, mas antes de tudo eram argelinos e tunisianos ligados por um passado comum”. A situação começou a mudar na década de 80 até por causa da maior dificuldade de adaptação dos muçulmanos, piorando significativamente logo após começar a segunda Intifada – narra o livro que o pivô teriam sido as imagens tendenciosas montadas pela Agência France Presse, porta-voz do Quai D’Orsay. Quem não se lembra da criança palestina morta nos braços do pai em 30 de setembro de 2000 na frente das câmeras e divulgadas em escala global?
A opinião publica internacional reagiu exigindo a apuração dos fatos e o jornalista Clément Weil-Raynal empenhou-se no impossível exame critico de todos os despachos da AFP, descobrindo que tudo não passara de uma farsa. O estrago já estava feito e a Intifada II espalhava o pânico em Israel, o anti-semitismo latente do francês mais uma vez vinha à tona – nunca é demais lembrar que os fundamentos de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa de 27/10/1791 para o judeu foram diferentes: “é necessário recusar tudo aos judeus como nação; e tudo conceder como indivíduos” — Conde de Clermont-Tonerre, em 1790."
A Agência Judaica no início de 2004 tinha planejado em sigilo a partida de cerca de trinta mil judeus, entre eles, todos os de Sarcelles, comunidade sefaradita tradicionalmente muito próxima de Israel, que estava demasiadamente exposta ao fogo anti-semita. Assim começou a Operação Sarcelles, com os delegados israelenses fazendo o porta-a-porta. Mesmo assim, a noticia se espalhou. Os altos responsáveis das comunidades ao tomarem conhecimento do plano apóiam e recomendam a partida, o mesmo acontece com os intelectuais da extrema esquerda que fazem causa comum com a extrema direita para fustigar a França “anti-semita e pró-árabe”.
Os dirigentes da Agência jogam uma batalha decisiva: precisam da imigração para continuar sendo um Estado democrático de maioria judaica. Em 1960 os judeus representavam 89% da população decaindo em 2005 para 81%, incluindo-se os não-judeus integrados segundo a Lei do Retorno, que permite a todos que tenham um antepassado judeu e seus cônjuges de se tornarem israelense. Sem esses o percentual cai ainda mais, para 77%.
Os árabes israelenses constituem cerca de 20% da população do Estado, mas representam 28% na faixa etária dos 0-14 anos, e em 2020 esses números crescerão para 23% no primeiro caso e 30% com menos de 15 anos. A taxa de natalidade das mulheres árabes israelenses é de 4,5 filhos contra 2,6 para as judias, de acordo com pesquisas do professor Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém – o que é compreensível dada as diferenças culturais existentes entre eles.
Para chamar atenção do ishuv francês a Agência lançou nova ofensiva em 2005 ao contratar, pela primeira vez a IBM Business Consulting, para fazer um estudo detalhado no mercado americano “Alyah by choice, an introduction to the North American marketing strategy”, reunindo o sionismo e as técnicas modernas de marketing que para alguns é desconcertante: os candidatos à aliá se tornam “clientes” aos quais é necessário conquistar e seduzir... Porém, mais desconcertante ainda, é a afirmação dos autores de que, envolvida que está no pensar o Estado de Israel e a aliá dos judeus da Diáspora em sociedades onde é forte o anti-semitismo, a Agência Judaica reconhece, e precisa também que parte dessa Diáspora continue em seus países de origem como uma forma de minimizar os constantes ataques a Eretz Israel.
Um fato é real, se a operação aliá não teve, ainda, o sucesso esperado pela Agência, serviu de alavanca para que grandes investimentos fossem feitos em Israel por milhares de judeus franceses desde 2002. Só no mercado imobiliário chegou a um total de 807 milhões de dólares, a maior parte procedente da França que representa também, cerca de 40% dos clientes estrangeiros do banco Psagot-Ofek Investment House. Hoje é comum os judeus franceses terem seus imóveis em Israel.
O livro, que chegou às livrarias francesas em 26 de abril, está provocando os maiores debates na mídia — metade contra, metade a favor — é fruto de um trabalho de pesquisa de três anos, cujos dados foram coletados até janeiro deste ano, por Cécilia Gabizon, jornalista do Le Figaro e Johan Weisz da Radio Shalom, dentro da comunidade judaica, na França, em Israel, nas sinagogas e no meio intelectual, e levou “à descoberta” de uma operação fora do comum. Sua leitura nos faz lembrar o jornalismo investigativo de “Le Siècle d’Israel” (ed. Fayard) e “Ils ont tué Rabin” (ed. Robert Laffont), ambos de Jacques Derogy & Hesi Carmel.
* Reginaldo De Souza é jornalista, tradutor, agente literário e correspondente no Brasil do Centro Cultural Maestrale de Sestri Levante – Gênova.
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