Entre heréticos e dogmáticos (III) - O profetismo hebraico: uma análise heterodoxa
Por:Sérgio Feldman


Quem sabe determinar qual é o melhor caminho? Quem pode saber qual é a verdade?
Esta é uma questão reincidente na nossa história. Por vezes, os dissidentes e os opositores são denegridos e discriminados. São considerados traidores e inimigos do Estado: a maioria os condena, o poder constituído os persegue e castiga, e eles sofrem por suas idéias e escolhas. Assim foi com uma parte importante de nossos profetas.
Há quem possa achar que estou sendo desrespeitoso com os profetas. Seria uma ótica, no mínimo precipitada e superficial. A sua grandeza foi justamente se opor à opinião da maioria e criticar certas “verdades aceitas” ou atitudes consideradas adequadas.
Vejamos um exemplo. O pastor de Tecoa: Amós. Um humilde pastor e criador de sicômoros, nas suas palavras (Amós, c. 7, v. 14). Sob o impacto da Revelação divina, saiu do deserto da Judéia (Midbar Iehudá), de sua aldeia e de seu rebanho. Rumou para a cidade fronteiriça de Bet El, localizada ao sul do reino de Israel. Amós era do reino de Judá, portanto um estrangeiro, no sentido político. D-us lhe ordenara dirigir–se para Bet El e criticar a desobediência ao Pacto: a idolatria de Baal, a falta de justiça social e de ajuda ao próximo pela população das classes abastadas. Suas palavras foram duras e críticas: previu a queda e a destruição dos reinos vizinhos (Amós, c. 1-2). Isso até que podia ser tolerado: eram inimigos dos reinos de Israel e de Judá. Na seqüência adverte sobre o fim próximo do reino de Israel: tratava-se de um crime de lesa majestade (Amós, c. 3). Conspiração contra a monarquia e contra o reino. Na seqüência, é advertido pelo sacerdote Amazias sobre sua postura de traidor: repete e aclara que “[...] Jeroboão morrerá à espada, e Israel será levado fora de sua terra em cativeiro” (Amós, c. 7, v. 10). Ou seja, o rei morreria (fato que não se consumou) e a população seria levada ao cativeiro, fato que se consumou algumas décadas depois com a invasão assíria e a destruição do reino de Israel em 722 a.e.c.
Amós era dotado de um verbo ardoroso e uma retórica agressiva. Chamou as ricas mulheres de Samária que não se importavam com a miséria de seus concidadãos e faziam banquetes, indiferentes à fome e à pobreza social, de “vacas gordas de Basã” (Amós, cap. 4, v. 1). Avisou a classe política e administrativa de que seus crimes “sociais” não seriam perdoados: seriam arrastados através das “brechas das muralhas” espetados em anzóis, como se fossem animais abatidos pela ira divina. Um inimigo do Estado: previa a invasão assíria e a destruição do reino, suas instituições e a derrocada da classe dominante. A Assíria serviria como instrumento da ira divina. D-us agia na História e através desta, na concepção dos profetas em geral e de Amós em particular.
E acertou em suas previsões. Amós foi instado a retornar a sua terra de origem (Judá) e abandonar suas críticas públicas à monarquia e ao reino de Israel. Deve ter obedecido: senão teria sido executado como traidor.
Óbvio que há duvidas sobre a redação do texto: pode haver anacronismos, entre narrativa e fato. Isso não invalida a força de sua retórica e a acerba crítica do poder e do Estado que não atua em prol do bem estar coletivo. A quantos políticos deste ou de outros governos, serviria a carapuça? Nas palavras de Amós poderíamos ver criticas aos políticos de todos os partidos e de todas as ideologias, ontem, hoje e infelizmente amanhã. Não se pode perder a dimensão universal do problema e enxergá-lo apenas num contexto presente ou de remoto passado.
