O Judaísmo nunca teve medo da democracia
Por quase 2 mil anos a original fé monoteísta a abraçou e se aperfeiçoou
Por: Berel Wein


Tendo sobrevivido às eleições israelenses com todas as incertezas que todas as eleições apresentam aos chamados vencedores e perdedores, talvez esteja na hora de dar uma olhada no processo democrático das eleições a partir de uma perspectiva da história judaica.
À primeira vista o Judaísmo não parece favorecer o processo eleitoral para a escolha de seus líderes. Moisés foi escolhido por D-us para liderar Israel, mas não por algum tipo de voto popular. O sacerdócio — a condição de ser kohanim (plural de kohen [coanita, classe sacerdotal dos antigos hebreus]) foi reservada para Aarão e seus descendentes, também através de ordem religiosa. Josué foi designado por Moisés, novamente sob as instruções de D-us, para sucedê-lo como líder do povo. Os Juízes, porém, eram autodesignados, mas algum deles como Yiftach, Gideão, Avimelech e até mesmo Sansão foram popularmente confirmados por causa de suas façanhas na defesa de Israel contra seus inimigos.
A mais forte objeção a um poder autorizado, a monarquia dinástica, foi efetivada pelo grande profeta Samuel. Ele contestou a forma pela qual o povo exigia um rei para governá-lo "da mesma maneira que todas as outras nações”. Saul provou a si próprio que foi falho e um monarca deficiente e só David provou ser o rei ideal de Israel. Até mesmo seu filho, Salomão, ao término de se governo já não era visto favoravelmente e o registro dos reis de Israel e Judá, até mesmo aqueles quer foram ungidos pelos profetas de D-us, provaram ser negativos ou no melhor dos casos irregulares. O período inteiro do Segundo Templo, só com exceções raras, viu reinados tirânicos e corrupção em níveis elevados.
Foi no campo do estudo da Torá que as idéias e os ideais democráticos ganharam força. Um lenhador como o grande sábio Hillel pode tornar-se o nassi — o líder do Sinédrio e da yeshivá (academia rabínica). Decisões halachicas (direito religioso judaico) foram tomadas através da maioria de votos. Raban Gamliel foi temporariamente deposto do cargo de nassiimpeachment se você quiser assim — por causa do seu comportamento antidemocrático para com outros eruditos. O rabino Elazar ben Azarya abriu a academia de estudos à freqüência de todos e não só da elite ou dos aristocratas.
Os diretores das principais yeshivás (academias rabínicas) da Babilônia, durante o período de composição e edição do Talmude, eram escolhidos pela opinião popular entre os estudantes e os outros doutos acadêmicos. As yeshivás da França durante o período de Rashi, o maior dos comentaristas bíblicos, eram notáveis por suas abertura, franqueza e tolerância das visões e dos estilos discrepantes.
Subsequentemente durante o exílio europeu não houve realmente nenhum governo judeu independente (com exceção talvez limitada ao Conselho das Quatro Nações no décimo sexto, décimo sétimo e parte do décimo oitavo séculos na Europa Oriental) os líderes judeus eram escolhidos e reconhecidos por aprovação popular e aclamação. As eleições, ainda que freqüentemente gerassem discórdia e contenciosos, foram mantidas para a escolha dos rabinos das comunidades. Até mesmo os líderes seculares das comunidades estavam sujeitos à aprovação popular e sempre enfrentaram a ameaça de revogação dos cargos se a população estivesse suficientemente insatisfeita com suas administrações.
Nas yeshivás, os estudantes quase “reinavam no poleiro” decidindo quais deveriam ser os principais acadêmicos que fariam as conferências e liderariam as instituições. A história das yeshivás da Europa Oriental sempre foi marcada por incidentes de revoltas de estudante e os estudantes sempre tiveram a opção de “votar com seus os pés” e deixar uma instituição para estudar em outro lugar.
O mundo chassídico foi durante seu primeiro século ferozmente “meritocrático”. Os opositores do chassidismo escarneceram do mundo chassídico do século dezoito, afirmando que "se alguém diz que é um rebbe, então ele é um rebbe!". Porém, até certo ponto esta era uma forma de elogio indireto ao chassidismo, abrindo o campo de participação na arena pública do Judaísmo para milhões que não podiam obter os padrões da elite para os elevados estudos judaicos. Foi só na metade do décimo nono século que o chassidismo se tornou predominantemente dinástico, apesar de que nesse espaço de tempo permitiu-se criar novas dinastias que se tornaram populares.
No século vinte, a vida judaica foi governada quase completamente por eleições, e diferentes partidos faziam campanha continuamente — uma situação que obviamente pertence hoje ao nosso Estado de Israel.
Em todas as facetas do mundo judaico, dominava a opinião popular, para sempre ou para o melhor. Muitos dos grandes líderes religiosos do mundo da Torá não foram pessoas que ocupavam cargos públicos principais, mas eram antes pessoas que foram eleitas "para ser seguidas por reconhecimento ou aclamação popular”. A vida judaica é por esta razão bastante democrática, e qualquer um poderia dizer até mesmo muito democrática por isso tender a ser turbulento e caótico.
Mas como Winston Churchill disse uma vez: “A Democracia é um modo terrível e ineficiente de governar. Mas é longe melhor que qualquer outra forma de governar que o homem até agora inventou".

* Berel Wein é rabino, historiador, escritor, conferencista internacional e colaborador da Jewish World Review (JWR) [Revista do Mundo judaico]. Possui uma seleção completa de CDs, fitas de áudio, fitas vídeo, DVDs e livros sobre história judaica  (www.rabbiwein.com). O presente artigo está publicado no site da JWR (http://jewishworldreview.com/wein/wein_democracy.php3) desde
O dia 5 de abril de 2006.