Outro profeta exemplar foi Isaías. Podem ter existido dois ou mais Isaías de acordo a crítica bíblica. Vamos nos abster de discutir esta análise, não por não concordarmos com ela, mas por não ser pertinente, aos nossos propósitos de análise. Isaías ao que tudo indica era parente da casa real. Por isso, não foi importunado e nem perseguido de acordo ao texto bíblico. Suas profecias sobre o tempo messiânico encantam a todos os leitores. Descrições do encontro de animais predadores e animais pacíficos no fim dos tempos, sob um clima de paz e harmonia, são preciosos textos que emanam fé na harmonia e na paz que ocorreria no Milênio: “E morará o lobo com o cordeiro [...]” (Isaías, c.11, v. 6). O fim das guerras é exaltado na belíssima frase: “[...] não levantará espada, nação contra nação e não aprenderão mais a guerra” (Isaías, c.2, v. 4).    
Isaías não se resume a estas frases proféticas universais e que auguram um futuro promissor. Critica a todos os desvios do Pacto: idolatria, injustiça social, violência da classe dominante e do Estado contra as massas pauperizadas, a questão fundiária e muitos outros temas. Ameaça e adverte para o castigo divino: haverá destruição e exílio. O reino de Judá seria destruído e a sua população seria levada ao exílio. Altera sua atitude diante da prepotência do general assírio Rabsaque, que ironiza sobre o poder do D-us dos hebreus, que não seria tão forte ao ponto de impedir que a cidade de Jerusalém sobrevivesse ao cerco. Isso significava que o deus assírio poderia se impor e prevalecer. Isaías, fala então em nome de D-us, ordena a defesa da cidade e a não rendição ao blasfemo comandante. Um anjo de D-us (peste) se abate sobre o campo assírio e a mortandade se espalha entre as hostes do invasor: os assírios batem em retirada deixando a cidade intacta. Isaías ainda assim adverte que a destruição e o exílio se consumariam: ou seja, apesar de ter intermediado a salvação diante do exército assírio, o castigo viria na seqüência. Sendo assim, Isaías seria um severo crítico e um “inimigo do Estado”, mesmo tendo auxiliado na defesa dele num contexto específico.
O terceiro profeta é Jeremias. Um ser humano notável, repleto de conflitos existenciais e questionamentos da razão de ser de tudo. Percebe a iminência da destruição e sofre: sofre pelo destino da cidade que ama; do Templo onde se cultuava D-us; do povo que teima em idolatrar e não agir com respeito pelo sofrimento dos fracos e dos oprimidos.
A Babilônia seria desta vez o instrumento da ira divina. Consumaria o castigo, executaria a terrível pena que se decretara, já pelas palavras de Isaías e de Miquéias, entre outros. Jeremias foi visto e tratado como um inimigo do Estado: atentados contra sua integridade física foram perpetrados. Quase morreu em alguns deles. Sobreviveu ao que parece, mas deve ter sofrido muito com a destruição de Jerusalém, do Templo e a severa pena infligida a população: o Exílio da Babilônia. Tratou de consolar o povo nas suas Lamentações. Previu o retorno e a reconstrução do Templo. Mas sofreu duplamente: com a cegueira de seus contemporâneos e com a sina que lhes foi atribuída em vista desta cegueira. Os atentados à sua vida não o mataram. Mas criaram uma profunda angústia, pois sofria por falar algo que as pessoas não queriam ouvir, mas que seria fatal ao destino deles como indivíduos e como povo.
Os nossos dissidentes entraram para a história judaica e para a cultura universal. Críticos e argutos, visionários e profundos analistas das contradições de seu mundo. Ousaram ver e dizer o que ninguém queria ou ousava dizer. Sofreram por isso. Ainda hoje são condenados os que ousam ser críticos e visionários. Ainda hoje se exorcizam as diferenças e a diversidade cultural, étnica e ideológica. Deveríamos ler melhor os nossos profetas: não para pregar a pseudomoralidade e o conservadorismo, mas a crença em um mundo mais tolerante, justo e pacífico, de acordo com a essência das idéias e ideais proféticos.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.